Num ano em que as guerras no Médio Oriente e na Europa resistiram aos esforços internacionais pela paz, o regresso de Donald Trump à Casa Branca, nos Estados Unidos da América (EUA), deixa uma marca, cujas repercussões só se conhecerão a partir do próximo ano, após a sua tomada de posse em janeiro.
Quatro anos depois da derrota frente ao democrata Joe Biden, o magnata republicano foi eleito o 47.º Presidente dos Estados Unidos nas eleições presidenciais a 5 de novembro, tendo superado os 270 votos necessários no colégio eleitoral, após ter escapado a duas tentativas de assassínio e de ter sido condenado pela justiça.
Com a tomada de posse marcada para o próximo dia 20 de janeiro, aos 78 anos, Trump é a pessoa mais velha a ser eleita para a Presidência dos EUA e, quando tomar posse, será alguns meses mais velho do que o seu antecessor, o democrata Joe Biden, quando este tomou posse em 2020.
Recorde-se que, em maio, o júri de um tribunal de Nova Iorque considerou Donald Trump culpado de todas as 34 acusações de um esquema para influenciar ilegalmente as eleições presidenciais de 2016 através do pagamento de dinheiro para silenciar uma atriz pornográfica que afirmava que os dois tinham tido relações sexuais. E além de condenado judicialmente, Trump é também o único Presidente na história dos EUA a enfrentar um processo de impugnação duas vezes durante o seu mandato, tendo, contudo, sido absolvido pelo Senado de todas as acusações, em ambas as situações. O seu primeiro mandato ficou ainda manchado pela insurreição do Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, quando, depois de perder as eleições de 2020 para Joe Biden, continuou a alegar fraude eleitoral.
Recorde-se de que a sua candidatura teve como
bandeiras o fim da guerra na Ucrânia, o endurecimento das políticas de
imigração e o restabelecimento da supremacia económica dos EUA com
políticas protecionistas. Trump promete um segundo mandato ainda mais
polémico do que o primeiro e com uma administração recheada de figuras
escolhidas a dedo pela sua lealdade para “voltar a tornar a América
grande”.
Entre estas está Elon Musk, nomeado pelo presidente eleito
norte-americano, Donald Trump, para chefiar uma comissão para a
“eficiência governamental”, tendo já reunido com congressistas em
Washington para discutir as suas propostas de cortes orçamentais, tendo a
sua interferência ameaçado a estabilidade orçamental. Mas o Congresso
adotou a lei que garante o financiamento do Estado federal, aos níveis
atuais, até meados de março, evitando a ida de centenas de milhares de
funcionários públicos para casa, sem salário.
Guerra na Ucrânia e em Gaza
Em
guerra há quase três anos, Rússia e Ucrânia voltam a falar de
conversações para um acordo que permita a paz. O Presidente russo,
Vladimir Putin, admitiu conversações de paz tendo a Eslováquia como
plataforma de diálogo.
Quando o ano está a chegar ao fim, a Ucrânia enfrenta dificuldades na linha da frente de combate e depende da ajuda financeira e militar ocidental e teme ser forçada a um acordo desfavorável.
Vladimir Putin afirmou que o seu país iria alcançar “todos os objetivos na Ucrânia”, que passam pela anexação das quatro regiões parcialmente ocupadas no sul e leste da Ucrânia, além da península da Crimeia, e que essa é a “tarefa número um”. O Presidente russo também ameaçou que o seu país está pronto para voltar a utilizar o seu míssil hipersónico ‘Oreshnik’ de última geração.
Já no Médio
Oriente, a ofensiva do exército israelita na Faixa de Gaza prossegue,
tal como negociações para um acordo de cessar-fogo.
Segundo a
Organização das Nações Unidas (ONU) “morre uma criança por hora” na
faixa de Gaza e desde que Israel lançou a ofensiva contra o Hamas
naquele território já morreram pelo menos 14 500.
Israel lançou uma
ofensiva contra Gaza na sequência dos ataques de 7 de outubro de 2023 do
Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) e de outros grupos
palestinianos, que causaram a morte de cerca de 1200 pessoas e o
sequestro de outras 250, segundo as autoridades israelitas. Desde então,
as autoridades de Gaza, controladas pelo Hamas, comunicaram a morte de
mais de 45 000 palestinianos na Faixa de Gaza, na maioria mulheres e
crianças, além de cerca de outros 800 mortos pelas forças israelitas e
em ataques de colonos desde então na Cisjordânia e em Jerusalém
Oriental.
Síria
O ano terminou com a queda do presidente da Síria, Bashar al-Assad, pondo fim a 24 anos de poder. Assad fugiu com a família para a Rússia, após a sua destituição, a 8 de dezembro, pela HTS, herdeira da antiga afiliada síria da Al-Qaida e classificada como grupo terrorista por países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e ainda a União Europeia.
O novo poder instalado em Damasco nomeou o político Mohammed al-Bashir como primeiro-ministro interino do governo sírio de transição, cargo que assumirá até março de 2025.
O conflito sírio começou em 2011, depois de o regime de Assad ter reprimido brutalmente uma revolta popular que degenerou numa guerra civil de 13 anos que obrigou mais de 14 milhões de sírios a abandonar os locais habituais de residência, metade dos quais no interior da Síria.
Após
o colapso do regime de Bashar al-Assad, levado a cabo por uma coligação
de rebeldes liderada pela Organização de Libertação do Levante (Hayat
Tahrir al-Sham, HTS), o país tem vivido um misto de otimismo e desordem,
debatendo-se atualmente com um cenário de segurança instável, uma crise
humanitária crescente e deslocações generalizadas.
Fiasco climático
Ano com três grandes reuniões mundiais sobre clima e natureza, 2024 termina sem decisões importantes mas com mais emissões de gases, mais catástrofes climáticas e, é quase certo, como o ano mais quente de sempre.
Em termos de ação ambiental, ‘fiasco’ pode ser a palavra que define 2024, marcado por temperaturas elevadas e grande número de eventos climáticos extremos - um deles as inundações recentes de Valência, Espanha, com um balanço, provisório, de 226 mortos - apesar dos alertas e dos discursos bem-intencionados nas várias reuniões internacionais sobre o clima e a natureza. Em novembro, Cali, na Colômbia, recebeu a 16.ª conferência da ONU sobre biodiversidade, rodeada de grande expectativa porque era a primeira após a conferência de Montreal na qual o mundo concordou em proteger 30% do planeta até 2030. Terminou sem que os países chegassem a acordo sobre o financiamento do roteiro para deter a destruição da natureza.
Uma semana depois foi Baku, no Azerbaijão, a receber a 29.ª conferência da ONU sobre alterações climáticas (COP29), que anualmente tenta reduzir as emissões de gases com efeito de estufa (GEE), combater as alterações climáticas e promover a adaptação. A COP29 terminou sem que nada de substancial tivesse sido decidido e deixou todos descontentes. Os países mais desenvolvidos comprometeram-se em contribuir com 300 mil milhões de euros anuais para ajudar os países em desenvolvimento na transição energética e na adaptação às alterações climáticas.
E já este mês, outra conferência da ONU, sobre a luta contra a desertificação terminou em Riade, na Arábia Saudita, sem novidades de monta.
Ficaram os avisos de António Guterres, um 2024 que será o ano mais quente de sempre, o ano em que a humanidade consumiu mais petróleo, gás e carvão e estabeleceu um novo recorde de emissões de GEE, segundo estimativas de estudos científicos.
Em 2024, tempestades e chuvas torrenciais mataram centenas de pessoas nas Honduras, em Espanha ou no Chade, no Paquistão e na China.
Seca e incêndios assolaram o Equador e
Moçambique, a capital da Coreia do Sul, Seul, bateu recordes de
temperaturas, os oceanos continuaram a sobreaquecer, em Marrocos e na
Índia morreram dezenas de pessoas devido a ondas de calor sem
precedentes. E na tradicional peregrinação a Meca morreram quase 600
pessoas, a maioria devido ao calor.
Em julho, com o dia 21 a ser o mais quente alguma vez registado no mundo, o calor extremo provocou “impactos devastadores” em centenas de milhões de pessoas, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), que, em novembro já alertava que os dados até então indicavam que 2024 seria o ano mais quente alguma vez medido. “A humanidade está a incendiar o planeta”, comentava Guterres. E ao longo do ano não faltaram estudos, alertas e avisos sobre o estado do planeta, desde especialistas a alertarem para as ameaças à saúde causadas pelas alterações climáticas, até à ONU a chamar a atenção para novos recordes de concentrações de GEE, passando por cientistas a avisarem que um terço das espécies de árvores pode extinguir-se, ou a concluírem que os sinais vitais da Terra se agravaram e que o mundo está “à beira de um desastre climático irreversível”.
Apesar do grande défice de aplicação efetiva no terreno de medidas de proteção da natureza, na área legislativa, 2024 viu a União Europeia aprovar a Lei de Restauro da Natureza.
