Tribunal acusado de ter andado a "juntar papéis" durante quatro anos


 

Lusa/AO Online   Nacional   16 de Dez de 2008, 14:54

O advogado do principal arguido do processo de pedofilia da Casa Pia teceu hoje, durante as suas alegações finais, fortes críticas à forma como foi conduzido o julgamento, afirmando que, durante os quatro anos que dura, o tribunal andou a “juntar papéis”.
  “A verdade foi de férias neste julgamento”, afirmou José Maria Martins, defensor do ex-motorista da Casa Pia de Lisboa Carlos Silvino, a quem o Ministério Público (MP) deu como provados mais de 150 crimes de abusos sexuais contra alunos da instituição.

    Para o advogado, o processo em julgamento, além de jurídico e apesar de o considerar “já morto” com “tanto recurso e tanto incidente” processual, “é político” e “vai ficar como a maior vergonha na sociedade portuguesa”.

    O arguido “Carlos Cruz dominou o Estado em aliança com o PS quando [o deputado socialista] Paulo Pedrosos era arguido” no processo, acusou José Maria Martins.

    “Podemos mesmo dar-lhe os parabéns porque a estratégia do senhor Carlos Cruz ganhou”, acrescentou, esclarecendo depois no exterior do tribunal que o apresentador de televisão “conseguiu que o processo durasse quatro anos em julgamento, juntou as testemunhas e os documentos que quis e até conseguiu publicar livros com nomes de testemunhas e vítimas”.

    Centrando as suas alegações finais na figura de Carlos Cruz, o advogado de Silvino disse que aquele arguido coordena a defesa dos outros arguidos, “alterando e subvertendo a prova”.

    Como alegado exemplo disso apontou terem sido feitas obras nas casas onde terão decorrido abusos de alunos casapianos, nomeadamente em Elvas e na Avenida das Forças Armadas e no Restelo, em Lisboa.

    “Como é que meia dúzia de pessoas subverteram completamente as instituições?”, interrogou-se, referindo-se aos outros seis arguidos do processo, mostrando-se admirado como um “mero apresentador de televisão tem tanto poder neste país”.

    Acusou ainda este “grupo poderosíssimo” de “alterar as provas” e mandar o arguido Hugo Marçal defender Carlos Silvino.

    Em contraponto com os documentos apresentados por Carlos Cruz para negar ter estado onde alegadamente decorreram os abusos, José Maria Martins declarou que “não há motivo algum para não acreditar nos jovens”, cujas declarações classificou de “genuínas” e “cristalinas”.

    Esses "documentos não valem nada", realçou José Maria Martins.

    Noutra fase das alegações, referindo-se aos crimes de Silvino, disse que o seu cliente é ele próprio uma vítima da violência sexual na Casa Pia, que o “moldou”.

    Nas palavras de Martins, o “grande responsável disto tudo foi a Casa Pia, que era mãe e pai ao mesmo tempo” e devia “estar sentada no banco dos réus” e ser “responsibilizada solidariamente” pelos actos praticados por Carlos Silvino.

    O julgamento do processo Casa Pia decorre há mais de quatro anos e tem como arguidos, além dos dois referidos, o médico Ferreira Diniz, o embaixador Jorge Ritto, o ex-provedor adjunto da Casa Pia Manuel Abrantes, o advogado Hugo Marçal e Gertrudes Nunes, proprietária de uma casa em Elvas onde terão sido violados alunos da instituição.

    O julgamento decorre actualmente no Tribunal de Monsanto, em Lisboa.


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