Estudo revela que mais de metade das tarefas domésticas desempenhadas exclusivamente pelas mulheres


 

Lusa/AO   Economia   21 de Set de 2007, 06:12

Mais de metade das tarefas domésticas continuam a ser realizadas exclusivamente pelas mulheres, sem ajuda dos maridos ou companheiros, que desempenham sozinhos apenas 17 por cento dos trabalhos em casa, segundo um estudo do Instituto de Ciências Sociais (ICS)
De acordo com um inquérito referido no relatório "A vida familiar no masculino: novos papéis, novas identidades", que será apresentado hoje em Lisboa, as tarefas realizadas conjuntamente pelo casal representam apenas 14 por cento de todo o trabalho doméstico, enquanto as desempenhadas por toda a família, incluindo os filhos, não vão além de 1,5 por cento do total.

    O documento aponta “a cumplicidade e a conformidade femininas com o esquema da desigualdade de género” como um dos principais entraves à mudança do papel dos homens na família, salientando que “muitas vezes as mulheres prescindem da igualdade e da individualidade para serem o suporte da estratégia masculina e da própria vida familiar”.

    Entre os obstáculos à mudança no seio da família, o relatório refere igualmente “uma visão de género assente em valores tradicionalistas que ainda resiste na sociedade portuguesa” e um investimento intenso dos homens na carreira profissional, o que pode conduzi-los “a um afastamento da vida familiar”.

    Tratar da roupa, fazer as refeições e lavar e arrumar a loiça são as tarefas domésticas que as mulheres mais desempenham sem qualquer ajuda, o que acontece em 85,76 e 68 por cento das situações, respectivamente, segundo o inquérito, baseado numa amostra de 1.776 inquiridos em Portugal.

    Por oposição, apenas 1,7 por cento dos maridos ou companheiros tratam da loiça sem ajuda, 0,8 por cento fazem as refeições e só 0,5 por cento limpam a casa sozinhos.

    Já as reparações e as diligências administrativas constituem as tarefas que os homens mais realizam sozinhos, em 76 e 41 por cento dos casos, respectivamente.

    Ir às compras é a tarefa que mulher e cônjuge mais desempenham em conjunto, em 39 por cento das vezes.

    No entanto, as desigualdades já não são tão visíveis no que toca aos cuidados prestados aos filhos, onde se regista um aumento ligeiro da participação masculina e uma maior percentagem de tarefas desempenhadas conjuntamente pelo casal.

    “Apesar de muitos homens sentirem dificuldades em se inserirem na dinâmica familiar e parental, todos aderem a uma nova imagem do ‘pai presente’ e do ‘pai educador’ por oposição à imagem do pai autoritário, distante e castigador do passado”, lê-se nas conclusões do relatório.

    Neste sentido, 34 por cento dos cuidados são prestados em conjunto pelo casal, verificando-se um aumento do envolvimento dos homens em todas as tarefas desta área, quando comparadas com os trabalhos domésticos propriamente ditos.

    Ainda assim, as mulheres ainda asseguram sozinhas os cuidados aos filhos em 53 por cento dos casos, contra apenas 10,3 por cento dos homens.

    Levar os filhos ao médico, por exemplo, é uma tarefa desempenhada isoladamente pela mulher em 59 por cento das vezes, pelo casal em 34,5 por cento e pelo cônjuge sozinho em apenas 3,8 por cento.

    No que diz respeito a levar os filhos à escola, o contributo dos pais não é tão desequilibrado: a tarefa é realizada pela mulher em 31,5 por cento das situações, pelo companheiro em 15,6 e por ambos em 16,8 por cento.

    A tarefa que os casais inquiridos mais realizam em conjunto é estar com os filhos na hora de deitar, em 42,2 por cento das situações.

    Ao nível da vida familiar, as conversas mais frequentes são tidas entre o casal (42,5 por cento dos casos), muito à frente das conversas entre os pais e os filhos (26,4 por cento).

    “Os casais que, desde o início da vida a dois, desenvolvem laços centrados no diálogo, na entreajuda, na partilha quotidiana e num projecto parental definido a dois, tendem ao longo da vida a organizar-se segundo lógicas de maior envolvimento masculino no dia-a-dia familiar”, refere o relatório.

    Nos diálogos, a vida profissional ocupa 80 por cento das conversas, mais até do que os problemas pessoais (72 por cento).

    Individualmente, a mulher tem sobretudo conversas com os filhos relacionadas com a escola e os estudos (39,8 por cento), enquanto os diálogos do cônjuge com as crianças são maioritariamente dedicados a assuntos desportivos (37,8).

    O relatório será apresentado hoje no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, no âmbito de um seminário sobre o papel dos homens no universo familiar.
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