Açoriano Oriental
Mentalidade é a chave para mais mulheres no desporto motorizado

A mentalidade competitiva é a razão apontada pela antiga piloto francesa Michele Mouton para a escassez de mulheres a competirem nos desportos motorizados.

Mentalidade é a chave para mais mulheres no desporto motorizado

Autor: António Gonçalves Rodrigues/Lusa

“Não se pode estar neste desporto só pela exposição, pelo facto de ser a única mulher no meio de um desporto de homens. Se não gostar da velocidade, do desafio, de ultrapassar os seus limites, é muito difícil. Este não é um desporto em que se consiga chegar ao topo facilmente e só porque se quer. É preciso trabalhar muito, treinar. Não é como nos outros desportos, é preciso investir o seu tempo e energia”, afirmou Michele Mouton, em entrevista à agência Lusa.

A antiga piloto de ralis e atual presidente da Comissão das Mulheres nos Desportos Motorizados da Federação Internacional do Automóvel (FIA) considera que são necessárias mais vontade e determinação para haver mais mulheres em competição.

Vencedora de quatro provas do Campeonato do Mundo, incluindo o Rali de Portugal, em 1982, Mouton lamenta que o foco dos jovens esteja cada vez mais nas redes sociais.

“O que vejo na maior parte do tempo é que os jovens têm muito mais energia para se mostrarem no Instagram ou no Facebook do que em quantas décimas de segundo ganharam numa especial, dentro do carro. Esse é outro dos problemas. Hoje em dia, preferem saber quantos seguidores têm do que lutar. Infelizmente, este não é um desporto em que se chegue ao topo só porque se quer. É preciso lutar por isso”, sublinhou.

À margem da 57.ª edição do Rali de Portugal, que terminou no domingo, o promotor do Campeonato do Mundo (WRC) apresentou um programa de deteção de talentos femininos, com o objetivo de aumentar o número de mulheres no campeonato. Uma ideia que Michele Mouton aprova, apesar de considerar que isso só resolve parte do problema. A outra metade depende das próprias jovens.

“Quem me dera voltar a ter [agora] 20 anos, porque no meu tempo precisávamos de encontrar os patrocínios, tínhamos de fazer tudo. Agora, desde o promotor, às equipas, todos ajudam as raparigas. Não se sabe quantas vão aderir mas se o programa pudesse ajudar uma ou duas já seria fantástico. É uma excelente oportunidade. Mas é preciso estar motivada”, apontou.

A francesa recordou o início da sua carreira, nos anos 1970, quando decidiu arriscar: “Quando comecei, não sabia se seria boa. Mas comecei”.

“Depois, quis melhorar, ser mais rápida, tentei ser sempre mais rápida e nunca desisti. Ok, não tínhamos Instagram ou telemóveis nem nada disso. Mas agora é uma história diferente. Para mim, a motivação é o mais importante. Pilotar depressa depende mais da cabeça do que do pé”, sentenciou.

Mouton defende o alargamento da base de recrutamento feminina, mas também motivar as raparigas a experimentarem a competição automóvel.

“É mais uma questão de trabalho do que de talento. A certa altura, sabes que não vais mais depressa mas se queres bater o adversário, tens de encontrar a solução para ires mais depressa. O que faz a diferença é a motivação. No meu caso, eu não podia aceitar ser mais lenta do que o colega que tinha o mesmo carro que eu. Tínhamos o mesmo carro e, para mim, não era aceitável ser mais lenta se os carros eram iguais. Não sabia como fazê-lo mas tentava ir o mais depressa possível”, garantiu.

E tentava fazê-lo, independentemente da aparência: “Se não tivermos essa mentalidade... eu gosto do desafio e de lutar. Não queria saber se estava despenteada para as fotos, se falavam bem de mim, ou mal. Não queria saber. Só queria atingir o nível deles. E tinha essa motivação”, recordou Michele Mouton, apesar de nunca ter tido como objetivo ser piloto de ralis.

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