Primeira biografia de Gulbenkian chega às livrarias nos 150 anos do seu nascimento


 

Lusa/Ao online   Cultura e Social   5 de Jan de 2019, 11:36

A biografia de Calouste Gulbenkian, o negociador arménio que foi o homem mais rico do mundo e que deixou a Portugal a maior coleção de arte privada do país, chega às livrarias portuguesas, assinalando 150 anos do seu nascimento.

Intitulada “O homem mais rico do mundo – As muitas vidas de Calouste Gulbenkian”, é a primeira biografia deste milionário, construída por Jonathan Conlin, a partir da consulta dos arquivos pessoais de Gulbenkian, em arménio, francês, inglês, alemão, russo e turco.

É a história da vida e dos negócios de um “homem complexo” e um dos “mais influentes do seu tempo” como o descreve o autor da biografia publicada no aniversário dos 150 anos do seu nascimento (23 de março de 1869).

Em Portugal, a biografia definitiva desta “enigmática” figura do século XX chega às livrarias, editada pela Objetiva, revelando quem foi na realidade o “senhor cinco por cento” – assim conhecido devido à sua participação na primeira companhia petrolífera a extrair petróleo no Iraque – que, em julho de 1955, quando morreu em Lisboa com 86 anos, era o homem mais rico do mundo.

O seu nome está associado ao mecenato e à maior e mais importante coleção privada de arte do país, exposta na Fundação Calouste Gulbenkian, mas a fortuna que acumulou ao longo da vida teve origem nos negócios do petróleo e acordos de alto nível que mediou entre governos e barões desta indústria.

Com explica Jonathan Conlin, Calouste Gulbenkian “trabalhou como facilitador de bastidores, um intermediário entre os mundos dos negócios, da diplomacia e da alta finança”.

“Como uma aranha no centro de uma indústria internacional petrolífera e financeira emergente, Gulbenkian manteve impérios e multinacionais como reféns durante mais de cinquenta anos. No entanto, não teria chegado a deter tanto poder se não fosse um negociador e um arquiteto financeiro excecionalmente dotado”, escreve o autor.

Produtores de petróleo da Califórnia ao Cáucaso procuravam-no pela sua habilidade para angariar capital nos mercados bolsistas de Nova Iorque, Londres e Paris, e foram as suas intermediações que apresentaram as companhias de petróleo norte-americanas ao Médio Oriente, ao ponto de, em 1955, quando morreu, a indústria petrolífera mundial já não ser um monopólio americano, mas “um cartel internacional”.

“Até mesmo Estaline procurou o conselho de Gulbenkian, recompensando-o com obras de Rembrandt do famoso Museu Hermitage”, acrescenta.

“Nenhuma outra figura dos negócios da história da indústria petrolífera exerceu tanta influência, em tão larga escala e durante tanto tempo”, e este seu poder permitiu-lhe reivindicar 5 por cento da produção de petróleo do Médio Oriente.

Daqui, parte-se para a segunda questão que é a de saber como conseguiu conservar esse prémio, tornando-se o homem mais rico do mundo.

“Gulbenkian construiu um palácio fabuloso em Paris que encheu com tesouros” variados, como quadros do Hermitage, moedas gregas, antiguidades egípcias ou tapetes persas, estando atualmente essas coleções depositadas em Lisboa, na Fundação com o seu nome e que “continua a ser uma das fundações mais ricas do mundo”.

Contudo, a criação e estabelecimento da Fundação Calouste Gulbenkian não foi pacífica, com o Governo português a fazer um braço de ferro com Inglaterra, França e Estados Unidos, para receber a fortuna de Gulbenkian, na qual estavam envolvidas aquelas “poderosas nações”.

O advogado português de Gulbenkian, e futuro presidente da fundação, Azeredo Perdigão, manteve Salazar informado dos planos testamentais de Gulbenkian, tendo-o informado quando, em 1953, o testamento foi assinado.

Numa das reuniões entre os dois, Salazar instruiu Azeredo Perdigão para providenciar para que o conselho da fundação tivesse uma maioria portuguesa, ideia que Azeredo Perdigão também já tivera.

“Como Salazar comentou para o embaixador português em Londres, Pedro Teotónio Pereira, ‘não devemos esquecer-nos de que a fundação é portuguesa por desejo expresso do fundador, e de que o ato de criação da fundação e a sua nacionalidade representam uma doação a Portugal’”.

“O enunciado do testamento de Gulbenkian deixava igualmente claro” que “o desejo do fundador fora que Portugal beneficiasse mais do que qualquer outro país” e Salazar insistiu que a maioria dos membros do conselho tinha de ser composta por cidadãos portugueses, porque “o testamento estabelecera a fundação em Portugal e era evidente que era portuguesa, daí que devesse ser controlada por portugueses”.

Para além dos negócios, a biografia mergulha mais fundo na vida privada de Gulbenkian, que é “tão elusiva e bizantina quanto a sua forma de negociar”.

As mulheres de que se fazia acompanhar, os negócios com Estaline, a forma como usava a sua mulher, Nevarte, para aprofundar relacionamentos e alianças, o seu gosto pela filantropia e a sua paixão por arte – que lhe proporcionava “consolo e alívio” em momentos difíceis, como o próprio confessou ao filho, numa carta em que lhe explicava a razão por que colecionava – são outros temas que o autor desbravou.

Jonathan Conlin nasceu em Nova Iorque, mas mudou-se para Inglaterra, onde estudou História. Após escrever a história da National Gallery, em Londres, ficou fascinado pelo colecionismo, por museus e pelas políticas de património público, o que o levou a dedicar os últimos anos a investigar a vida e os negócios de Calouste Gulbenkian.



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