Quais foram os motivos que levaram o Hélio Ormonde a candidatar-se nas eleições da Associação de Voleibol de São Miguel (AVSM) do passado dia 7 de julho, sucedendo no cargo de presidente da direção a Carlos Silveira, numa altura em que o mandato dos anteriores órgãos sociais estava praticamente a meio?
As eleições na AVSM resultam do pedido de demissão do Carlos Silveira, por razões de ordem pessoal. Fui contactado no sentido se estaria disponível para assumir, nos próximos dois anos, essa missão.
Quando surge este projeto e esta equipa - que acabou por ser eleita -, tão pouco sabíamos se iria existir uma outra lista concorrente. O projeto foi montado, não para ser contra alguém, mas para poder terminar este ciclo, obviamente, com algumas ideias que temos em termos de projeto. Portanto, que não fique a ideia de que esta lista aparece para combater uma outra lista!
Naturalmente que o projeto aparece para dar resposta, em termos imediatos, a algumas questões que achamos que podem ser encaminhadas numa perspetiva diferente daquilo que estavam a ser seguidas.
O que é que se propõe fazer, nestes próximos dois anos, em prol do voleibol de São Miguel?
Há aqui áreas que temos que priorizar. Desde logo, a área da formação de praticantes e não praticantes. E, quando falamos em não praticantes, estamos a falar em árbitros e treinadores, porque essas são duas áreas muito carenciadas e que têm que ser atacadas em termos imediatos.
Temos ideias, embora haja um curso de árbitros a nível regional programado para o mês de setembro, e nós, se tivermos que fazer um curso no âmbito da AVSM, fá-lo-emos. Já temos dialogado com os clubes no sentido de podermos recrutar elementos para esse curso. Ao nível dos treinadores, a mesma situação.
Um outro projeto é reativar os Centros de Treino de Praticantes, quer masculino, quer feminino. Vamos dar prioridade máxima a isto para alimentar a seleção de ilha, porque queremos voltar ao conceito de uma seleção de ilha que possa ter momentos competitivos fora da região. Neste momento, sentimos que dentro da região o nível em que podemos competir já não é suficiente para a formação dos nossos praticantes. Este projeto de formação de praticantes envolve, tal como outros que vou referir, um enquadramento técnico, gabinete técnico competente, forte, comprometido e com gente suficiente para dar resposta aos desafios. Neste projeto dos Centros de Formação queremos também envolver os pais. Os pais não podem ser ignorados num processo de formação dos seus filhos. Eles podem ter um papel importante no apoio logístico ao desenvolvimento do projeto e vamos trazer os pais para dentro dos nossos projetos.
Do ponto de vista competitivo, esta será a segunda área que vamos priorizar. É preciso repensar modelos competitivos em alguns escalões. É preciso criar outra dinâmica, outra frequência em termos de momentos competitivos.
Priorizar, também, o canal de comunicação com os clubes. É preciso que a informação chegue clara e rapidamente aos clubes, no sentido de eles próprios também se poderem organizar.
Atenção que não estamos a fazer mudanças radicais naquilo que era o projeto anterior em relação ao nosso. Como costumo dizer, radicalismos não encontram soluções para os problemas. O que queremos é fazer pequenos ajustamentos.
Para que esta área competitiva funcione temos de ter um gabinete técnico. Já escolhemos o nosso diretor técnico. A decisão já está tomada.
E quem é o novo diretor técnico da AVSM?
Chama-se João Campino. E vamos dotar esse gabinete técnico, no mínimo, com mais quatro pessoas. Cada uma delas afeta a um dos projetos que nós temos.
Por exemplo, o mini-voleibol é um escalão que temos de continuar a potenciar, porque já não é o escalão da entrada na modalidade. É um escalão que já trabalha, treina e joga, como os outros escalões acima.
Vamos ter alguém ligado ao projeto das Escolinhas do Desporto. Este é um projeto que vamos privilegiar, porque – e não vou dizer que foi abandonado -, mas foi um bocadinho esquecido. E aqui, sim, este é o patamar de entrada na modalidade. É aqui que temos de captar. Temos de voltar às escolas de primeiro ciclo. Mas, para isso, temos de ter alguém dentro do gabinete técnico que se dedique quase exclusivamente a esse projeto, como já aconteceu num passado recente. Em suma, queremos uma equipa que seja competente, disponível e comprometida. Isso, para nós, é fundamental.
Uma outra área que nos parece importante é a área da promoção, da divulgação do nosso trabalho. Não podemos estar fechados dentro da nossa bolha, do nosso casulo. Vamos potenciar as redes sociais para fazer chegar a nossa mensagem, a nossa atividade e poder trazer mais gente para dentro da nossa casa.
Por outro lado, as nossas relações institucionais são fundamentais. Abrir canais de comunicação, quer com a Federação, quer com as nossas congéneres, quer com as associações de classe.
Temos, ainda, que estarmos disponíveis para aproveitar as oportunidades de financiamento. E financiamento que não só o público. Do público já sabemos com o que é que contamos, mas temos que ir à procura de outras fontes de financiamento. E aqui põem-se duas situações: financiamento privado, que podemos enquadrar através da Lei do Mecenato, e aproveitar aquilo que são os financiamentos europeus. Dos fundos comunitários, uma hipótese é o Erasmus, por exemplo. A nossa relação, por exemplo, com as fundações. Podemos ter aqui um canal privilegiado. Podemos ter o canal privilegiado que é a relação com a Universidade. Não nos podemos esquecer de quem está à nossa volta. E podem ser aqui estabelecidos protocolos com a nossa Universidade, no sentido do desenvolvimento de projetos, de estágios.
As eleições foram há pouco tempo...
Já tivemos reunião de direção, a primeira. Tenho um grupo de trabalho comprometido com as áreas que foram atribuídas a cada um dos membros da direção e cada um de nós tem os seus pelouros próprios com autonomia para os desenvolver, sempre dentro daquilo que é um órgão colegial na tomada da decisão.
Quero aproveitar esta ocasião para dizer que o aparecimento deste grupo de trabalho, desta lista, não foi contra alguém, mas em prol da modalidade em São Miguel. Este projeto foi apresentado a oito dos 10 clubes filiados e no exercício dos seus direitos de voto. Foi a oito e não a 10 porque houve dois clubes que declinaram o convite para uma reunião de trabalho pré-eleitoral. Estes clubes foram Internacional Vólei Açores e Associação dos Antigos Alunos. Contudo, e nessas reuniões de trabalho que tivemos, além de apresentar o projeto, recolhemos contributos de cada um deles para complementarem aquilo que era o projeto inicial. E, no final, antes das eleições, este documento foi fechado e remetido aos 10 clubes. Portanto, os outros dois não foram excluídos. No fundo, os 10 clubes que se apresentaram ao ato eleitoral para exercer o seu direito tinham conhecimento do nosso projeto. Por isso é que esta lista, de facto, não era contra alguém, mas a favor do voleibol.
Vai ser possível implementar estes projetos a partir da próxima temporada?
Sim. Há projetos que são prioritários e que vamos implementá-los. Há aqui ajustamentos que não são difíceis de serem implementados, tendo nós os recursos humanos. Naturalmente que há projetos que não podem ser em termos imediatos, porque ninguém consegue por tudo a funcionar ao mesmo tempo. Há de estar a funcionar um pouco mais à frente. Neste momento, fundamental para nós, formação, quadro competitivo - porque estamos à beira do início da época desportiva -, formação de árbitros e formação de praticantes e projeto Escolinhas. Estes projetos vão arrancar em termos imediatos.
Qual a radiografia que se pode fazer, nesta altura, ao voleibol micaelense?
Na nossa perspetiva, e dividindo por géneros, o feminino respira saúde em termos de quantidade e qualidade. Do ponto de vista do género masculino, esta é uma crise de âmbito nacional, que já diagnosticamos e temos que atacar.
Não há miúdos para o voleibol porque há outras modalidades também atrativas. Temos que repensar o processo de captação e o processo de retenção. E, provavelmente, temos que repensar os nossos modelos competitivos. A prova disso é que as nossas equipas que participam no Campeonato Nacional da 2.ª Divisão Zona Açores normalmente ficam nos últimos lugares da classificação, porque não têm uma base que as alimente e consiga garantir essa sustentabilidade. Essa é uma preocupação nossa, é uma preocupação das associações regionais, é uma preocupação da própria federação. O masculino em Portugal tem, de facto, uma crise de quantidade.
No fundo, de sustentabilidade?
De sustentabilidade, precisamente. É essa mesmo a palavra.
E como é que se pode combater este estado de coisas?
Penso que, neste momento, o projeto Escolinhas pode ser uma das vias porque é aí que os clubes vão ter que recrutar. E quando falo em projeto Escolinhas, não falo só nas escolas públicas do 1.º ciclo, mas também nos colégios privados. Temos de ter um campo de recrutamento muito maior. Temos que ser capazes de criar dinâmicas, de ser criativos nos processos de captação. E isso tem muito a ver também com o dinamismo que o gabinete técnico pode implementar no próprio projeto.
