Durão Barroso recordou tempos difíceis da ditadura

Durão  Barroso recordou tempos difíceis da ditadura

 

Lusa / AO online   Nacional   9 de Out de 2007, 15:58

O presidente da Comissão Europeia recordou hoje os tempos em que trazer caramelos de Espanha era quase incorrer num crime de contrabando e ouvir o tema "Je T´aime, Moi Non Plus", de Jane Birkin, um acto ilícito.
    José Manuel Durão Barroso recorreu a estes dois exemplos perante os alunos do liceu Camões, em Lisboa, para mostrar o caminho percorrido por Portugal desde a ditadura, bem como a abertura que permitiu a adesão à União Europeia, não só ao nível das fronteiras físicas, mas também do ponto de vista social e cultural.

    "Nesse tempo (antigo regime) não podíamos comprar e ler os livros que queríamos, nem ouvir os discos que queríamos", afirmou Durão Barroso, indicando que naquela altura ir a Espanha "era uma aventura", com a fiscalização da Guarda Civil do outro lado da fronteira.

    "Não nos podemos esquecer de uma coisa, até 1974 em Portugal não havia liberdade política, mas também não havia em Espanha e a Grécia tinha acabado de chegar à democracia", lembrou Durão Barroso, recuando até à II Guerra Mundial para explicar os motivos de construção da Europa.

    Durão Barroso sublinhou que quando se fala da Europa é preciso pôr os factos em perspectiva, explicando que após o fim da guerra, em 1945, meia de dúzia de países chegaram a acordo para lançar a Comunidade Económica Europeia, que teve como antecedente a Comunidade Económica do Carvão e do Aço (matérias primas usadas para fazer as armas) e cujo objectivo político era a paz.

    Da abolição das ditaduras na Europa do Sul e mais tarde no Leste, a uma União Europeia formada por 27 países, o caminho percorrido é hoje "um motivo de orgulho", considerou.

    "Somos hoje, agregados, o maior conjunto integrado de países, com quase 500 milhões de habitantes e, se juntarmos o Produto Interno Bruto de todos estes países, temos um PIB maior do que o dos EUA", indicou.

    A Europa - prosseguiu - "é o primeiro parceiro comercial do mundo".

    Durante esta aula, Durão Barroso salientou também o respeito pela diversidade na União Europeia, enaltecendo a liberdade e a solidariedade, que considerou "os valores fundamentais da Europa".

    "Podemos ser patriotas, gostar do nosso país (…) e ao mesmo tempo ser cidadãos da Europa", disse aos jovens, a quem manifestou "uma grande esperança no futuro da Europa".

    "Se virmos o caminho percorrido temos razão para estar felizes", reafirmou, acrescentando:"Até 2013, já comigo na CE, conseguimos mais de 21.000 milhões de euros para ajuda concreta a obras em Portugal, mas mais importante do que obras físicas foi esta abertura cultural e esta possibilidade de, em liberdade, ter acesso a muito mais bens e de desenvolver as condições sociais do povo português".

    O presidente da CE, que frequentou o Liceu Camões entre os nove e os 15 anos, respondeu a algumas perguntas dos alunos relacionadas com as suas funções e as questões que estão em cima mesa nesta presidência, mas teve também tempo para recordar os tempos de aluno e até alguns "pontos negros" do seu currículo de estudante.

    José Manuel Durão Barroso contou que foi expulso duas vezes das aulas de canto coral, porque apesar de estar a cantar o melhor que podia, o professor pensou que "estava a gozar com ele", tendo mesmo sido chamada à escola a mãe do actual presidente da CE.

    Outra memória forte que guarda daquele tempo tem a ver com a primeira consciência política.

    Um dia, um dos professores que mais admirava, Mário Dionísio, apareceu na escola com adesivos na cabeça porque "tinha levado pancada da Polícia de Choque", numa altura em que manifestar oposição ao regime acabava daquela forma ou ainda pior.
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