Kosovo: Independência será catastrófica diz Embaixador da Rússia


 

Lusa / AO online   Internacional   24 de Nov de 2007, 10:55

A auto-proclamação da independência do Kosovo, a ser reconhecida por Washington, será catastrófica e terá um efeito dominó, a partir dos Balcãs, com consequências imprevisíveis particularmente perigosas no espaço da ex-URSS, declarou o embaixador russo em Lisboa.
    “Se os Estados Unidos vierem a reconhecer unilateralmente uma independência auto-proclamada pelo Kosovo será uma catástrofe que se espalhará a partir dos Balcãs, num efeito dominó, com consequências imprevisíveis (…) particularmente perigosas no espaço da antiga União Soviética”, afirmou à Agência Lusa Pavel Petrovski.

    O diplomata falava no rescaldo do fracasso de mais uma ronda de negociações entre as delegações sérvia e albanesa sobre o futuro estatuto do Kosovo, província sérvia de maioria albanesa, concluída terça-feira sem resultados em Bruxelas e a reatar na segunda-feira, dia 26, próximo de Viena, sob mediação da troika formada pela União Europeia, Estados Unidos e Rússia.

    A presidência portuguesa da UE secundou a prossecução das negociações “até ao último momento” e apelou a “mais pressão” sobre as partes em confronto.

    O embaixador Petrosvski vincou que o seu país se mantém fiel à posição de que sérvios e albaneses terão de chegar a acordo livres da data limite imposta de 10 de Dezembro, quando a troika entrega o seu relatório ao secretário-geral das Nações Unidas, para o levar ao Conselho de Segurança.

    Moscovo apoia Belgrado na vontade de chegar a qualquer solução que não implique a perda de soberania sobre 15 por cento do seu território - onde vivem cerca de 100.000 sérvios, embora acantonados e sob protecção militar aliada (KFOR) - e dispõe, como último recurso, do direito a veto no Conselho de Segurança.

    Washington apadrinha Pristina na reivindicação da independência que o ex-guerrilheiro do Exército de Libertação do Kosovo Hashim Thaci, líder do Partido Democrático do Kosovo (PDK) vencedor das legislativas deste mês, já anunciou querer - no pior dos cenários - auto-proclamar em Março de 2008.

    “O problema é precisamente o da posição dos Estados Unidos” neste contencioso, queixou-se Petrovski.

    Esta semana, o chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, pôs em causa as legislativas kosovares por ter sido desrespeitada a resolução 1244 do Conselho de Segurança da ONU relativa aos direitos das minorias - neste caso a sérvia -, que boicotou as eleições.

    Com uma maioria de 90 por cento de população albanesa no território, o PDK obteve cerca de 35 por cento dos votos e a histórica Liga Democrática do Kosovo (LDK), até agora no poder, 22 por cento, forças políticas que deverão formar o próximo governo de coligação.

    O Kosovo, província meridional sérvia e berço da nacionalidade, está sob administração da ONU (MINUK) desde o fim dos bombardeamentos da Aliança Atlântica (NATO), em 1999.

    Antes, Moscovo pedira “contenção” aos separatistas radicais albaneses do Kosovo, para não desestabilizarem a região.

    Thaci rejeitou todas as soluções até à data propostas em alternativa à independência do território, nomeadamente um modelo federativo bi-zonal e bi-comunal inspirado no plano do ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan para reunificar o Chipre, o da região administrativa especial de Hong-Kong na China, e o de uma confederação.

    Para Pristina, a única saída é a independência, mesmo se for concedida sob vigilância internacional, como preconizava o plano do ex-mediador da ONU para o Kosovo, o finlandês Martti Ahtisaari.

    “É imperioso prolongar as negociações”, insistiu o embaixador russo em Lisboa, justificando a necessidade de até dar ”margem de manobra” a Belgrado para tomar uma decisão que será sempre impopular no país - a caminho de uma futura adesão à UE -, onde há poderosas forças ultra-nacionalistas.

    Segundo Petrosvski, na UE o efeito dominó da independência do Kosovo poderia ter consequências imprevisíveis imediatas por exemplo na Bélgica (dividida entre as comunidades dos flamengos e dos valões francófonos), ou no Chipre, onde as comunidades grega e turca estão separadas há mais de quatro décadas por uma “zona tampão”.

    No leste europeu, o diplomata expressou preocupação quanto à Transdniestria, que se separou da Moldova e é um dos dossiers prioritários da presidência anual espanhola da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

    Nos Balcãs, alertou para eventuais reivindicações independentistas dos próprios cantões sérvios no Kosovo, como o bastião de Kosovska-Mitrovica, bem como da República Srpska, uma das duas entidades autónomas da Bósnia-Herzegovina (juntamente com a Federação Croato-Muçulmana), ou da maioria albanesa no norte da Macedónia, que pegou em armas e só chegou à paz com Skopje pelo Acordo de Ohrid, em 2001.

    No sul do Cáucaso, lembrou as regiões georgianas da Abkhazia (noroeste) e Ossétia do Sul (centro-norte), ambas de maioria russófona, cuja autonomia concedida por Estaline foi suprimida pelo Presidente Zviad Gamsakhurdia, o primeiro depois de o país se ter separado da URSS.

Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.