Saúde

Mercado das análises clínicas em risco de ficar ainda mais concentrado


 

Lusa/AO online   Nacional   31 de Ago de 2008, 14:18

O mercado das análises clínicas em Portugal, avaliado em 350 milhões de euros/ano, deverá ficar ainda mais concentrado em empresas multinacionais e grandes laboratórios portugueses devido à alteração das tabelas de convenções, prevêem fontes do sector.
Com o corte de 20 por cento em algumas análises, a partir de segunda-feira e até Dezembro, os donos dos pequenos laboratórios pretendem aceitar as propostas de compra que têm sido feitas por empresas multinacionais, afirmou à Lusa o presidente da Associação Portuguesa dos Analistas Clínicos (APAC).
Francisco Faria anteviu uma redução média na facturação de 10 por cento com a nova medida, o que "torna inviável grande parte dos laboratórios" pequenos e médios.
O negócio das análises clínicas tornou-se apetecível em Portugal, onde - segundo o presidente da Associação Nacional de Laboratórios Clínicos (ANL), Germano de Sousa - se geram anualmente 350 milhões de euros, dos quais cerca de 240 milhões sob a forma de convenções pagas pelo Estado.
"Dos 400 laboratórios que ainda existem, grande parte está já aglomerada em seis ou sete agrupamentos. Alguns são estrangeiros porque a nossa economia não tem capacidade para suportar. E agora vamos vender com certeza aos estrangeiros, se eles ainda quiserem comprar", afirmou também Francisco Faria. 
As baixas nos preços "retira viabilidade económica e a situação passará por encerramentos e criação de grandes blocos", acrescentou.
Entre as principais multinacionais a operar em Portugal está a Euromedic, com 18 laboratórios, a Capio, que adquiriu a suíça Unilabs e recentemente o maior laboratório de análises clínicas do Norte, o do Doutor Carlos Torres, e a Sampletest, que tem 20 laboratórios.
Entre os laboratórios portugueses de maior facturação, segundo fontes do sector, incluem-se o Laboratório Dr. Joaquim Chaves, o Grupo Botelho Moniz, e a Labdiagnostica, de Germano de Sousa. 
Um dos responsáveis por um dos maiores laboratórios de análises clínicas a operar em Portugal explicou à Lusa que o fenómeno "da concentração é relativamente recente" e que "os laboratórios operavam um pouco como as farmácias, em que o negócio estava na família".
As "sucessivas alterações nos preços pagos nas convenções" levou os pequenos laboratórios "a vender a qualquer preço", acrescentou.
"Nos grandes laboratórios não só conseguem obter reagentes a melhores preços, como têm mais automatização, menos mão-de-obra", logo margens maiores, explicou a mesma fonte.
Por outro lado, deu exemplos de vantagens competitivas noutros países devido a questões fiscais: "Em Espanha paga-se 7 por cento de IVA pelos reagentes, enquanto em Portugal se paga 20 por cento. E este IVA em Portugal não tem razão nenhuma de ser, uma vez que há reagentes vendidos em farmácia que têm IVA de medicamento (5 por cento)".
"É o caso da fita de picar o dedo para os diabéticos. É considerado medicamento e tem IVA de 5 por cento. A mesma tira comprada por um laboratório a um fornecedor leva um imposto de 20 por cento", frisou.
Depois de um corte de cinco por cento em 2006, a imposição de um tecto máximo ao valor pago nas convenções em 2007 e a anunciada diminuição de 20 por cento até ao fim do ano, a "tendência será para funcionarem em Portugal apenas três a seis grandes laboratórios", referiu.
"As clínicas mais pequenas passarão a postos de colheita ou serão abolidas. Mesmo os postos de colheita mais pequeninos dos grandes grupos também terão que encerrar porque não têm rentabilidade nas aldeias ou vilas. As pessoas para fazerem análises terão que ir à cidade", anteviu o presidente da APAC.
O presidente do Sindicato Nacional dos Farmacêuticos, Henrique Reguengo, também antevê o fim das "pequenas empresas, que estão bem distribuídas pelo país", e acredita que os grandes grupos concentrem mais os locais de colheita e resultados, porque "tecnologicamente também interessa".
Devido a estes encerramentos, o presidente da APAC alertou para a eventualidade de despedimentos e para a perda de contacto personalizado com utentes e com médicos.
O dirigente sindicalista também faz eco destas preocupações, argumentando que as análises são "muito mais do que a produção de um resultado para um clínico", alegando que "são também a interpretação, o contacto com o clínico e o diálogo com o utente".
"A baixa de preço poderá ser mais rentável, sobretudo para o Estado, ao poupar dinheiro. No entanto, o serviço a prestar vai ser de pior qualidade e o utente poderá ficar mais vezes doente, ou terá que fazer mais vezes análises", avisou.

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.