A Agência Lusa tem patente a exposição “40 Anos | 40 Fotografias”, produzida no âmbito das comemorações do 40.º aniversário da Agência Lusa, que pode ser visitada na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada até 30 de setembro. Como é celebrar 40 anos de uma agência de notícias num Portugal com 50 anos de democracia?
A Lusa, na realidade, tem acompanhado a evolução da democracia. Estes 40 anos são uma pequena parte do desenvolvimento desta democracia. A Lusa, como agência, é até anterior ao 25 de Abril: vinha da agência de notícias Lusitânia, e havia outra em paralelo, a ANI, ainda do Estado Novo. Depois do 25 de Abril, foram liquidadas e surgiu a ANOP, mais relacionada com o Estado, e a NP, com tendências mais privadas ou comerciais. Fundiram-se em 1986.
Na realidade, a Lusa tem acompanhado todos os momentos importantes de Portugal. Acompanhou a autonomia dos Açores - por isso estão aqui fotografias dos Açores, como homenagem aos 50 anos da autonomia constitucional. Estivemos presentes em vários momentos: prémios Nobel, incêndios, desastres ecológicos, manifestações, a entrada da Troika, e agora a Ucrânia. E esta exposição acompanha a evolução da sociedade portuguesa, sempre assente nos valores da Lusa.
Esses valores não foram criados por este Conselho de Administração - já vinham definidos estatutariamente: a factualidade, a isenção, o rigor e, algo muito querido para mim, a confiança. Essa é a grande realidade da Lusa: a sua independência e a confiança que os parceiros e o sistema têm na nossa atividade, naquilo que produzimos. Gostamos de dizer: “se a Lusa deu, é que aconteceu.” Não podemos estar em todo o lado, mas o que fazemos é um trabalho rigoroso, importante para todo o ecossistema.
Vivemos numa época com cada vez mais fontes de informação e menos financiamento para o jornalismo profissional. Como é que a Lusa se está a adaptar a este novo cenário, sobretudo depois da recente mudança na estrutura acionista?
A Lusa também está a olhar para os novos tempos. O que eu quero, e não estarei aqui para os próximos 40 anos, é que a Lusa seja uma instituição ainda mais sólida, mais forte, com mais competências e capacidades.
Estes 40 anos coincidem com uma mudança de estrutura organizacional. No ano passado, a Lusa foi adquirida a 100% pelo Estado. Tínhamos acionistas privados e essas participações foram adquiridas. Isto é importante porque tínhamos uma estrutura híbrida de capital, público e privado, que passou a ser 100% do Estado, com o objetivo de contrabalançar aquilo que os nossos factos representam contra o ruído existente: a desinformação, a enorme quantidade de fontes ligadas à nova economia em rede, em que toda a gente faz notícias e depois é preciso saber se são verdadeiras, credíveis ou não.
Precisamos de criar uma Lusa com maiores capacidades e competências, não só para a Lusa, mas para as instituições democráticas e para os órgãos de comunicação social, nacionais e regionais.
Voltando à mudança organizacional: existe um plano de ação para os meios de comunicação social, com várias etapas. Primeiro, a aquisição das participações minoritárias; depois, uma nova estrutura de governação, com novos órgãos sociais - o conselho consultivo, um novo conselho de administração com três executivos (o que não existia antes) - e novos estatutos. Depois há o plano de modernização de meios humanos e tecnológicos, ligado às competências. E há um ponto que vos diz muito respeito: o benefício para os órgãos de comunicação social, reforçando os serviços que a Lusa presta. A Lusa produz muitos conteúdos, mas muitas vezes não chegam a quem devia chegar. É como a água: temos água pura, mas falta-nos fazer com que essa água chegue aos meios de comunicação social que a devem divulgar.
Há planos concretos para reforçar a presença e cobertura da Lusa nos Açores, tendo em conta também a importância da agência para a coesão nacional?
Sim. Queremos reforçar a nossa presença nos Açores, não só com meios tecnológicos, mas antes disso com meios humanos. Queremos que a delegação, que já faz um excelente trabalho, tenha a possibilidade de fazer uma cobertura ainda maior.
A polarização de factos noticiosos é uma realidade. No período da Covid, as coisas estavam um pouco amorfas porque só se falava de saúde. Depois da Covid veio um mundo muito diferente e estranho, com uma explosão de conteúdos noticiosos e diferentes formas de ver e atuar.
Já reforçámos esta posição noutros locais, com a reabertura delegações que tínhamos fechado antes da Troika, como a de Évora. Mas também queremos dar melhores condições aos nossos profissionais para que trabalhem com dignidade.
Tivemos um reforço de capital social, atribuído pelo Ministro das Finanças, precisamente para colmatar algumas lacunas que a Lusa tem sentido. No mundo futuro, penso que todos vamos ficar saturados de conteúdos não credíveis. E vamos refugiar-nos na credibilidade e na confiança. É como na alimentação: vamos comer só plástico, ou queremos o mais próximo da pureza e da realidade original? Por isso precisamos de capacitar, e os Açores têm necessidades que queremos começar a colmatar.
A Lusa tem uma rede nacional forte, que pode ser ainda mais forte, e uma rede internacional forte, que também pode melhorar. Uma das grandes políticas de serviço público da Lusa é a questão da coesão e da inclusão. Queremos que a Lusa seja uma instituição inclusiva e não extrativa — este é um princípio de um Prémio Nobel de Economia — para que aquilo que se passa aqui possa chegar a todas as partes, e não só a Portugal.
E para isso temos relações com várias redes internacionais. Por exemplo, uma fotografia tirada aqui hoje pode acabar na EPA (European Photo Association) e circular pelo mundo. E o inverso também acontece: recebemos conteúdo de coberturas como o Festival de Cinema de Veneza, através dessa associação. Isto mostra que precisamos de cooperação entre entidades, não de competição, porque somos todos pequenos, e juntos podemos ser maiores para lutar contra as grandes plataformas. Esta é a minha visão de gestor, não de jornalista, e funciona noutras indústrias e deve funcionar aqui também.
Os Açores são uma parte muito importante disto, sobretudo pela questão da diáspora. Para o ano vão fazer 600 anos da descoberta, o que será um marco importante. E os açorianos estão por todo o lado; temos que chegar lá.
Que outras iniciativas estão a decorrer, ou estão previstas, no âmbito das comemorações dos 40 anos da Lusa?
Em São Miguel, na passada quarta-feira, houve um debate sobre a insularidade, moderado pelo jornalista Rui Pedro Paiva, em Ponta Delgada, que contou com a participação dos escritores João de Melo e Nuno Costa Santos, seguido da inauguração da exposição de fotografia “40 anos | 40 Fotografias”.
Estamos a fazer, em paralelo, exposições noutros locais do país: já fizemos em Lisboa, atualmente está no Porto (Casa do Vinho Verde), vamos estar no Algarve - em Lagos, Tavira e Albufeira -, em Viseu, em Évora no âmbito da Capital Europeia da Cultura do próximo ano, e em Coimbra (ainda não definido). Vamos voltar a Lisboa, provavelmente ao centro Comercial Colombo.
O que queremos é sair da nossa sede e mostrar o que é a Lusa, e a importância de dar visibilidade ao seu trabalho - nós damos informação para todos. Mais uma vez, é uma questão de inclusão e proximidade. O serviço público faz-se de proximidade, e a coesão faz-se de proximidade. Se não soubermos o que se passa nos Açores, ficamos todos mais pobres - os Açores, o país e a própria democracia. Os Açores têm muito para dar e um grande dinamismo, e é importante que isso seja equilibrado.
Temos também uma conferência sobre comunicação social marcada para 28 de setembro, na Gulbenkian, e haverá mais atividades e iniciativas.
Esta exposição é algo que eu já pensava há algum tempo - não por gostar particularmente de fotografia, mas porque é uma pequena amostra do que a Lusa traduz. A Lusa produz, por ano, cerca de 40 mil fotografias. Esta exposição é um trabalho do editor multimédia da Direção de Informação, que fez a edição e a curadoria de tudo isto, a partir de uma base de dados muito densa.
