Ser ‘streamer’ é a única via para ser autossuficiente nos videojogos em Portugal


 

AO Online/ Lusa   Nacional   3 de Ago de 2019, 20:39

Motor de investimentos de milhões de euros a partir dos Estados Unidos da América, os videojogos têm ainda pouca expressão em Portugal e para alguém se tornar autossuficiente nesta área ser jogador não chega, a opção passa por ser “streamer”.

Jogar videojogos em Portugal vai continuar a ser, nos próximos anos, um projeto de caráter mais lúdico do que competitivo, tudo porque o investimento, os prémios e as parcerias continuam a ficar aquém do que acontece, por exemplo, em Espanha.

Três “apaixonados” pelos videojogos relataram à agência Lusa a sua experiência num ‘mundo’ em que ser bom gera receitas para o grupo e não tanto para o indivíduo, razão pela qual ter olho, autocrítica e, sobretudo, sentido de oportunidade pode fazer a diferença.

Aos 32 anos, Ricardo Sousa ‘Zorlak’ fez valer os quase 20 anos ligados aos videojogos para tornar-se ‘streamer’, aplicando os seus conhecimentos no “Counter Strike’ num “projeto pioneiro a nível mundial” a partir da plataforma Twitch, um sítio na Internet destinada à transmissão de videojogos.

Do seu videojogo de eleição, de combate e de estratégia, ‘Zorlak’ criou um ‘stream’ onde “durante dez horas diárias, seis dias por semana”, ensina os seus cerca de 90 mil seguidores a jogar, divulgando que “10% deles são brasileiros”.

“O conteúdo da minha ‘stream’ é único a nível mundial, pois é didático”, frisou à Lusa o especialista de Odivelas, em Lisboa.

Recuando quatro anos, ‘Zorlak’ lembrou que no seu primeiro ano como ‘streamer’ fez “apenas 160 euros”, um cenário que diz ser hoje substancialmente diferente, apesar de não mencionar números.

“O que ganhei já deu para pagar a entrada para a minha casa, para a mobilar, comprar o carro e tratar de um problema de saúde dispendioso. A aposta deu-me a volta à vida sendo que irei ser pai em setembro”, contou.

Tanta dedicação obrigou-o a gozar apenas “uma semana de férias nos últimos quatro anos”, mas a compensação chegou-lhe pintada com outros números.

“Todos os anos estou no top 10 mundial de mais horas com a ‘stream’ ligada”, disse.

A realidade altera-se em termos de expectativas quando a abordagem passa para o domínio dos jogadores, onde a inexistência de torneios que não seja para equipas faz com que os prémios sejam sempre a dividir pelo grupo. Acresce a isto serem os clubes quem em Portugal sustenta as despesas de deslocação e de estadia nos grandes torneios no estrangeiro.

Aos 21 anos, Marcos Letras ‘Xaky’, jogador da ‘League of legends’, outro videojogo de estratégia, vai no seu terceiro ano de competição, depois de seis de caráter mais lúdico.

Dividindo o tempo entre a frequência do Instituto Politécnico de Setúbal, para acabar a licenciatura em informática, e os videojogos, joga “às segundas e terças-feiras”, mas também em eventos como a Comic Con ou a Iberanime, em que podem ser seguidos, ao vivo, a partir de um ecrã gigante.

As horas que dedica ao jogo variam conforme as exigências da faculdade, mas procura estar ‘online’ entre “as três horas e o dia todo”, fazendo pausas ao fim de semana, descreveu o jogador de Lisboa.

Membro do clube For The Win (FTW) nas competições de ‘e-sports’, ‘Xaky’ tem no seu palmarés “vitórias nas ligas principais, nacionais e europeias”, mas isso não se traduz em “grandes ganhos” porque, explicou, “os prémios são sempre a dividir pela equipa”.

“Esta vida pode durar três, quatro ou cinco anos, razão pelo qual é preciso ter um plano alternativo, daí a licenciatura”, argumentou à Lusa.

Ponto importante neste projeto é a projeção do jogo e o grupo de seguidores que cada jogador tem, salientou à Lusa Nuno Ferreira ‘Dr. Boom’, de 24 anos e que joga há cinco anos o ‘Hearthstone’, um jogo de cartas ‘online’.

Também aqui a via do profissionalismo foi cedo afastada, explicou o estudante de mestrado em Psicologia do Porto, cuja aposta na competição se baseou na possibilidade de “poder conhecer o mundo”.

“O meu videojogo ainda é recente e os prémios ainda não são apelativos”, acrescentou o jogador de “um jogo com cinco anos de existência e pouca expressão em termos de seguidores”.

A realidade milionária que emana do EUA prova ser um “mundo à parte” para os portugueses que jogam num país onde se “regista um atraso em relação a Espanha de cerca de quatro ou cinco anos”, disse.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.