Segundo os investigadores, como a igreja foi reconstruída várias vezes e foram feitas muitas obras, nas escavações realizadas em 2025 e neste ano - na última semana de junho e na primeira de julho -, não foram encontrados esqueletos intactos, mas “muitos ossos remexidos”, pertencentes a vários indivíduos adultos, bebés e crianças, de ambos os sexos, o que comprova que estão ali enterradas várias pessoas.
“Nos [documentos] escritos estão nove [pessoas ali enterradas]. Nós, neste momento, já temos mais do que nove, portanto não sabemos muito bem onde é que isto nos vai levar. Por isso é que decidimos não continuar as escavações e dedicar o trabalho à parte do laboratório”, disse hoje à agência Lusa a antropóloga forense Daniela Cabral, que integra a equipa de investigação coordenada pelo município de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel.
A antropóloga adiantou que estão em laboratório, para análise, mais de 1.200 ossos, “o que comprova que há muita coisa para fazer e muito material para estudar”.
Daniela Cabral explicou que o objetivo das escavações é confirmar o que se conhece sobre a construção da igreja, que está associada à família Botelho.
Em 1522, quando se deu o terramoto de Vila Franca do Campo, os pais de André Gonçalves de Sampaio, suposto neto de Gonçalo Vaz Botelho, morreram e ele “decidiu construir a ermida de Santo André, dedicada aos seus familiares” e que se “tornou o panteão da família dos Botelhos”. A ermida foi posteriormente transformada em igreja e em convento (1533).
Assim, o objetivo das escavações é obter essa confirmação, “tanto a nível arqueológico como a nível antropológico”.
“Confirmamos que, realmente, foram encontrados vestígios osteológicos e o nosso objetivo, agora, será confirmar se realmente pertenceriam a esta família”, através da realização de análises de ADN.
Apesar de não poder dar já uma confirmação, Daniela Cabral diz ser “muito provável” que os ossos sejam da referida família, porque os documentos históricos diziam que os seus membros teriam sido enterrados na zona do altar-mor, o que foi confirmado com as escavações.
“Agora, só com as futuras análises [é que se poderá confirmar]. Aqui já teremos uma possibilidade de [tal ser possível, e] com as análises de ADN poderemos confirmar”, admitiu à Lusa.
Além do estudo do ADN, para apurar o grau de parentesco, vão ser também feitas análises aos isótopos estáveis (dieta e morbilidade) nos Estados Unidos da América, pelo voluntário Marco Clemente, que participou nas escavações e é aluno da Universidade da Flórida.
“A verdade é que aquilo que nós sabemos e que está documentado é que quanto mais próximo do altar mais importantes seriam as pessoas cá enterradas. Portanto, acho que este é um estudo bastante significativo para Vila Franca”, vaticinou a antropóloga forense.
Entre os ossos recolhidos, a investigadora destacou um do esterno, que apresenta coloração verde e poderá ter estado em contacto com um colar ou parte de uma indumentária.
“Nós não podemos dizer o que é que foi, porque não encontramos qualquer vestígio, para além de uma fivela, mas, supostamente, a fivela seria parte de um cinto. Então, a parte […] do esterno é interessante porque poderá ser algum colar que tivesse sido enterrado com aquela pessoa e que comprovasse a importância”, explicou.
Por sua vez, Nesinga Oliveira, arqueóloga e coordenadora do Museu Municipal de Vila Franca do Campo, atual responsável pela gestão do projeto relacionado com a igreja de Santo André, iniciado em 2025, referiu à Lusa que não está ainda decidido se as escavações, que este ano envolveram cinco elementos, entre investigadores e voluntários, vão prosseguir em 2027.
“Temos muito para pesquisar do ponto de vista científico, mas essa pesquisa faz sentido quando temos resultados e quando temos capacidade de estudar o espólio e os materiais que temos, que conseguimos exumar da escavação”, disse.
E rematou: “Como está a decorrer o processo de estudo, agora, só com os resultados do estudo dos materiais das escavações do ano passado e deste ano é que vamos conseguir aferir se é viável ou não continuarmos as escavações.”
Segundo Nesinga Oliveira, o projeto, para além das escavações, engloba outras atividades, como uma exposição sobre o restauro e a consolidação das imagens que estavam na igreja e ações de esclarecimento e de sensibilização sobre o imóvel.
Esta responsável referiu que também não existe previsão para a reabertura da igreja, tendo em conta que necessita de restauro. “Não estamos ainda em condições de avançar e nos comprometermos com essas obras de restauro do edifício. Esperamos, no entanto, que os trabalhos que têm decorrido no âmbito deste projeto sensibilizem as entidades governamentais e todos os interessados, da necessidade da recuperação deste imóvel”, disse.
A igreja de Santo André está a ser alvo de uma intervenção científica e multidisciplinar desde março de 2025 e o projeto é promovido pelo município, na ilha açoriana de São Miguel, e pela Diocese de Angra, proprietária do imóvel.
O monumento, que se encontra fechado ao público, está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 2008.
A igreja de Santo André integra o convento com o mesmo nome e a sua origem remonta à reconstrução da vila após o terramoto de 1522.
Escavações revelam novos enterramentos na capela-mor de igreja de Vila Franca do Campo
Escavações arqueológicas realizadas pelo segundo ano consecutivo no interior da igreja do antigo convento de Santo André, em Vila Franca do Campo, Açores, revelam novos enterramentos na capela-mor, que os investigadores associam à família que a mandou construir.
Autor: Lusa
