No 75º aniversário da primeira edição de Mau Tempo no Canal

No 75º aniversário da primeira edição de Mau Tempo no Canal

 

Victor Rui Dores   Regional   24 de Mar de 2019, 09:00

Comemora-se, no corrente ano, o 75º aniversário da primeira edição de Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio (1901-1978), poeta, romancista, professor, filólogo, investigador, crítico, jornalista, cronista, intelectual, historiador da literatura e da cultura, comunicador televisivo, tradutor, biógrafo, epistológrafo e… tudo.

Ao longo dos anos aquela obra foi editada mais nove vezes e traduzida em três ocasiões: Le Serpent Aveugle (1953) e Gros Temps Sur l´Archipel (1988), por Denyse Chast, e Stormy isles: an Azorean Tale (1998), por Francisco Cota Fagundes.


A ação de Mau Tempo no Canal, que tem por cenário as ilhas do Faial, Pico, São Jorge e Terceira, tem o seu núcleo de intriga desenvolvido na Horta, cidade onde Vitorino Nemésio concluiu, em 1918, o Curso Geral dos Liceus como aluno externo.


A permanência de Nemésio na Horta haveria de marcar profundamente o escritor adolescente (então com 16 anos de idade). Recorde-se que Mau Tempo no Canal evoca um período (1917-1919) que coincide em parte com essa estada.


Em 1918, em pleno final da Primeira Grande Guerra, a Horta vivia os resquícios de uma prosperidade económica iniciada em meados do século XIX, pela família Dabney, com as riquezas que provinham da laranja, do vinho, da baleia e do carvão. Possuindo um comércio marítimo intenso e uma impressionante animação noturna, a cidade era então porto de escalas obrigatório, local de reabastecimento de frotas e de repouso da marinhagem. As suas ruas fervilhavam de militares, marujos, gente de todas as nacionalidade e raças. Além disso estavam instaladas na Horta as companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos, que convertiam a cidade num “nó de comunicações” mundiais. De resto os ingleses, os americanos, os alemães e os italianos dos “Cabos” haveriam de deixar profundas influências sociais, culturais e desportivas no meio faialense.


Deixando a então mais pacata cidade de Angra do Heroísmo, é este ambiente cosmopolita que Nemésio vem presenciar, o que terá contribuído, decisivamente, para que ele viesse mais tarde a escrever essa obra mítica e irrepetível que dá pelo nome de Mau Tempo no Canal, publicado em 1944 mas trabalhado desde 1938.


Com abundante informação sobre os Açores, e atravessado por muitas e múltiplas personagens, Mau Tempo no Canal dá conta da história de Margarida Clark Dulmo, pertencente à aristocracia decadente do Faial. Margarida é o epicentro de relações amorosas desencontradas e frustradas, nenhuma delas capaz de lhe proporcionar a realização das suas opções existenciais, sistematicamente negadas pelas convenções sociais, impostas pelo ambiente moral burguês ou mesmo determinadas por uma fatalidade que ordena as histórias de amores recalcados e de vidas amordaçadas ao longo das gerações das famílias Clark e Garcia.


Obra-prima pela densidade e perfeição da sua forma e estrutura, pela riqueza psicológica das suas personagens e pela maneira como o autor desenvolve aspetos históricos, culturais, sociais, míticos, etnográficos e científicos relacionados com os Açores, Mau Tempo no Canal é hoje considerado um dos melhores romances que já se escreveram em língua portuguesa, sendo, de acordo com José Martins Garcia, “a síntese de todas as ficções de Nemésio e o remate de toda a idiossincrasia açoriana”.


Citando Vasco Graça Moura, António Machado Pires, nemesianista de primeiríssima água, lembrava recentemente que as três obras-primas da ficção portuguesa são: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, Os Maias, de Eça de Queiroz e Mau Tempo no Canal.


Nunca é tarde para (re)ler o grande romance da açorianidade – que rima com universalidade.


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