Açoriano Oriental
Enóloga do Pico produz vinhos com uvas da sua aldeia

Cátia Laranjo, enóloga e produtora de vinhos da ilha do Pico, criou a ETNOMVinhos em 2020, com o intuito de produzir vinho utilizando somente vinhas da sua aldeia e áreas envolventes. Produção deste ano já chegou ao Canadá


Autor: Rafael Dutra/Nuno Martins Neves

Cátia Laranjo, natural da ilha do Pico, é enóloga e produtora de vinhos. Ajovem açoriana de 31 anos trabalhou durante vários anos na Azores Wine Company. Até que, em 2020, decidiu criar o seu próprio projeto, a ETNOMVinhos, em que são utilizadas apenas vinhas da sua aldeia e de zonas em redor.

O seu pai era viticultor e vendia a sua produção à adega cooperativa  do Pico. Por isso, Cátia Laranjo conta em entrevista ao Açoriano Oriental, que desde criança esteve envolvida neste setor. A picarota ajudava o pai e participava nas vindimas. Estava “sempre de roda deste mundo que é as vindimas, e em torno do vinho”.

“Costumo dizer que no Pico ou é vinhas ou vacas. Graças a Deus o meu pai tinha vinhas e não vacas (risos), senão eu era veterinária e não enóloga neste preciso momento”, sublinha.

Cátia Laranjo fez a sua primeira vindima no Pico, na própria cooperativa onde passou grande parte da sua infância. Depois, fez várias no Douro, Alentejo e até em África do Sul. A grande maioria foram experiências oriundas de estágios integrados do curso de Enologia que tirou na Universidade de Trás-os-Montes  e Alto Douro.

Pelo curso iniciar mais tarde, em outubro, os estudantes têm a oportunidade de aprender numa vertente mais prática. Um benefício que lhes dá a possibilidade de “explorar outras regiões, procurar diferentes produtores e formas de trabalhar”, sustenta a enóloga.

Foi depois da experiência em África que reconheceu o “imenso potencial do Pico”, que ainda não está a ser explorado. “Neste momento vamos a caminho dessa exploração, mas ainda temos um longo percurso pela frente”, diz, admitindo que  quando tirou o curso tinha o objetivo de regressar ao Pico e trabalhar nesta área.

O projeto ETNOM, o nome da sua aldeia (Lugar do Monte) escrito ao contrário,  surge da vontade de Cátia Laranjo vinificar somente nesta área. Assim, em 2020 começou a vinificar utilizando as uvas do seu irmão, sendo que também compra uvas a viticultores perto da sua aldeia. 

Depois, em 2021 recupera a vinha do seu pai, à moda tradicional, para garantir que “o material genético utilizado era 100% daqui da ilha”, conta, acrescentando que “é uma enologia correta, mas com ideias em parte antigas”.

Desde então, a enóloga produziu vários vinhos, cada um com um conceito e história próprio.  Além do vinho branco, rosé e tinto ETNOM, produziu ainda ovinho Canada dos Ladrões, que tem esse nome porque a canada dos ladrões é um caminho que fazia desde pequena, e cujas uvas tem vindo a adquirir ao viticultor dessa área. Já o vinho 2351, de vinhas velhas do Lajido da Criação Velha, é uma homenagem à montanha do Pico.

No entanto, nenhum destes foi o primeiro vinho de Cátia Laranjo. Em 2019, após ter sido ‘chateada’  pelos colegas da Azores Wine Company, para fazer o seu próprio vinho, cria o Laranjinha, vinho que só foi lançado ao mercado em 2023.

Este vinho, a sua primeira experiência enológica, foi uma vinificação de “100% arindo dos Açores”, adquirido a um viticultor do Lajido do Monte e tem este nome porque, apesar de ser um vinho branco, a sua cor é laranja.

“Na altura já tinha saído da Azores Wine Company. Eles fizeram a mudança para a adega nova e o único depósito que ficou na adega antiga foi o meu vinho. O meu colega André trouxe o vinho para casa e o único  sítio que tinha para colocá-lo era uma barrica de vinho de cheiro. Foi a parte de matéria corante do tinto, a interação com o branco e a oxidação que fez com que o vinho ficasse cor de laranja”, explica Cátia Laranjo.

De acordo com a picarota, este vinho “dá-nos uma sensação aromática”, aludindo a “casca de tangerina ou laranja”, e que “por mais erros que tenham acontecido ou não, tornou-se um vinho bastante interessante”, realça.

A criadora da ETNOM ainda não tem a sua adega, algo que espera mudar em breve. Por isso, e tendo em conta as questões logísticas inerentes ao arquipélago, faz a sua vinificação na produtora vinícola onde trabalhara, que a  apoia neste sentido. Aluga o espaço, tem os seus depósitos lá, e efetua o processo de engarrafamento e rotulagens.

A enóloga conta que aprendeu “imenso” ao trabalhar nesta empresa que revolucionou o paradigma do vinho no Pico. “AAzores Wine Company foi sem dúvida a empresa que colocou os vinhos do Pico no mapa. Há muito a agradecer ao António Maçanita”, enaltece, referindo ainda que o mesmo é “um grande professor e um génio naquilo que faz”.

Neste momento, um dos principais problemas para Cátia Laranjo é  a quantidade produzida. “É pena não existir mais vinho. Quando comecei, além das nossas produções serem muito pequenas, estamos sempre condicionados pelas condições atmosféricas. Apanhámos três anos muito maus, 2020, 2021, 2022, em termos de quantidade”, confessa.

No futuro, em termos produtivos, Cátia Laranjo vai ter a garantia da sua própria vinha, mas revela que só daqui a cinco anos é que a mesma estará a produzir em pleno.

Apesar das dificuldades, produziu este ano em números muito superiores, o que a coloca outra questão, para onde exportar e alocar estes vinhos.

O Canadá é um dos mercados que já conseguiu fechar. Mantém as portas abertas a países como a  Suíça, Áustria, Alemanha eSuécia, e pretende também exportar para Portugal Continental e Espanha.  “Ainda não consegui fazer esse trabalho devido às quantidades, mas futuramente lá chegaremos”, conclui.

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