Editorial - 184º Aniversário

A quem interessa o fim dos jornais?

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Paulo Simóes   Regional   18 de Abr de 2019, 12:35

A morte anunciada dos jornais em papel não é um fenómeno recente e já levou a que diversos especialistas na área da comunicação produzissem trabalhos sobre os eventuais impactos de uma sociedade sem jornais.

Um desses estudos foi encomendado pelo governo do Canadá que pretendia uma resposta à pergunta de como seria a democracia naquele país num mundo após o desaparecimento dos grandes jornais em papel. Uma preocupação extensiva aos Estados Unidos, país onde a circulação diária baixou de um máximo histórico de 60 milhões de exemplares por semana em 1994 para quase metade no ano passado e já incluindo a circulação em formato digital. Uma quebra que se reflete de igual modo nas receitas publicitárias da imprensa norte-americana que encolheram quase 40 mil milhões de dólares entre os anos 2000 e 2016 e o desemprego entre a classe jornalística aumentou cerca de 40 por cento.

No Reino Unido, a primeira-ministra Theresa May não podia ter sido mais clara na sua preocupação quando admitiu que o desaparecimento sucessivo de diversos títulos britânicos representa um perigo para a democracia. Nos últimos 13 anos os ingleses viram cerca de duas centenas de jornais regionais fecharem portas.

O problema adensa-se quando olhamos para os novos títulos nascidos já na era digital e percebemos que também estes enfrentam enormes dificuldades financeiras num claro sinal de que algo estará a falhar igualmente nesta área.

Voltando ao Canadá, foi notícia que passou algo despercebida entre nós a decisão do primeiro-ministro Justin Trudeau de injetar 50 milhões de dólares num programa de apoio à cobertura de notícias locais, a par de um pacote legal cujos resultados ainda estão por apurar, mas que não passam de ajudas pontuais, de uma espécie de aspirina que mitiga a dor mas não cura a doença.

Uma doença que alastra e ganha foros de pandemia que se propaga diariamente à velocidade dos milhões de cliques e partilhas das notícias publicadas pelos “social media” que transformaram a distribuição gratuita de informação produzida por terceiros num negócio rentável. Uma espécie de galinha dos ovos de ouro explorada ao limite pelos dois gigantes tecnológicos Google e Facebook. O esquema é simples: os jornais e revistas assumem os custos da produção da matéria informativa, enquanto os “social media” encaixam a maior parte dos lucros sem custos de produção. Não é necessário um diagnóstico profundo para se perceber que a galinha está a morrer.

Imaginemos por um momento que o pior cenário acontece e passamos a viver numa sociedade sem jornais. Sem jornais e sem jornalistas quem irá continuar a produzir conteúdos para as partilhas das redes sociais?

Os dois potentados que dominam o mercado publicitário mundial, Facebook e Google, não têm particular interesse pelo jornalismo enquanto pilar essencial da Liberdade e Democracia, para eles contam apenas os resultados financeiros que apresentam anualmente aos seus acionistas.

Em 2006 a revista britânica The Economist publicou, no dia 26 de agosto, uma edição que fazia manchete com a pergunta “Who Killed the Newspaper?” Já nessa altura se percebia o rumo traçado para os jornais. Nesse número escrevia a The Economist que “os jornais estão a fazer progressos com a internet, mas ainda se revelam tímidos, defensivos (...)”. 13 anos depois desta frase ter sido escrita o panorama evoluiu, mas pouco mudou de facto na trajetória dos jornais que apesar de todos os esforços das mentes brilhantes que pensam no futuro da comunicação social... continuam a perder leitores, publicidade e importância.

O problema tem múltiplas variáveis, mas pode ser resumido numa frase: o negócio de vender notícias aos leitores e de vender os leitores aos anunciantes está desarticulado e a deixar os jornais desnorteados em busca de um novo modelo de negócio que teima em não se revelar.

Ao longo dos anos muitas foram “as modas” testadas pelos jornais, sobretudo nos Estados Unidos. Poucas ou nenhumas deram certo. Depois de tanta sofreguidão em busca do novo modelo mágico para o negócio da venda de notícias aos leitores , é chegada a hora de arrumar ideias e definir um caminho que só pode ser percorrido de forma conjunta por todas ou pelas mais importante publicações nacionais e regionais. Sem uma estratégia alinhada, dificilmente haverá muitos sobreviventes daqui a menos de uma década.

A base de tudo, e voltamos sempre ao ponto fulcral, é a Educação. É com as escolas que devemos e podemos contar na formação de cidadãos ativos, críticos, com vontade de saber e conhecer o mundo.

O Açoriano Oriental tem procurado fazer parte da solução ao criar parcerias com diversas escolas de São Miguel e que agora irá ser alargada às restantes ilhas, no sentido de fomentar a leitura de notícias, perceber como funcionam os jornais e a importância da notícia séria e isenta por oposição às notícias manipuladas, servidas pela generalidade das plataformas digitais.

Mas a procura de uma solução para os jornais não se esgota aqui - esta é uma medida de fundo e não um penso rápido.

Cabe aos governos e autarquias uma atitude mais responsável em relação à comunicação social. Não podem os governos e autarquias eximirem-se do seu papel de dinamizadores da circulação dos jornais e da difusão noticiosa. Quando um governo corta assinaturas dos jornais, quando as empresas públicas cortam assinaturas de jornais, quando as autarquias cortam assinaturas de jornais, quando os partidos políticos reduzem as assinaturas de jornais, estão todos a contribuir para a asfixia do jornalismo escrito e a serem coniventes com o problema da desinformação e propagação da pirataria jornalística (cópia de jornais e distribuição não autorizada em PDF, por exemplo).

Que futuro então para os jornais e para o jornalismo?

Talvez a diretora de Desenvolvimento Estratégico no Instituto Reuters tenha parte da resposta. Alexandra Borchardt, no congresso internacional para discutir o futuro do jornalismo, que decorreu em Portugal no ano passado, avançou com uma ideia desafiadora e interessante: fazer menos e melhor informação. Mais trabalho, com melhor qualidade sem a pressão de “ir a todas”. Borchardt defende menos textos, mas com maior profundidade. Menos preocupação com as visualizações e cliques online e uma maior preocupação com os valores e estratégia.

Uma estratégia que terá que ser global, isto é, todos os jornais sejam eles regionais ou nacionais deverão adotar a mesma prática online, seja ela qual for.
Vivemos num mundo onde cada vez mais fazem falta os jornais de referência, os jornalistas que contam as histórias como elas são e desmascaram as notícias manipuladas e as mentiras descaradas.

A história recente mostra-nos bem o poder da manipulação: Donald Trump, Jair Bolsonaro, o “Brexit”, são disso exemplo. Estamos a viver uma fase crucial para a liberdade e democracia europeias com as próximas eleições para o Parlamento Europeu que, a acreditar nas previsões conhecidas, irão reforçar o poder dos partidos populistas e extremistas, alimentados em boa parte por notícias falsas, e manipulação informativa.

Sem jornais e sem jornalistas o que resta?

Resta um mundo de bolhas criadas pelas redes sociais em que cada um só ouve o que lhe agrada e onde o ódio é sentimento transversal.

Os principais líderes europeus já deram sinais de grande preocupação, em Portugal nem por isso.

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