Açoriano Oriental
Açores são a região que produz menos riqueza no mar

Nos Açores, o valor criado anualmente por quilómetro quadrado de mar é de apenas 41 euros, muito menos do que na Madeira e no continente. Para o presidente do IMAR, João Gonçalves, é preciso potenciar este enorme recurso

Açores são a região que produz menos riqueza no mar

Autor: Rui Jorge Cabral

Os Açores são a região do país que menos valor produz a partir do mar por quilómetro quadrado.

Nos Açores, o valor produzido anualmente a partir do mar é de 41 euros por quilómetro quadrado, enquanto que na Madeira é de 92 euros por quilómetro quadrado e no continente, esse valor é de 1400 euros por quilómetro quadrado.

O recordista mundial de valor extraído do mar são as Ilhas Faroé, pertencentes à Dinamarca, que conseguem retirar 4700 euros anuais de atividades ligadas ao mar, por quilómetro quadrado, mais de 100 vezes o valor por km2 produzido nos Açores.

“Temos de facto muito mar, uma área vastíssima, mas quando olhamos para o valor económico gerado pelo mar, ele é de facto pequeno e há, por isso, a necessidade de potenciar este enorme oceano que nos cobre”, afirmou João Gonçalves, presidente da direção do Instituto do Mar (IMAR) e pró-reitor da Universidade dos Açores para o campus da Horta, que ontem apresentou estes números.

E se é verdade que os Açores, sozinhos, têm com os seus quase 1 milhão de quilómetros quadrados de mar mais de metade da Zona Económica Exclusiva de Portugal, isso também significa que há muito potencial ainda por explorar.

João Gonçalves falava durante a Conferência do Açoriano Oriental dedicada ao tema “Novas Oportunidades para a Economia Rural e Economia do Mar”, que ontem decorreu no anfiteatro da Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores, em Ponta Delgada.

O presidente do IMAR referiu também que nos Açores a riqueza per capita gerada pelas atividades agrícolas em terra é ainda muito superior à riqueza per capita gerada pelas atividades marítimas e entre os exemplos que deu de potencial por explorar no mar, falou da aquacultura, uma atividade que no mundo já representa cerca de 50% do peixe comercializado, uma percentagem que baixa para 25% no contexto de Portugal e que nos Açores ainda é praticamente inexistente.

“Nos Açores, temos algumas ideias interessantes, mas ainda não estamos na fase de produzir em quantidades para o mercado. Existem também alguns trabalhos experimentais no domínio da investigação e a grande dificuldade que temos é a de em que espécies podemos investir na aquacultura nos Açores”, questionou João Gonçalves, para quem é importante pensar bem na opção de introduzir ou não em aquacultura espécies de peixe que não existem nos Açores.

E como exemplo do que pode ser feito em aquacultura na Região, João Gonçalves lembrou a lapa. “Toda a gente sabe que este é um recurso altamente valorizado e em que, se calhar, a aquacultura de lapas para repovoamento pode vir a ser interessante para as áreas mais depauperadas em lapas”, alertou João Gonçalves.

O presidente do IMAR destacou a importância que setores como o Whale Watching atingiram nos Açores, em termos de criação de riqueza a partir do mar, mas lembrou que “muitas embarcações em cima dos grupos de cetáceos constantemente, durante o dia, produzem ruído e interrompem as atividades sociais destes grupos de animais, pelo que que esta é uma área em que é preciso deixar crescer com alguma atenção para ver se não temos aqui impactos negativos”, alertou.

A reparação naval foi ainda outro setor apontado pelo presidente do IMAR como tendo potencial por explorar nos Açores.

 Conforme explicou João Gonçalves, “este é um tipo de atividade que, se houver as condições, pode desenvolver-se mais nos Açores e é um pouco incompreensível que ao fim destes anos, não tenhamos ainda um núcleo forte de reparação naval nos Açores, para servir a frota local e a frota internacional que passa por aqui”.

Por seu lado, a gestora de projetos júnior da área da Bioeconomia Azul na Fundação Oceano Azul, Maria Moreira Feio, afirmou que “é importante percebermos que a conservação e a economia podem, de facto, andar de mãos dadas”, mas é preciso “colaboração entre todos” para que se consiga ter “uma economia muito mais desenvolvida, permitindo ao mesmo tempo que os nossos ecossistemas não se percam”.

Maria Moreira Feio, que também falava na Conferência do Açoriano Oriental, explicou que a economia azul mas vai mais além do que a economia do mar, porque tem o seu foco colocado na sustentabilidade dos recursos, aliada ao desenvolvimento da biotecnologia.

A gestora de projetos na Fundação Oceano Azul salientou ainda a possibilidade que nos Açores existe de se aliar a economia do azul com a economia rural, dando o exemplo de como as algas invasoras, que hoje já são um problema no mar dos Açores, podem vir a ser integradas em rações para as vacas, aliando o mar com a terra.

Os Açores devem assim olhar para a economia azul como uma folha em branco, porque, segundo Maria Moreira Feio, “são um biobanco vivo” onde há “muito potencial para aplicarmos”, concluindo que “há um grande interesse internacional de investimento nos Açores. O risco é grande, mas há procura e os Açores têm os recursos para isso”.


Há falta de estatísticas sobre várias atividades ligadas ao mar

Nos Açores, há atividades ligadas ao mar que se estão a desenvolver como o Whale Watching, o mergulho turístico ou a pesca desportiva em alto mar, mas sobre as quais existem apenas estimativas e não dados estatísticos fiáveis sobre o impacto económico que estas atividades estão a gerar e que pode influenciar os números da criação de valor a partir do mar.

“Temos atualmente um problema: se quisermos saber, por exemplo, quantas pessoas vêm fazer Whale Watching aos Açores, eu não conheço dados”, alertou João Gonçalves, presidente da direção do Instituto do Mar (IMAR), que falava ontem durante a Conferência do Açoriano Oriental.



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