Natal:

"Retiramos tudo o que possa significar algo de mais preciso (para não magoar) e acabamos por ficar com algo sem sabor e sem cheiro, baseado em generalidades confortáveis"

"Retiramos tudo o que possa significar algo de mais preciso (para não magoar) e acabamos por ficar com algo sem sabor e sem cheiro, baseado em generalidades confortáveis"

 

Tatiana Ourique / AO Online   Regional   24 de Dez de 2018, 13:10

Francisco Maduro Dias, historiador, garante não embarcar em saudosismos no que toca a tradições de Natal que se transformaram. Mas, em jeito de crónica, conta ao Açoriano Oriental o que é que não gosta de ver desaparecer no Natal e das influências estrangeiras que o Natal nos Açores foi sofrendo ao longo dos anos.

Maduro Dias é cristão e como tal celebra, no Natal, o nascimento de Jesus. O historiador terceirense defende que as tradições vão-se adaptando com o intuito de preencher estados de alma e que não há nada de errado nessa mudança. O problema é, diz Maduro, a descaracterização das festas para não ofender ou chocar quem não é católico,

"Diria que se perdeu muita da complexidade e densidade do chamado espírito de Natal, ao mesmo tempo que nem se ganhou nem se perdeu, no que tem a ver com as manifestações materiais ligadas à quadra. A cultura é dinâmica. A cada momento do tempo as pessoas procuram praticar um conjunto de actos que lhes preencha determinados vazios de alma, determinados anseios do espírito, determinadas necessidades de emoções.

De facto, a cultura é imaterial, por definição, mas as actividades, objectos, produtos que resultam das atitudes e modos de pensar e ser, materializam isso. Logo, se, num determinado tempo- por exemplo, há 100 anos- as pessoas praticavam determinados atos e, agora, deixaram de os praticar. Se a gente procurar um bocadinho vai ver que, das duas uma: ou esses atos foram substituídos por outros, que permitem o mesmo resultado “de alma”, digamos assim, ou deixaram de ser necessários porque perderam a sua razão de ser.

Dou o exemplo da questão do bacalhau na ceia antes da missa do galo, ou do polvo, como acontece noutras zonas de Portugal. Primeiro é bom saber-se que o costume era comer frango, ou carne de porco, ou outras “coisas boas” de carne, no dia 25 de dezembro, ao almoço. Antes da Missa do Galo não se comia nada de especial e muito menos carne. E porquê? Porque as pessoas praticavam muito a abstinência e o jejum, durante o Advento, como tempo de preparação para a noite em que se comemora o nascimento de Jesus. Comia-se pouco e comia-se peixe. Claro que, acabado o tempo de abstinência, marcado pela missa da meia noite, “saltava-se” para a carne, tornada, desse modo, rainha do dia 25.

Vieram as influências do Dia de Acção de Graças, faladas, nomeadamente, por todos quantos emigraram para os EUA. Ao mesmo tempo que caía o costume (que era mesmo regra) da abstinência. Houve, portanto, uma espécie de cruzamento da novidade da atitude de dar graças a Deus com o fim do hábito de não comer carne. Aumentou-se o clima de festa e reduziu-se a questão da penitência, do sacrifício de preparação (é curioso que muita gente faz jejum atualmente por razões de dieta, de saúde alimentar... Mas se a gente lhes vier dizer que os cristãos também o fazem, por razões de purificação interior e de preparação…. Cai o Carmo e a Trindade!).

Resultado? A gente agora come bacalhau “porque é costume”, ou peru “porque é costume”, sem sequer pensar o quanto a mentalidade subjacente (de dar graças) nem se alterou muito, ao mesmo tempo que se alterou bastante porque deixámos a abstinência e o dia 25, passando a comemoar mais a noite que o dia, mais o antes que o depois do nascimento d´Ele.

O que dói é a superficialidade do “fazer o bem”, do “espírito de Natal”, baseado, muito, nos presentes que se trocam, nas coisas que se dizem, nos momentos diferentes que se constroem, em voltas de muitas materialidades sem sentido. Não gosto de ver as pessoas fazerem porque é costume, sem tentarem saber mais a fundo as razões. 

Perderam-se referências, perdeu-se densidade de razões, manteve-se ou substituiu-se atos e objetos e fica-se por aí.

Perante todas as listas que os jornais fazem dos costumes dos quatro cantos do país e do Planeta, e dos costumes e diferenças de costumes daqui e dali, sinto que se anda ao de cima das coisas, sem questionar ou ir ao fundo, porque são assim ou porque deixaram de ser assado.

Há, porém, uma coisa, que, essa sim, me irrita. Natal é uma data de comemoração cristã. Tem um sentido, uma razão, um objetivo. Significa, para os cristãos, como eu, um conjunto determinado de pensamentos e entendimentos da vida e das coisas.

Nada impede que outros façam comemorações por esta época, seguindo as suas opções, que, gostaria, fossem tão densas e profundas de significado como é o “CHRISTmas” (pois! Tem Cristo no nome). Mas a descaracterização progressiva. Pior que isso, o retirar tudo o que possa significar algo de mais específico, nada dizendo, em nenhum sentido, para não magoar quem quer que seja. Destrói-se tudo e acabamos por ficar com algo sem sabor e sem cheiro, baseado em generalidades confortáveis.

Acho que caminho a seguir devia ser exactamente o contrário: o percebermos as razões das nossas atitudes, por detrás do que fazemos, comemos ou construímos, e, depois, aceitar, querer trocar experiências e perceber quais as razões dos outros.

Dou um exemplo. Tenho um amigo, em Israel, judeu praticante, que nasceu em Portugal e aqui viveu, até emigrar para Tel Aviv. Ele manda-me votos de Feliz Natal (sabendo que eu estou a comemorar o nascimento de Cristo) e eu, auxiliado por uma calendário electrónico que me ajuda muito, procuro corresponder com um voto de Feliz Hanukkah (que é uma festa judaica que comemora a vitória da luz sobre a escuridão) e acontece, como festa móvel, pela mesma ocasião, mais semana menos semana.

A curiosidade é que ambos festejamos, acendemos luzes, enfeitamos espaços, comemos coisas doces e saborosas, algumas bem parecidas. As razões é que são diferentes. Fico feliz por ele e ele fica feliz por mim.

Nos Açores, no meio deste mundo Atlântico e cruzado de gentes que passaram e passam de cá para lá e de lá para cá, vindas dos quatro cantos do planeta, acho bonito ver costumes que, de facto, acabam por agregar toda essa relação cósmica, reconstruindo, aqui, em cada ilha e lugar, uma nova síntese.

Descobrir em cada atitude, que hoje tomamos, ou em cada coisa que fazemos, o longo fio de relações e continuidades, que pode acabar do outro lado do mundo, é um fascínio. E tentar perceber as razões porque foi adoptado por cá, em substituição ou acrescento do que já existia por cá, é lindo! É a isso que chamo densidade e é isso que se devia e deve procurar sempre, por maioria de razão num tempo como o Natal. A diversidade só enriquece, mais ainda, a quadra.

E, claro, fico feliz quando se fazem presépios grandes e pequenos , como o animado e mecânico que fizeram este ano na Praia ou quando algum descobre um receita de doce ou quando se faz fatias fritas ou quando me dizem que o menino mija ( mas aí pergunto até que ponto os licores foram feitos em casa com o esforço de preparação que permite conversar acerca deste ser mais ou menos doce ou saber mais ou menos a tangerina que o da vizinha de baixo ou o da “prima Gertrudes”).

Aqui há anos fui a casa de uma pessoa que trabalhava na Base das Lajes e o menino dela mijava Vat69, Dimpley ou Bailey’s! Cada um procurava mostrar as suas riquezas. Enquanto umas resultavam do trabalho de casa, outras vinham do lugar maravilha onde trabalhava."



Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.