Cidade Velha de Cabo Verde voltou ao século XVII, com telemóveis, tablets e um drone

Cidade Velha de Cabo Verde voltou ao século XVII, com telemóveis, tablets e um drone

 

Lusa/Ao online   Internacional   29 de Set de 2018, 19:37

A Cidade Velha, em Cabo Verde, assistiu este sábado, em peso e de gala, à chegada dos jesuítas pelo mar, como há quatro séculos, não fosse a presença de telemóveis, 'tablets' e até de um drone a denunciar o século XXI.

A primeira edição da "Viagem pela História" envolveu mais de mil figurantes e, só hoje, para a recriação da receção dos jesuítas no arquipélago, estiveram a atuar 600 atores, muitos deles moradores na Ribeira Grande de Santiago.

A Cidade Velha, património mundial da humanidade, respondeu com grande entusiasmo ao desafio de recuar quatro séculos e, hoje, no centro histórico, era possível ver vendedoras de frutas trajadas a rigor, músicos a tocar batuque e cimboa, mulheres de volta da “sinhã” e escravos acorrentados.

Nivaldo da Silva, morador na cidade da Praia, representou um dos padres jesuítas que ali chegou há quatro séculos, “com o objetivo de impedir a propagação do Islão no sul”.

À agência Lusa recordou a importância para Cabo Verde nesse propósito, pois “foi a base de instalação do Cristianismo". "Todos se reuniam aqui e depois iam para dentro de África, nomeadamente a Guiné”.

Junto ao pelourinho, Miguel Tavares, vestido de roupas coloridas, passeava uma farta cabeleira. O instrumento que toca, a cimboa, denunciava a profissão: músico.

Este ator, que mora na cidade de Santa Cruz, encarnou a figura de um escravo, mas “com determinadas qualidades e certas liberdades”, como ressalvou.

“Sou um escravo que já é capaz de pôr em prática a sua cultura e dinâmica cultural”, disse.

A cimboa “era usada pelos escravos pastores para animar a pastorícia, num momento de isolação. É um instrumento acompanhado pelo batuque”, explicou.

Em cada esquina, um grupo de mulheres vestida à época animava a viagem.

Visivelmente feliz com a sua personagem, a “sinhã”, Carminda explicou que esta era “gente fina, que estava na casa branca, que mandava nos escravos e que recebia os jesuítas quando saiam do mar”.

Moradora em Vila Nova da Praia, disse gostar muito desta personagem e principalmente das roupas, um vestido comprido colorido, adornado com um xaile preto.

Ao seu lado, duas outras figurantes: Alcinda, vendedeira de frutas, e Cleidiane, uma escrava simples de 15 anos. Ambas estavam contentes com as personagens, e encaminhavam-se felizes para o porto, porta de entrada da embarcação que trouxe os jesuítas para Cabo Verde.

O ator e encenador Gil Moreira, trajado de 'mestiço', personagem que na época “já tinha uma certa inserção social”, ressalvou a importância de eventos como este que são capazes de “dar vida à história” e “fazê-la reviver”.

“Transmitir a história às novas gerações, valorizar a cultura cabo-verdiana e marcar o trajeto”, eis o objetivo da iniciativa que também valoriza "o centro da cidade velha como património histórico e cultural”.

O presidente da Câmara Municipal de Ribeira Grande, Manuel de Pina, despiu a pele de autarca e hoje era apenas “um mercador”.

“A Cidade Velha era o centro de comercialização de escravos. Sou um cidadão comum, mas com alguma relevância no tecido económico da cidade”, disse, justificando a sua personagem.

Sobre o episódio hoje recriado, Manuel de Pina disse que os jesuítas foram chamados pela própria população, daí a grande envolvência de todos na sua receção, há quatro séculos, hoje recriada.

Enquanto autarca, disse que este tipo de eventos é necessário para “engajar a população local e ela ver a importância do sítio histórico no contexto do desenvolvimento local”.

Para esta "Viagem pela História", a autarquia cabo-verdiana contou com o apoio da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, em Portugal, onde se realiza a maior viagem medieval da Europa.

O seu presidente, Emídio Sousa, fez questão de estar presente e optou por vestir a roupa de um nobre, aproveitando a indumentária utilizada em Portugal.

"Para nós, foi uma honra quando Cabo Verde nos abordou para sermos parceiros. Estiveram connosco na nossa última viagem medieval e vamos ajudar”, disse.

Nesta viagem embarcou o batuque e a capoeira, as cantadeiras e a tabanka, manifestações culturais de Cabo Verde. Houve música e dança e mais tarde as mesas vão estar cobertas de pratos típicos da época.

O objetivo foi reproduzir ao máximo as vivências da Cidade Velha no século XVII. A envolvência da população foi fácil. Mais difícil foi tirar do cenário os telemóveis, os tablets e até um drone, que denunciavam o atual século XXI.




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