Três horas num avião para descobrir a alma gémea


 

Lusa   Nacional   17 de Nov de 2007, 11:03

À partida de Lisboa, as expectativas eram baixas para a maioria dos participantes. Conhecer a "alma gémea" num voo de três horas parecia tarefa impossível, mas o frio que os aguardava em Viena ajudou a "quebrar o gelo". No fim, alguns assumiam mesmo "cumplicidades especiais".
Há uma semana, 18 mulheres e 21 homens descomprometidos entre 25 e 40 anos concentravam-se no "check-in" do Aeroporto de Lisboa. Estavam prestes a embarcar no primeiro "skydate" português, uma espécie de "speed-dating" organizado pela companhia aérea SkyEurope. O conceito inovador prometia, até porque dias antes o voo Bruxelas-Viena tinha formado três casais.
Quatro amigas de Lisboa decidiram arriscar: "Viemos para nos divertir e para conhecer a cidade. Estamos um pouco na expectativa de saber como vai ser. Aliás, havia uma série de pormenores que desconhecíamos, como o facto de não podermos ficar juntas no avião", lamentava Isabel, de 25 anos.
Por 160 euros cada, as quatro jovens preparavam-se para passar o fim-de-semana em Viena, com uma noite de hotel incluída e uma visita guiada à cidade. "As expectativas são poucas, mas no final da viagem... nunca se sabe. Pode haver uma surpresa", dizia Alexandra, um ano mais velha.
Na sala de embarque, perto da 1h00, questionadas se já tinham visto algum "candidato" interessante, Fátima respondia determinada: "Pelo que vejo aqui, não me parece que vá dar o meu contacto a alguém", atirava, com um sorriso.
Outra das "skydaters", uma gestora de 34 anos que não quis ser identificada, justificava a participação com o intuito de descobrir Viena, mas também com a vontade de conhecer novas pessoas e alargar o leque de amigos, até "para não ficar para trás".
"A certa altura das nossas vidas constatamos que temos os mesmos amigos há já algum tempo. Imagine o que é ser a única solteira do meu grupo de amigos... Ou conhecemos pessoas fora desse círculo ou ficamos para sempre solteiras".
Já Carlos Silva, um trabalhador-estudante de 23 anos, admitia que duas jovens lhe despertavam atenção, mas para algum romantismo preferia que o destino fosse Paris ou Veneza. "Viena é uma cidade para aproveitar em termos arquitectónicos".
Os 39 participantes são sentados na parte de trás do avião da SkyEurope, com duas filas de três lugares. As mulheres ocupam sempre o lugar do meio de cada uma das filas, enquanto eles se sentam junto à coxia para facilitar "a rodagem" a cada cinco minutos.
"A Maria já está ali a pôr a conversa em dia", dizia Marta para uma amiga, sentada à sua frente.
Esta administrativa de uma empresa de Coimbra garantia que caiu ali "completamente de pára-quedas", já que uma das amigas só no aeroporto lhe contou que tipo de viagem ia enfrentar: "Se tivesse o meu carro parado no parque do aeroporto já me tinha ido embora".
No entanto, para esta jovem de 31 anos, sempre é melhor conhecer pessoas desta forma do que estar a 'teclar' na Internet com um desconhecido. Apesar de contrariada, reconhecia que este tipo de iniciativas "acaba por atenuar a solidão" sentida por vezes "devido ao excesso de tempo dedicado ao trabalho", que nem sempre permite criar novas amizades.
"Mas eu não estou aqui com expectativas nenhumas. Vim para me divertir com as minhas amigas", assegurava, acrescentando: "Nunca fiz amizades num avião".
Cabia aos homens trocar de lugar a cada cinco minutos e quase todos o fizeram. Mas um optou por não falar com nenhuma das mulheres, talvez por estar ali exclusivamente pela viagem. Outro falou com duas, mas o sono acabou por vencer, dado o adiantado da hora.
O entusiasmo e o divertimento eram notórios entre aqueles que se mantinham acordados, mas para os comissários de bordo o rebuliço só dificultava o trabalho.
Alguns dos participantes tiveram mais azar (ou sorte) e devido à turbulência foram obrigados a permanecer mais tempo no mesmo lugar. O "empenho" de uma das participantes fazia-a retocar o baton a cada dois candidatos.
"Já falei com oito mulheres e pelo menos duas despertaram-me interesse", contava Gonçalo, economista, de 32 anos, antes da nona abordagem. Outro dos participantes preparava-se para "mudar de mulher". Quando se sentou na fila de trás, reparou que a nova desconhecida já dormia: "fico sem perceber o que veio cá fazer".
Duas horas depois do arranque da experiência, o cansaço e o sono começaram a vencer o entusiasmo inicial: "Neste momento apetecia-me que não se sentasse aqui mais ninguém", dizia uma das participantes.
O desembarque em Viena foi gélido, mas no Hotel estava já um pequeno-almoço pronto, para aquecer os ânimos do grupo. Às 9h00, os "skydaters" partiram com a ajuda de uma guia à descoberta de Viena, cidade de grande beleza arquitectónica e palácios monumentais.
Após um Apfelstrudel e um café bem quente, começaram naturalmente a formar-se pequenos grupos e eram nítidas as primeiras afinidades. Desceram até ao portentoso edifício da Ópera e conheceram depois o Hotel Sacher, responsável pela criação da famosa Sachertorte, um bolo de chocolate com uma fina camada de doce de damasco ou ameixa.
Numa cidade profundamente cultural, que deu a conhecer ao Mundo alguns dos maiores compositores, cerca de 30 participantes decidiram sábado à noite assistir a um concerto de música clássica. Outros houve que optaram por um jantar requintado, onde descobriram que um dos pratos típicos vienenses, o "WiennerSchnitzel", não é mais do que um vulgar panado na cozinha portuguesa.
À mesa, já os participantes quebravam as regras: a troca de contactos cabia exclusivamente à organização, encarregue de disponibilizar informações mais detalhadas de cada um, caso houvesse coincidência na vontade de um posterior encontro.
Mas poucos resistiram à tentação de trocar e-mails e telefones ao fim de 24 horas.
"Acabámos por formar um grupo de cinco pessoas. Aconteceu naturalmente depois de um café a meio da manhã. Fomos passear os cinco de carruagem e almoçámos juntos. Já estamos a pensar combinar um jantar em Lisboa", contou Nuno, director comercial.
Marta, a mais contrariada ao início, até apelidada de "soviética" pela frieza com que enfrentava cada "candidato" com quem falou durante o voo, confessava-se bastante mais à vontade, numa altura em que o convívio era já "natural" e menos "forçado".
No entanto, a amiga Maria e o novo amigo Nuno partilhavam uma opinião diferente: "Se não tivesse havido a primeira abordagem no ar não sei se estaríamos a jantar juntos. Foi importante para quebrar o gelo e para nos metermos uns com os outros".
Domingo houve um acordar diferente para o grupo. Apesar de não estar incluído no pacote de 160 euros, a neve caía fortemente sobre Viena e em poucos minutos a cidade ficou sob um manto branco.
Rapidamente despacharam o pequeno-almoço e partiram à procura das melhores fotografias, mas também das habituais brincadeiras com bolas de neve. Uma surpresa para uns, uma experiência nova para outros.
Ao final da tarde era já tempo de partir e de fazer o balanço. "Fiquei um pouco desiludido. Algumas das pessoas vinham só pela viagem. Acho que a maioria dos participantes não entrou no espírito e no conceito", contava, frustrado, Emanuel, engenheiro civil de 29 anos.
"Elas eram todas giras. Se não eram é porque não houve álcool suficiente", brincava Paulo, um verdadeiro "homem do Norte", responsável pela animação do grupo já a caminho do aeroporto: "Já acasalaram aí?".
Mas se para uns a experiência foi uma desilusão, para outros "superou todas as expectativas". Foi o caso de Isabel, do grupo das quatro amigas. "A maioria das pessoas teve predisposição para conhecer outras. A parte do avião até acabou por ser engraçada, mas às tantas tornou-se um pouco cansativo. Deviam ser menos pessoas", sugeriu.
"É possível que nasçam desta experiência algumas amizades, sem dúvida!", acrescentou.
Já no voo de regresso, também a "soviética" confessava uma mudança de atitude. Segundo Marta, a viagem fê-la sentir-se mais jovem e tornou-a uma pessoa mais divertida. "Há muito tempo que não me vestia daquela maneira", brincava, lembrando a saída nocturna. "Mas isto não quer dizer que passe a sair todos os fins-de-semana".
Para Nuno, esta experiência teve um sabor diferente: "Senti uma cumplicidade especial com uma das participantes, a Maria. Houve um 'click' logo no avião. Descobrimos três ou quatro pontos de interesse em comum... Acho que é mesmo uma coisa para aprofundar", dizia o trintão.
O sentimento parecia ser recíproco para Maria, de 35 anos. Apesar de garantir que não vinha com o intuito de conhecer a sua "alma gémea", admitiu que houve empatia e cumplicidade desde o primeiro momento... e quando menos esperava.
"Já estava cansada da viagem e preparava-me para me encostar e dormir um pouco quando o Nuno se sentou. Em poucos minutos foi como se o conhecesse há algum tempo e tinha todo o interesse de o conhecer ainda mais", admitiu, sorridente.
Para a gestora de 34 anos, a viagem correu "muito bem", tendo em conta as expectativas que tinha criado: "Não posso dizer que me apaixonei. Isso seria impossível ao fim de dois dias, mas...".
Já perto de aterrar em Lisboa, domingo à noite, admitiu: "Houve uma cumplicidade natural e especial com um dos participantes. Acho que essa pessoa combina comigo, mas se resultaria ou não, não sei. Tenho de o conhecer melhor".

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