“Uma das minhas principais ambições sempre foi a elevação da qualidade artística e mantê-la”

Luís Filipe Carreiro. Desde cedo teve contacto com música, e foi construindo um percurso percurso marcado pelo estudo, pela dedicação e pelo compromisso com a música. Maestro e diretor artístico do Coral de São José, orgulha-se e elogia o grupo que, embora “amador, trabalha como profissional”




Luís Filipe Carreiro, natural de Ponta Delgada, cresceu numa época em que as brincadeiras ao ar livre ocupavam os dias e a convivência familiar era um dos pilares da formação de qualquer jovem. Recorda a infância como um período feliz, marcado pelo equilíbrio entre a escola, a família e as “muitas brincadeiras e jogos típicos da altura, felizmente sem telemóveis e PlayStation”.

Desde cedo que teve contacto com a música e aos 12 anos, “comecei a acompanhar missas semanais para jovens e a frequentar coros litúrgicos”. Aos 16 anos, “tal como muitos outros jovens”, integrou uma banda de Pop/Rock, experiência que lhe proporcionou os primeiros momentos em palco, que já iremos contar. Antes diz-nos que por volta dos 20 anos, e porque “tarde é o que nunca chega, decidi deixar de ser músico apenas ‘de ouvido’ e quis aprofundar cientificamente os conhecimentos musicais”. Ingressou, então, no Conservatório Regional de Ponta Delgada onde, após “oito anos de estudo, concluí o curso complementar de canto em 2004”. 

Refere que teve um percurso escolar “sem grandes sobressaltos, marcado pela consistência ao longo dos ciclos até à universidade. Um jovem um pouco tímido mas sempre com vontade de aprender e evoluir”, confessa. Ao longo do seu percurso investiu na sua especialização musical, participando em diversos cursos, seminários e masterclasses, sobretudo nas áreas da Técnica Vocal e da Direção Coral. Considera que estas experiências foram “altamente enriquecedores, contribuindo de forma ímpar para o meu crescimento e experiência musical”.

Sobre a primeira vez que pisou um palco, o maestro, conta-nos foi no Coliseu Micaelense, tinha 16 anos, e foi “na I Edição do Concurso POP-Rock Juventude 1992, concurso que a nossa banda, os ‘Infantes’, venceu”. Lembra que foi “uma sensação única, que não esqueço, marcada pela emoção e pelo nervosismo à flor da pele”, acrescentando que “posteriormente, já numa fase mais erudita, a primeira vez foi no Teatro Micaelense, para dirigir o Coral de São José e a Banda Militar dos Açores, igualmente um marco e o início de uma nova etapa no meu percurso musical”.

Como maestro, destaca duas obras que o marcaram, nomeadamente “a Missa Solemnis em Ré Maior, Op. 123, de L. V. Beethoven, e o Requiem em Ré Menor, KV 626, de W. A. Mozart”. São pois, “duas obras desafiantes, mas extremamente prazerosas e duas referências incontornáveis do repertório coral sinfónico”, disse Luís Filipe Carreiro. As inspirações do maestro são muitas, mas aponta dois nomes, “em áreas bastante distintas da música erudita, por um lado Ton Koopman e, por outro, o eterno Herbert von Karajan”.

Luís Filipe Carreiro foi sócio-fundador e presidente da Associação Musical Johann Sebastian Bach, uma ligação que surgiu em 2002, por iniciativa da “professora de coro Cristiana Spadaro, do professor Pasquale Sansanelli e um grupo de estudantes do ensino complementar do Conservatório Regional de Ponta Delgada. Fundámos a associação com o objetivo de estudar e aprofundar os conhecimentos na área da Música Antiga e Barroca. Estive vários anos na associação, como coralista e como presidente, período em que aprendi muito sobre a época histórico/musical referida”. 

Os seus primeiros passos no Coral de São José aconteceram como coralista e ensaiador de naipe. Depois, “em 2007, recebi o honroso convite para ser o diretor musical e artístico, cargo que desempenho desde então, com grande orgulho e responsabilidade”, salientou, sublinhando que “em 2027 farei 20 anos nestas funções e o Coral de São José fará 60 anos de existência, um marco muito relevante para a instituição e que, certamente, iremos celebrar com toda a dignidade, naturalmente com uma programação musical especial, pensada para o efeito”.

Como diretor artístico e musical do Coral de São José, as maiores dificuldades prendem-se com a escassez de apoios financeiros. É o caso do festival ‘Música no Colégio’ que, “apesar da sua inegável visibilidade e dimensão, conta com um irrisório apoio, no âmbito do RJAAC (Regime Jurídico de Apoio às Atividades Culturais), como é do conhecimento público”. É, pois, “uma realidade que nos entristece, desanima e impede continuamente de investir mais e melhor na programação”. Outras das dificuldades é a “falta de capacidade para responder a todas as solicitações, o que nos obriga, infelizmente, a recusar alguns convites. Por exemplo, este ano tem sido muito intenso, como previsto. Realizámos cinco concertos até ao momento, todos com programas diferentes, uma exigência extrema para um coro amador, cujo ritmo de aprendizagem difere do de um coro profissional”. Todavia, Luís Filipe Carreiro enaltece que o grupo é “incansável na sua dedicação. Só o verdadeiro espírito de equipa que nos caracteriza permite superar estas barreiras. Costumo dizer que tenho a sorte e o privilégio de dirigir um coro amador que trabalha como profissional. Afinal, como em tantas outras áreas, mais vale um amador profissional do que um profissional amador”.

Entre os projetos previstos para este ano, o Coral de São José conta com “quatro grandes eventos já confirmados, dos quais se destacam o habitual Clássicos de Natal e, brevemente, o nosso Festival Música no Colégio, de 3 a 5 de julho, dedicado à Música Portuguesa. Infelizmente, este ano, apenas com três noites de festival devido aos fracos apoios financeiros”, referiu, para adiantar que sobre a “noite Coral, a última, convidaremos o público a viajar pela ópera portuguesa e pelo lirismo nacional dos séculos XVIII a XX”.

No que diz respeito a projetos que gostava de realizar, o maestro começa por nos dizer que “felizmente já ajudei a realizar e edificar muitos projetos musicais dos quais o Coral de São José se orgulha”. A par dos grandes projetos, “uma das minhas principais ambições sempre foi a elevação da qualidade artística e, também, mantê-la. Tenho ainda mais algumas ideias que gostaria de executar num futuro próximo, mas que estão dependentes das questões financeiras supracitadas”.

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