Alunos discutem controlo digital nas relações

Na véspera do Dia dos Namorados, a Escola Secundária Antero de Quental realizou uma ação sobre violência no namoro, no meio digital. A iniciativa foi em parceria com Associação Desliga.



“Se tu não tens nada a esconder, porque não mostras?”. Esta frase, tantas vezes levada como prova de amor, foi rejeitada quase em coro pelos alunos, da Escola Secundária Antero de Quental que aceitaram falar com o Açoriano Oriental, nas comemorações antecipadas do Dia dos Namorados.

A conversa começou com uma pergunta inspirada na campanha “RelationChip”, da Associação de Apoio à Vítima - APAV: “Se existisse um microchip subcutâneo que te permitisse ter acesso às passwords, contactos, mensagens e localização em tempo real do teu namorado ou namorada, aceitarias colocá-lo?” A maioria respondeu de imediato que não.

“O relacionamento tem de ser à base da confiança”, disse uma aluna de 18 anos. “Se tens de controlar, então não é relação, é outra coisa”. Outro estudante reforçou “Isso é tóxico. Se não confias na pessoa, não vale a pena”.

Dos 12 aos 18 anos, os alunos mostraram ter noção de que  controlo não é sinónimo de amor: “As pessoas confundem uma relação possessiva com uma relação leal”, afirmou a uma jovem de 17 anos. “Gostar de alguém não é saber onde está a toda a hora”.

Ainda assim, admitem que a violência existe: “Há uma normalização, principalmente nas redes sociais. Se não dás a password, parece que estás a esconder alguma coisa”.

E a partilha de nudes sem consentimento?
As opiniões dividiram-se quanto à divulgação de imagens íntimas.

“Se os dois concordarem e ninguém partilhar, não há problema. Mas se espalhar, a culpa é de quem espalha”, defendeu um aluno de 18 anos. Outros alertam para  a importância de ter cuidado: “Temos de ter atenção em quem confiamos. Hoje pode guardar, mas amanhã pode usar contra nós”. Houve também quem achasse que a responsabilidade é “um bocadinho dos dois”, lembrando que quem envia deve estar consciente das consequências.

Apesar das diferenças, o princípio é apenas um, a vítima não tem culpa: “A pessoa teve confiança para mandar aquilo, e depois partilham? Isso não é amor”.

O que é o amor?
“Não é controlo”

Quando questionados sobre o que o amor não é, as respostas foram semelhantes: “violência”, “ódio”, “raiva, “traição” e “controlo”. Um jovem foi mais além e atreveu-se a dizer que “o amor é respeito”.

Alguns admitiram conhecer casos de agressões físicas e psicológicas entre adolescentes: “Já vi casos de porrada entre namorados e de ele a obrigar a fazer coisas”, contou um estudante de 17 anos. Outros falaram de situações mais discretas, mas também violentas, como pedir passwords,controlar amizades ou mexer no telemóvel do parceiro ou da parceira sem autorização.

Entre preocupação e posse, os jovens consideram existir  uma linha ténue: “Pode ser preocupação, mas há limites. Cada um tem direito à sua privacidade”, disse uma aluna.

Sensibilizar para o digital
Para ajudar a desmistificar estas fronteiras, a Associação Desliga esteve presente na escola, em parceria com o Departamento de Artes. Em exposição estiveram ilustrações criadas pelos alunos que retratavam cenários de violência no namoro, sobretudo em contexto online: controlo das redes sociais, chantagem emocional, partilha de passwords ou o envio de imagens íntimas.

Foram também distribuídas 200 cartas de São Valentim com alguns alertas: “Dou-te o meu amor, mas não te dou o pin do meu telemóvel” ou “Quantos ‘amo-te’ escondem um ‘dá-me a tua password”. No interior, tinha ainda os contactos de  de apoio, como os da UMAR e a da APAV.

No mundo real, a violência parece ser mais fácil de ser reconhecida, no digital os limites podem ser menos óbvios. Entre likes, stories e passwords, muitos jovens ainda estão a aprender que controlo não é amor.

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A quota de pesca do atum-rabilho vai aumentar 21% em 2026, permitindo aos pescadores açorianos “capturar 115 toneladas desta espécie de elevado valor comercial”, revelou ontem o Governo Regional dos Açores.

Na véspera do Dia dos Namorados, a Escola Secundária Antero de Quental realizou uma ação sobre violência no namoro, no meio digital. A iniciativa foi em parceria com Associação Desliga.