Museu Berardo

Exposição mostra impacto nas artes visuais ao longo do século XX

Exposição mostra impacto nas artes visuais ao longo do século XX

 

Lusa / AO online   Nacional   14 de Nov de 2007, 15:43

A primeira grande exposição temporária do Museu Colecção Berardo, intitulada "Um Teatro sem Teatro", que aborda a influência do modelo teatral nas artes visuais ao longo do século XX, vai incluir uma homenagem ao actor português Mário Viegas.
Numa visita guiada à exposição, que inaugura quinta-feira à noite, o director do museu, Jean-François Chougnet e um dos comissários responsáveis, Yann Chateigné, explicaram à Agência Lusa o conteúdo desta co-produção do Museu Berardo e do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (MACBA).
De acordo com o director do museu, no âmbito desta exposição, que integra cerca de oitocentas obras, será homenageado o actor e encenador Mário Viegas com a exibição, numa das salas, do filme "Mário Gin-Tónico" (1986), um dos espectáculos que fez a solo.
"Esta exposição é uma leitura da arte do século XX numa perspectiva muito diferente do resto da colecção (Berardo)", comentou Jean-François Chougnet, precisando que "foca a relação entre o teatro e as artes visuais analisando as propostas de artistas que exploram estas questões.
"Um Teatro sem Teatro" é apresentada em 4 núcleos: o “Anti-teatro” (de Dada a Fluxus), o “Homem-actor” (Antonin Artaud, Tadeus Kantor e a arte californiana dos anos 60-70), “Para além do minimalismo” (futuristas e situacionistas), e um epílogo com obras de Dan Graham e James Coleman.
O director do museu disse à Lusa que a exposição esteve entre Junho e Setembro deste ano no MACBA, e foi adaptada a Portugal, com a introdução de novas peças e documentos, para ser apresentada no Museu Berardo, onde estará até 17 de Fevereiro de 2008.
Grandes nomes do contexto artístico português, tais como Santa Rita Pintor e José de Almada Negreiros, entre outros, são focados logo no início da exposição, nomeadamente com um livro original da época contendo o Manifesto Anti-Dantas, escrito em 1915 por Almada Negreiros como panfleto contra a burguesia conservadora.
Também estão representadas obras dos portugueses Ernesto de Sousa e Helena Almeida, pertencentes à Colecção Berardo, da qual foi igualmente retirada uma selecção de outras obras, entre as quais se destacam propostas de Carl Andre, Larry Bell, François Dufrêne, Giulio Paolini, Lucas Samaras e Jacques de la Villeglé.
Para instalar esta grande mostra, foi retirada da exposição permanente do Museu Berardo parte do Núcleo da "Pop Arte e Cª" - que passou para uma sala no piso -1, mas apenas uma selecção com algumas das obras de Andy Warhol, Lichtenstein, Lurdes Castro, John di Andrea - e foi retirado o núcleo intitulado "Re-take", onde se encontravam trabalhos de Jorge Molder, C.Boltanski, Ernesto de Sousa, entre outros.
A entrada da exposição começa com vários documentos relacionados com a influência do movimento dadaísta no teatro, a partir das primeiras décadas do século XX - fotografias, panfletos, programas de teatro e dramaturgias escritas por artistas como Pablo Picasso.
O visitante vai descobrindo documentos históricos do teatro e das artes visuais reveladores da efervescência das ideias e do combate que movimentos como o dadaísmo, futurismo e surrealismo travaram contra as convenções estabelecidas na época.
Arthur Cravan, Hugo Ball, Hans Arp, Tristan Tzara, Francis Picabia, Kurt Schwitters, André Breton e Louis Aragon são alguns dos artistas que o público poderá descobrir num percurso que contém também instalações de grandes dimensões, nomeadamente uma de Mike Kelley, "Performance Related Objects" (1977), outra de Guy de Cointet, intitulada "Tell Me" (1979), que incluía uma performance.
Durante a visita guiada, Yann Chateigné, (comissário da exposição em conjunto com Bernard Blisténe), comentou à Lusa que "Um Teatro sem Teatro" "despertou muito interesse por parte do público", em Barcelona, "onde foi um sucesso, e considerada a melhor exposição do ano (2007) em Espanha".
Yann Chatigné observou que a exposição partirá depois de Lisboa para os EUA, onde será apresentada em Minneapolis, e comentou que "seria interessante levá-la à América Latina, mas exigiria muito mais tempo de preparação".
Como a exposição é adaptada a cada país, os comissários fazem uma pesquisa sobre os artistas nacionais para os incluir, mas o contínuo prolongamento da itinerância desta mostra coloca o problema da manutenção de documentos históricos fora emprestados a arquivos e instituições "que não as podem ceder durante muito tempo", explicou.
 A exposição prossegue com outros trabalhos baseados no modelo teatral, executados por artistas que vão de Konstantin Stanislavski a Vsevolod Meyerhold, de Antonin Artaud a Samuel Beckett, de Jerzy Grotowski a Tadeusz Kantor, nomeadamente com algumas obras inéditas deste último artista polaco.
"Ele foi dos primeiros artistas a interessar-se por elementos de outras culturas, criando espectáculos com elementos de danças tradicionais indianas, artes marciais, rituais, sempre em relação intensa com o público", referiu o comissário que pesquisou pessoalmente sobre Kantor durante algum tempo em Cracóvia.
Há ainda um grande espaço dedicado ao Ballet Triádico (dança teatral) concebido por Oskar Schlemmer, com fotografias, máscaras e cartazes, e uma reprodução de uma grande instalação datada de 1927, com uma sala forrada de grandes argolas de madeira e duas figuras - uma feminina e outra masculina - suspensas do tecto.
A partir da dança, são mostradas colaborações excepcionais com artistas de outras áreas, nomeadamente entre o bailarino e coreógrafo Merce Cunningham, John Cage, Robert Rauschenberg, Andy Warhol, Frank Stella e Bruce Nauman nos anos 70.
Os "happenings" (acontecimentos artísticos que começaram por ter um carácter único e momentâneo) surgidos no início dos anos 60, foram sendo cada vez mais usados pelos artistas para exprimir as suas ideias e chegaram à arte contemporânea, bem como as instalações e performances, onde as artes visuais e o teatro continuam a ser cruzados.
Para a recta final de "Um Teatro sem Teatro", o público poderá apreciar instalações e vídeos de artistas como Juan Munoz, Bruce Nauman, James Coleman e Dan Graham.
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