"Eu continuo a namorar a minha guitarra e sinto gozo e segurança ao fazê-lo" (vídeo)

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Miguel Bettencourt Mota   Cultura e Social   24 de Jan de 2018, 20:32

Luís Gil Bettencourt correu os dedos na Viola quando visitou este jornal. Depois, corremos nós as suas influências e ficámos a saber mais do músico que nasceu com um privilégio que Brian May se viu forçado a enriquecer para igualar. Falámos de como tem sido pisar os mesmos palcos do que a filha, Maria Bettencourt, e perguntámos sobre o que esperar do concerto 'No Meu Quarto', que vai protagonizar no Teatro Micaelense, este sábado. O "contador de histórias" abriu-nos a porta desse quarto, o mesmo onde diz o que lhe vai na alma e se permite ser "o maior do mundo". Fora das quatro paredes, confessou, não é assim tão firme e teima em tropeçar nas guitarras e a enamorar-se delas.


Que diferenças há entre o Luís Gil Bettencourt que lançou o álbum Empty Space, em 1985, e este que se vai apresentar no Teatro Micaelense?

À medida que o tempo foi passando fui-me adaptando.Não gosto da palavra evolução. Quando vim dos Estados Unidos da América tinha um trabalho assente no rock e depois dediquei-me um bocado à música tradicional (...) O que acontece é que vai-se ganhando outras experiências e sonoridades...Sempre fui também um amante de música clássica e de fado...Uma pessoa vai colhendo essas influências ao longo da sua vida  e depois são  elas que fazem com que uma pessoa agarre o violão, ou uma guitarra de forma diferente e as aborde de uma ou outra maneira...

...São essas influências que vai apresentar no concerto deste sábado? É delas que se reveste 'No Meu Quarto'?

A verdade é que 'No Meu Quarto' passo a ser um contador de histórias e falo das influências e dos momentos em que fiz as coisas e as vivi. Falo do que representa o meu quarto e de como queria ser o maior músico do mundo... E é isso que sou, desde que ninguém me ouça [risos] ...

...É com originais que vamos poder contar?

É tudo original e é engraçado porque eu não fazia a mínima ideia que tinha feito tanta coisa em português. Eu acho que cerca de 80 por cento do concerto é em português. Vou buscar coisas que nunca editei. Passo pela guitarra elétrica, pela Viola da Terra e pelo semi-acústico e depois a Maria [Bettencourt] entra para me dar uma ajuda com dois ou três temas...Quero, se possível, que haja um bem-estar entre a plateia e a minha pessoa. No Meu Quarto tudo é possível! No Meu Quarto eu sou o maior...De portas fechadas, sem ninguém ver [mais risos]

A Maria Bettencourt vai também participar no seu concerto. Tem feito, aliás, parte do percurso musical da sua filha...

Sim, até ela me despedir serei o guitarrista dela...

...Que prazer é que isso lhe tem trazido?

É uma situação natural, uma pessoa está já habituada a isso. Claro que é bom uma pessoa voltar a tocar música rock, em alto e bom som... É algo de que sempre gostei. É o que eu mais gosto, na verdade. Tocar com a Maria em grandes cidades como Londres, Hollywood, Nova Iorque, Boston e por aí afora, dá um grande gozo e é muito interessante. Até porque a Maria, praticamente, deixou de ser minha filha. É a minha melhor amiga.

Acha que o prazer é recíproco?

Eu não posso falar pela Maria, mas quero acreditar que ela gosta um pouco da forma que eu toco. Nem que seja um bocadinho [risos]...

Como pai - ou melhor - como guitarrista e melhor amigo da Maria, onde é que gostaria de vê-la chegar?

Epá, todos os dias nós chegamos a algum sítio. Uma vez perguntei ao Brian May por que razão os Queen queriam fazer muito dinheiro. Ele respondeu-me que a intenção dele era a de um dia poder comprar uma casa numa ilha. Eu pensei: "Fogo, isso eu já tenho" . Portanto, não é por aí...Afinal, onde começa e onde acaba a felicidade? O importante é a Maria sentir-se bem nos patamares que vai galgando e poder tocar em sítios incríveis. É isso que está a acontecer... Tem tocado com bons músicos, como é o caso do meu sobrinho Donovan Bettencourt e do baterista Filipe Gonçalves. Para mim, tem sido um gozo incrível estar com a banda assim e sei que é para ter continuidade.

Nós não conhecemos bem um Luís Gil Bettencourt sem guitarra. Deduzimos que ela seja já quase uma extensão do seu corpo...

Se nós não abraçarmos o instrumento devidamente, se não sentirmos a sua vibração e nos esforçarmos para conhecê-lo de alto a baixo, a probabilidade de haver menos verdade na música é maior. É uma extensão, de facto, para exprimir aquilo que sinto. Eu brinco com a guitarra e vou explorando; é como um braço cheio de feridas e quando tocas, dói.

Já houve alguma altura em que a guitarra o irritou? Em que se sentiu a estagnar?

Não, de forma alguma. Até porque eu nem sou bem um guitarrista, sou mais uma pessoa que tropeça sobre uma guitarra em casa, ou na rua, e depois uso-a para me fazer sentir bem. Não tenho grandes problemas quanto a isso e adoro encontrar quem toque muito melhor, ou até quem toque menos...Com poucas notas faz-se muita coisa!

A caminho dos 62 anos, os dedos ainda cumprem a sua missão?

Pois, isso é que é um problema [risos]...

...O Eric Clapton já se queixa...

...O Eric Clapton está lixado, infelizmente! Está claro que eu noto diferenças em mim e sinto dores. Mas elas já passaram a ser algo que me acompanha e com que consigo lidar. Agora, quando os dedos começarem a não responder à mente, aí será pior! Mas se acontecer, pronto...Há pistolas à venda, acho eu [risos]...

Há muitos guitarristas que têm uma pulsão para repetirem uma determinada melodia, ou percorrerem uma escala, sempre que pegam na guitarra. Acontece consigo?

Eu nem sempre sei o que estou a fazer quando pego na guitarra. Às vezes, apetece-me tocar uma Chamarrita do Pico, ou o Leviatã, mas não tenho grandes 'vícios'. O que me acontece muito é dar por ela ao colo. Uma pessoa está tão habituada que ela é quase uma bengala, uma segurança.

Este tema que ouvimos, Leviatã, vai apresentá-lo no Teatro?

Sim, sim...eu acho que vou tocar esta 'brincadeirazinha'. Vou pegar nesta Viola da Terra e tentar tocar algumas das coisas de que gosto, como a Chamateia do Pico e a Canção de Embalar. A Maria quando se junta canta com ela um tema seu, porque, na verdade, esta Viola tem-nos acompanhado por todo o lado. Vou também falar dela, que nos tem trazido nos concertos em conjunto uma sonoridade muito interessante...Destaca-se bem em toda aquela 'porrada rock' que apresentamos e mistura-se bem com a rouquidão da voz da Maria.

As suas guitarras e o homem que tropeça nelas têm tido as merecidas oportunidades para mostrarem o que valem?

Epá...Mas o que é que uma pessoa vale? Uma pessoa vale por aquilo que é. Acho que às vezes as pessoas julgam-nos melhores do que aquilo que realmente somos. Se calhar, às vezes, damos mais nas vistas do que aquilo que, na verdade, tocamos. Para mim, o que continua a ser importante é poder namorar...Eu continuo a namorar a minha guitarra e sinto gozo e segurança ao fazê-lo. O melhor que podemos fazer depois é sermos humildes e rezarmos para conseguirmos chegar à plateia. 'No Meu Quarto' falo muito de como as pessoas devem ter atenção para não se deixarem levar por coisas circenses. É onde é possível dizer às pessoas tudo o que sinto e que devo, e ninguém me pode criticar de forma nenhuma porque é o meu quarto. E acabou [risos]!




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