Dia negro de Wall Street foi há 20 anos


 

Lusa / AO online   Economia   19 de Out de 2007, 17:42

Há 20 anos os mercados internacionais viveram um dos dias mais negros da história, o índice norte-americano caiu 22,6 por cento numa única sessão e o colapso atingiu a bolsa portuguesa que, nos meses seguintes, perdeu dois terços do seu valor.
O pânico desencadeado pelo “crash” de 19 de Outubro de 1987 teve consequências graves um pouco por todo o mundo, numa altura em que, tanto em Portugal como a nível internacional, reinava há anos grande euforia entre os investidores.

Aníbal Cavaco Silva, à data primeiro-ministro, já tinha alertado para as sobrevalorizações dos títulos, afirmando seis dias antes do “crash”, à televisão, que as pessoas estavam a comprar "gato por lebre", uma frase que ficou célebre numa época em que se davam os primeiros passos no chamado capitalismo popular.

A declaração de Cavaco e o “crash” de 19 de Outubro de 1987 potenciaram uma forte correcção em Portugal que, segundo João Duque, professor no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), era inevitável.

"Poderia ter acontecido cá sem ter acontecido lá" e vice-versa, porque "os mercados não estavam ligados", o nosso mercado não tinha nada que ver com os outros, disse João Duque, em declarações à Lusa.

"Com o susto lá, [as pessoas] acordaram cá", mas mesmo o ‘crash' do Dow Jones não tivesse acontecido "tínhamos um colapso na mesma porque era uma loucura" o que se vivia na bolsa em Portugal.

O professor do ISEG lembra que na altura havia "um desajustamento total entre a cotação das empresas e o seu valor real", uma grande disparidade entre a oferta e a procura e a euforia era tal que as pessoas faziam filas enormes para comprar títulos.

No dia do 'crash' a bolsa portuguesa estava fechada (funcionava apenas de terça a sexta-feira) e o principal índice (BTA - Banco Totta & Açores) estava nos 6.713,6 pontos, lembra.

Quando regressou à negociação, no dia seguinte, caiu mais de quatro por cento e, nas cerca de três semanas seguintes, o índice não parou de cair, cotando um mês depois da "Segunda-feira Negra" nos 4.200 pontos.

A tendência de descida manteve-se nos meses seguintes e cerca de meio anos depois, o índice BTA estava nos 2.400 pontos, ou seja, tinha perdido dois terços do seu valor.

"Acho que o mercado aprendeu" com o 'crash' de 1987, "foi um grande calafrio", refere João Duque, que considera que uma situação idêntica não nos mercados accionistas não voltará a acontecer. Consultor de bolsa na altura do 'crash', Manuel Alves Monteiro destaca sobretudo a lição que os mercados tiraram desse acontecimento e a grande evolução ao nível regulamentar e operacional que se seguiu.

"Os mercados foram apanhados absolutamente de surpresa no auge de um período de grande euforia" tanto em Portugal como a nível internacional, o efeito foi "dramático", refere Alves Monteiro.

No entanto, salienta, o 'crash' teve o mérito de ter ajudado o mercado a dar um salto qualitativo, a "virtualidade de constituir uma lição e de levar o Governo e as autoridades a fazer reformas" neste sector, tendo exposto as "fragilidades do nosso sistema".

Para o antigo presidente da bolsa portuguesa, "houve um enorme ganho de experiência, de conhecimento, sobre como lidar com situações de crise", um incentivo de "criar regulamentação para evitar situações futuras".

Alves Monteiro destaca a "reforma Sapateiro", feita por José Luís Sapateiro, que criou as bases para o funcionamento do mercado de capitais como existe actualmente.

Teve como novidades a criação se sistemas de liquidação e compensação, de regulamentos e de legislação para o mercado de capitais, a negociação em contínuo, o sistema de custódia de títulos", o que trouxe inovação e modernidade à bolsa portuguesa.

"Mercado passou a ser de qualidade superior", refere Alves Monteiro, que aponta ainda como pontos positivos a melhoria da qualidade dos profissionais e a aprendizagem feita pelos próprios investidores.

Quanto a acontecer uma situação idêntica no futuro, Alves Monteiro, considera que "correcções fortíssimas nos preços" podem acontecer, mas não "uma situação de tão forte descontrole" como a de 1987.
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