Museu da História da Imigração abre envolto em polémica

Museu da História da Imigração abre envolto em polémica

 

Lusa / AO online   Internacional   10 de Out de 2007, 19:13

O Museu Nacional da Historia da Imigração abriu hoje as portas ao público sem uma inauguração formal, mas antes com uma chamada "inauguração de cidadãos", já que nenhum membro do governo francês foi convidado.
    Os responsáveis pelo museu não quiseram convidar o governo, nem o Presidente da República, por não estarem de acordo com as actuais políticas de imigração das autoridades francesas.

    A exposição do museu abre com uma fotografia da década de 60 de duas mulheres e crianças portuguesas que chegam a uma estação de comboio em Paris, numa demonstração evidente da visibilidade da comunidade portuguesa em França.

    Contudo, a exposição não reflecte a importância que os portugueses tiveram e ainda têm para o desenvolvimento da França, dizem vozes críticas.

    Segundo Albano Cordeiro, sociólogo investigador no Centro Nacional da Pesquisa Científica (Centre National de la Recherche Scientifique), o Museu não reflecte essa realidade e, além disso, provoca confusão porque não separa a imigração proveniente das ex-colónias francesas da oriunda de países não francófonos, como é o caso de Portugal.

    O facto do Museu estar instalado no antigo Museu das Colónias, agrava a confusão, porque até "os frescos das paredes" permanecem lá, como foram pintados para a Expo Colonial de 1931.

    "Francamente é um problema, deixa confusão na cabeça de muita gente", diz Albano Cordeiro.

    "O contencioso com a imigração magrebina existe, por isso há racismo e xenofobia dos franceses para com eles. São imigrantes mal aceites porque a guerra da Argélia deixou marcas profundas na sociedade francesa. Aqui ainda se diz que a guerra da Argélia não acabou", explica o sociologo, ha' mais de 40 anos radicado em Paris.

    "Esse trauma (da guerra da Argélia) abafa tudo o resto quando os franceses falam de imigração", conclui Albano Cordeiro para explicar porque é que no Museu Nacional da História da Imigração em Paris quase não existe um traço da presença portuguesa em França, maugrado a importância real da comunidade, sem igual na França do pós-guerra.

    "O Museu não conta essa história", remata Albano Cordeiro.

    Ainda assim, o museu pretende dignificar o papel e a presença dos imigrantes em França, numa altura em que se preparam medidas políticas de combate à imigração ilegal e ao trabalho clandestino, com previsíveis deportações em larga escala para os países de origem, nomeadamente de imigrantes africanos.

    O Museu Nacional da Historia da Imigração está instalado no Palácio da Porta Dourada, em Paris, onde funcionou o antigo Museu das Colónias, o que pode considerar-se uma ironia da História.
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