“Através da máscara de mergulho, conseguimos registar os momentos, pelo menos na memória”

Carlos Mendes. Natural da ilha das Flores, encontrou no mergulho e na fotografia subaquática uma forma de unir paixão e profissão. O fotógrafo capta a beleza do mundo submerso e das paisagens naturais açorianas, transformando cada mergulho e cada travessia numa oportunidade de registar a singularidade do Atlântico




Carlos Mendes, empresário no ramo do turismo na ilha das Flores, tem uma profunda ligação com o mar, uma relação que nasceu naturalmente, como resultado de crescer numa ilha rodeada pelas águas do Atlântico. Desde cedo, esta conexão evoluiu para uma paixão pelo mergulho e pela fotografia subaquática.

“Por ser nativo da ilha das Flores e ter crescido rodeado de mar, a paixão pelo mar conquistou-me”, recorda.

Carlos Mendes cedo se interessou pelo mundo subaquático, começando a usar uma máscara de mergulho, que ele considera a peça mais importante do equipamento, por permitir a observação e o registo de momentos inesquecíveis.

“Quando era miúdo, depois de aprender a nadar, a máscara e o tubo foram as primeiras peças que comecei a usar. Costumo dizer que a máscara é a peça mais importante do equipamento de mergulho, uma vez que é através dela que conseguimos registar os nossos momentos, pelo menos na memória. A partir daí, quis sempre ver mais e explorar o mundo subaquático, até que chegou a vontade de querer registar”, conta.

Este interesse surgiu também dos documentários de Jacques Cousteau sobre a vida subaquática, que o acompanharam durante a infância.

“Na altura, a televisão na ilha das Flores era a preto e branco, e havia uma ânsia enorme pelo sábado e domingo, quando passavam os documentários. Se o tempo na ilha estava um pouco mais agressivo, não se conseguia ver o documentário”, lembra.

A transição de simples admirador do mar para fotógrafo subaquático começou com equipamentos analógicos, como câmaras descartáveis da Kodak e da Fuji, antes de adquirir a sua primeira câmara subaquática em 1995. Esta paixão levou-o a documentar a vida subaquática e a beleza da ilha das Flores, tanto em terra quanto no mar, mesmo em tempos mais desafiantes, quando os equipamentos ainda eram caros e inacessíveis. Ao longo dos anos, Carlos Mendes expandiu o seu interesse, adquirindo uma câmara de vídeo.
“Depois da Expo 98, comprei uma câmara de vídeo e fiz um vídeo sobre a ilha das Flores”, recorda.

Mais tarde, começou a usar drones para capturar imagens aéreas, facilitando o registo de perspetivas antes inacessíveis.

Além da sua dedicação à fotografia subaquática, Carlos Mendes também se tornou instrutor de mergulho e fundou um centro de mergulho em 1995, unindo trabalho e paixão. Isso permitiu-lhe partilhar a beleza das águas açorianas com os clientes, ao mesmo tempo que amortizava os custos do seu hobby.

“Uma das experiências mais curiosas que tive foi com um mero que praticamente me imitava lá debaixo. Eu deitava-me no fundo e ele deitava-se também. Eu ia para um lado e ele ia atrás de mim. Fazia-me lembrar um cachorro. E então criou-se ali uma amizade subaquática”, descreve.

Mas o interesse de Carlos Mendes pela fotografia vai além do mar, possuindo um olhar aguçado para os detalhes na natureza terrestre, capturando momentos que a maioria das pessoas poderia ignorar. Um exemplo é uma fotografia de um ninho no Caldeirão da ilha do Corvo, que exemplifica a sua sensibilidade e atenção ao mundo natural.

“Eu fotografo qualquer assunto ligado à vida animal, em terra e no mar. Já fiz safaris e mergulhei em muitos sítios no mundo, e na verdade o que quero é criar curiosidade no animal para depois podermos fotografá-lo da melhor forma”, acrescenta.

Apesar de nunca ter concorrido a concursos de fotografia, Carlos Mendes partilha as suas imagens na conta de Instagram @extremocidente_azores e está sempre disposto a ceder fotografias para projetos de preservação da natureza. O fotógrafo diz acreditar que o verdadeiro valor do seu trabalho está em inspirar uma maior apreciação e respeito pelo ambiente natural das ilhas.

“Sempre que o motivo de uma exposição for a proteção da natureza, estarei disponível para apresentar os meus trabalhos”, realça.

Atualmente, Carlos Mendes divide o seu tempo entre a fotografia e o trabalho como skipper, navegando entre as ilhas das Flores e do Corvo, sempre atento às oportunidades de capturar a beleza natural ao seu redor. No entanto, admite que gostaria de ter mais tempo para se dedicar plenamente à fotografia, acreditando que, com mais disponibilidade, os resultados do seu trabalho poderiam ser ainda mais impactantes.

“Estou na profissão certa. Como skipper, poder ter o equipamento a bordo e usufruir dele com os outros viajantes é, para mim, ouro sobre azul. Antes da era dos drones, era mais físico, porque tinha de trepar a rochas altas para ter imagens aéreas. Hoje em dia, o drone ajuda e proporciona cenários distintos”, afirma, acrescentando que o seu sonho era “ter tempo para levar a fotografia destas ilhas das Flores, do Corvo e dos Açores em geral como elas merecem, porque sinto que não disponho de tempo suficiente para ter registos bem melhores. Por vezes, nas minhas travessias, vejo cenários incríveis, mas por estar a trabalhar estou impossibilitado de os registar como merecem”.

Para Carlos Mendes, a fotografia é mais do que um hobby, é uma extensão da sua paixão pelo mar e pela natureza, em que a fotografia é uma ferramenta para documentar e proteger as paisagens naturais únicas das Flores e do Corvo, reconhecendo a importância de equilibrar o turismo com a conservação ambiental.

“Há alguns anos, achava que as ilhas não estavam preparadas para um aumento tão rápido do turismo. Hoje em dia, já não tenho a mesma opinião. As pessoas aperceberam-se disso, e o próprio Governo criou mais condições, que poderão não ser as ideais, mas o rumo que as coisas levam é bom. Ainda assim, receio que possa haver gente a mais, mas ainda não chegámos a esse ponto. De qualquer maneira, devemos ter atenção, porque temos pérolas preciosas no meio do Atlântico, muito delicadas e com ecossistemas próprios, que, sem uma conduta responsável, podem ficar expostos a vários riscos”, alerta.

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