“A Universidade dos Açores criou oportunidades que talvez eu não tivesse”

Susana Mira Leal. Nascida na Ribeirinha, numa família ligada ao comércio e à agricultura, tornou-se a primeira mulher a assumir o cargo de Reitora da Universidade dos Açores. Entre memórias de infância e uma trajetória académica marcada pela superação, a atual Reitora assume hoje o desafio de ser “exemplo e inspiração” para as novas gerações, sem nunca deixar de ser, nas suas próprias palavras, “eu própria”




Susana Mira Leal cresceu na Ribeirinha, Ribeira Grande, rodeada por uma família ligada ao comércio e à agricultura, onde aprendeu desde cedo a importância de negociar e de respeitar as pessoas.

Uma figura central da sua infância foi o avô materno, com quem conviveu até aos 9 anos e de quem guarda “grandes memórias e grandes aprendizagens” e que lhe ensinou sobre música portuguesa e o valor do contacto com a natureza.

Guarda ainda memória do tempo passado na loja onde trabalhava a mãe, onde brincou muito debaixo dos expositores, atrás dos expositores, às escondidas, às apanhadas.

Para além destas vivências, que ocorriam frequentemente depois da escola, este contacto precoce com o mundo comercial foi fundamental para a sua formação, ensinando-a a lidar com o público, a negociar e a manter uma relação de respeito e cordialidade com todas as pessoas.

Já do pai, que era agricultor e comerciante do setor primário, salienta o papel no desenvolvimento da sua capacidade de gestão e sentido de responsabilidade.

“O meu pai teve um papel importante, porque eu cresci tendo algumas atribuições e responsabilidades e a contribuir também para aquilo que era a gestão familiar”, afirma.

Cedo decidiu que queria ser professora, primeiro por influência da sua professora da Escola Primária, e de uma tia que também era professora, querendo ser professora deste ciclo e, mais tarde, professora de inglês.

“Aos nove anos, quando fui ao Canadá, aprendi inglês. Num caderninho escrevi palavras em português. Um tio meu escrevia-me as palavras em inglês, dizia-me como é que as pronunciava, porque o meu objetivo era falar em inglês com os meus primos durante aquelas férias alargadas. E aí ganhei um gosto pelo inglês, que depois vim a aprender formalmente na escola no segundo ciclo”, recorda.

Na altura de prosseguir os estudos universitários, devido ao pensamento conservador dos pais e a limitações financeiras, a existência da Universidade dos Açores foi crucial, permitindo-lhe cursar Línguas e Literaturas Modernas (Português e Inglês) sem sair da ilha.

“Eu tive a sorte de haver a Universidade dos Açores. Esta casa criou oportunidades que, se não existisse, talvez eu não tivesse tido. Não porque os meus pais não quisessem que eu estudasse, mas porque dificilmente me autorizariam a ir estudar para fora. E os meios financeiros também não eram abonados. Felizmente a Universidade dos Açores tinha o curso em Línguas e Literaturas via de ensino que eu queria”, conta.

Um momento marcante foi a entrada no ensino superior, que coincidiu com a contestação à Prova Geral de Acesso (PGA), e o atraso no início das aulas no ensino superior, situação que levou a que o trabalho de verão numa ourivesaria da família se prolongasse de julho a dezembro. Esta experiência permitiu-lhe ganhar o seu primeiro “pé de meia”, que depois lhe permitiu comprar o seu primeiro computador e consolidar valores como a honestidade, a poupança e o gosto pelo trabalho.

Ainda a frequentar a licenciatura na Universidade dos Açores, Susana Mira Leal começou a lecionar, primeiro dando aulas de inglês a adultos que queriam emigrar, no Salão Paroquial da Ribeirinha, e depois na Educação Permanente, na Casa do Povo da Ribeirinha e na Escola Preparatória da Ribeira Grande. Após terminar o curso, acabou por se efetivar na Ribeira Grande, mas, por razões familiares, mudou-se por um ano para a Ilha Terceira, onde lecionou na Escola Secundária Emiliano de Andrade. Aí, recorda o projeto pedagógico “Os Tercíadas” que desenvolveu com os alunos, no qual cruzou o estudo d’ Os Lusíadas de Camões com a história e a cultura da ilha Terceira, produzindo um pequeno livro em verso.

O regresso à Universidade dos Açores deu-se quando frequentava o Mestrado em Supervisão Pedagógica lecionado pela Universidade de Aveiro. Era delegada de grupo e orientadora de estágio na Escola Secundária da Ribeira Grande. Durante este período, foi desafiada a concorrer a uma vaga para docente para o Departamento de Ciências da Educação, na área da didática das línguas, o que a levou a abandonar a carreira do ensino básico e secundário e a segurança do quadro da escola secundária para abraçar uma carreira académica cheia de incertezas, mas repleta de novos desafios.

Já como docente da Universidade dos Açores, e a exercer o cargo de Diretora do Departamento de Ciências da Educação, foi convidada pelo reitor João Luís Gaspar para integrar a equipa reitoral. Durante oito anos, desempenhou funções primeiro como Pró-Reitora para as Relações Externas, Sociedade e Formação Complementar e depois das Relações Externas e Extensão Cultural, depois como Vice-Reitora para a Comunicação e Relações Externas, acumulando também nos últimos anos a pasta das Infraestruturas, uma experiência que lhe deu uma visão transversal da instituição.

“Fiquei com uma visão muito alargada da instituição, também na área das infraestruturas. Aprendi a ser um bocadinho fiscal de obras desde cedo, e isso tem-me acompanhado, não só na universidade, mas também na minha própria vida pessoal. Sou muito gestora de obras. Gosto dessa área".

Foi após esta experiência que foi desafiada a candidatar-se ao cargo de reitora da academia açoriana em 2022. Desafio que Susana Mira Leal atribui ao facto de as pessoas com quem se cruzou ao longo da vida e da carreira terem identificado nela potencial e competências para o cargo.

Apesar de, num primeiro impulso, ter pensado em recusar o desafio, confessa que sentiu que tem o dever de ser um exemplo e inspiração para outras mulheres, demonstrando que estas podem e devem confiar no seu potencial para ocupar cargos de topo.

Além disso, admite que tem um “bichinho” interior que a impede de fugir a desafios, sentindo necessidade deles para se sentir realizada.

Atualmente, é a primeira mulher Reitora da Universidade dos Açores, cargo que encara com a responsabilidade de ser um exemplo e inspiração para as novas gerações.

“Sinto que tenho uma responsabilidade, e essa responsabilidade é também ser exemplo, ser inspiração para as jovens e menos jovens deste país e deste planeta, para confiarem em si, serem capazes e quererem ser… não é serem iguais aos homens, porque eu não quero ser igual a ninguém, nem a homens, nem a outras mulheres. Eu quero ser eu própria".

Para além da sua vida pública, Susana Mira Leal é casada há 32 anos e é mãe de uma filha de 25 anos, que se especializou em marketing digital.

Define-se como uma pessoa gregária, que não gosta de silêncio nem de solidão, e encontra no ginásio a sua terapia diária.

“Digamos que os meus grandes receios para a minha velhice são estar desocupada e não ter a capacidade para encontrar formas saudáveis e úteis de me ocupar. Portanto, tenho de começar a pensar nisso daqui a uns tempos. E também espero poder contar sempre com pessoas à minha volta, para interagir e não me sentir só”, conta, explicando que esta preocupação surge porque a sua vida sempre foi muito centrada no trabalho, embora adore conviver com os amigos à volta da mesa e de um bom jogo de cartas e de tabuleiro.

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