Açoriano Oriental
Entrevista
"Só quando o carro entrou no parque fechado do Lotus é que pude suspirar de alívio"

Excertos não publicados da entrevista de Luís Rego Jr., o novo campeão açoriano de ralis, à edição de Natal do Açoriano Oriental, publicada no dia 25 de dezembro.

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Foto: Nuno Martins Neves
Autor: Nuno Martins Neves

Há um ano atrás, o Luís estava a realizar um test-drive para patrocinadores, comunicação social e amigos. Imaginava que 365 dias depois seria campeão açoriano de ralis?
Não imagina. No ano passado estávamos a festejar um grande campeonato que também fizemos, onde chegamos a liderar e perdemos o campeonato na última prova de forma justa para o vencedor, que foi o Ricardo Moura, que fez um grande rali no Pico. Aquele dilúvio que se abateu no segundo dia claramente veio ao de cima a experiência dele. Mas não tirou qualquer mérito pela nossa prestação, que lutamos com o Ricardo durante todo o ano, com estruturas completamente diferentes: embora os carros fossem iguais, por trás é tudo diferente. Isso deu-nos valor à nossa equipa e achamos por bem reunir amigos e patrocinadores para celebrar e para dar uma oportunidade a quem dedica horas e horas a este desporto, mas nunca tinham tido a oportunidade de andar num carro de ralis de última geração. Gostava muito de poder fazer uma festa igual ou maior ainda, porque o motivo é ainda é maior, mas infelizmente o nosso carro ainda não está pronto, face aos acontecimentos no rali do Pico. Conto, assim que o tiver pronto, fazer algo do género para festejarmos este nosso primeiro título.

Por já estar há tantos anos nos ralis, é fácil as pessoas esquecerem-se que o Luís só tem 28 anos. Sentia que as pessoas não acreditavam que seria capaz de vencer o título?
Sentia, não nas corridas, pois houve muitos outros pilotos que ainda correm há mais anos que eu e nunca lá conseguiram chegar. Alguns não tiveram as mesmas condições, mas houve quem tivesse e nunca tivesse atingido o tão ambicionado título. Mas não era fácil, pois desde o tempo do Fernando Peres e a partir do primeiro título do Moura, nunca tivemos um ritmo tão alto no Regional como até então. É verdade que houve grandes lutas no passado, entre o Horácio Franco, o Gustavo Louro, o Luís Pimentel, o Peres, o meu pai quando corria, era um ritmo elevado, mas não se compara com o ritmo que se passou a andar desde 2008. Quando se entrou na era dos R5 então, o aumento foi drástico. Claro que os carros o permitem, pois são viaturas diferentes, mas este ritmo aumentou bastante e estamos a andar todos muito depressa. E é como disse: naquela altura, partíamos em clara desvantagem perante um Ricardo Moura no seu auge e nós ainda a tirarmos a carta de condução e a termos de dar esses passos todos. Levei 10 anos - o meu primeiro rali foi no final de 2008, em Mortágua, uma semana depois de ter tirado a carta - a preparar-me para ser campeão. Parece muito, mas ao ritmo que o campeonato estava, ao que se corria na altura, 10 anos até nem foi muito para a qualidade de pilotos que tínhamos na altura.
Também foi graças ao facto de haver um piloto como o Ricardo que consegui estar hoje a discutir o título com o Bernardo Sousa. O ritmo que o Moura trouxe, a sua experiência, que me obrigava a trabalhar para estar mais perto possível dele, houve anos em que o objetivo não era ganhar, pois era impossível. Quando começas a chegar perto, crias a ambição de querer vencer e por aí fora. Ter adversários é bom, porque puxam por nós, pela equipa, obriga-nos a trabalhar e a ter outra motivação. 

Pegando no Lotus Rallye, em que estado estava a sua mente quando voltou a entrar no carro depois do que aconteceu no Pico? Ainda para mais, sendo um carro diferente?
Não foi fácil, como é óbvio. Teve de haver um trabalho mental muito grande da minha parte para conseguir focar-me, única e exclusivamente, na corrida e deixar de parte os acontecimentos no Pico. Confesso que não foi fácil: durante várias semanas a seguir ao rali que só pensava naquilo dia e noite, não conseguia dormir porque os acontecimentos vinham-me à cabeça a qualquer momento. Analisar o que se passou, a atitude que tiveram connosco, arranjar os porquês do que fizeram e deviam ter feito. Não é fácil digerir uma situação dessas e houve uma altura em que eu tive de... quando tive a certeza e a garantia - porque houve claramente a hipótese de não estar presente no Lotus Rallye, por falta de verba - da parte do Team Além Mar para correr a prova, eu mudei o chip e disse: “acabou. Tenho de fazer um corte drástico. O Pico vai ficar, por momentos, em stand-by, e tenho de focar-me única e exclusivamente no Lotus.
O meu objetivo foi rigorosamente esse: focar-nos, eu e a minha equipa, num só objetivo, que era ganhar o rali. Deixamos de parte quem é que podia vir, quem é que não podia vir, não interessava: fosse quem fosse que viesse, a nossa forma de trabalhar era só uma, ganhar. Podíamos não conseguir o conseguir, mas as nossas energias estavam todas concentradas em vencer o rali. E foi isso que fizemos enquanto equipa. A presença da ARCSport foi muito importante para nós, pois trouxe toda a sua experiência e conhecimento.
O carro era novo: tivemos de encarar este contacto com o Skoda Fabia R5 de mente aberta. Ou seja, estar preparado para receber todo o tipo de informação possível, tentar esquecer o Fiesta e não fazer comparações entre um e outro. Tivemos de pegar no Skoda como se fosse o primeiro carro da categoria R5 que estávamos a conduzir e adaptar-nos a ele, e contando com a experiência da ARCSport, colocá-lo o mais parecido com o meu estilo de condução e aquilo que eu quero de um carro de corridas. Trabalhamos todos muito bem, a ARC fez um grande trabalho na preparação do carro nos testes que fazemos, o que nos permitiu estar muito focados na corrida.

Quando é que sentiu que o título já não lhe escaparia?
Só mesmo quando o carro entrou no parque fechado é que eu pude suspirar de alívio. Depois do que aconteceu no Pico, um imponderável daqueles, pensamos em tudo. É impensável vir a creditar que aquilo que aconteceu no Pico vai acontecer num rali em que tens 30 e tal segundos de avanço e faltavam dois troços para terminar. Quando chegas a esse ponto, qualquer coisa pode acontecer nas corridas. Todos os pilotos sabem que nenhum rali é certo, existem muitos imponderáveis e as corridas só terminam no pódio ou no parque fechado, depois das verificações finais.
Na estrada ganhamos nós e tínhamos de estar satisfeitos com isso e comemoramos nesse sentido. Mas suspirar de alívio, só no parque fechado.

O objetivo em 2019 será a revalidação do título. Sonha tenta a sorte no Azores Airlines Rallye (AAR)?
É um sonho que temos há bastante tempo e acho que o facto de sermos campeões é vencer o AAR. Aí o ritmo e as condições são diferentes, pois os pilotos que cá vêm são pilotos muito experientes, com grande ritmo e com um grande conhecimento do nosso campeonato. Temos visto o que tem custado ao Ricardo bater-se com os pilotos estrangeiros. O conhecimento era uma vantagem nos primeiros anos, agora não. Mas é um objetivo que temos, se bem que é a prova em que temos menos participações e experiência. Temos de trabalhar: o melhor foi um quinto lugar à geral de Mitsubishi Lancer Evo9 (2014), tudo o que vier acima disso é um bónus.

O apelido Rego tem muito peso nos ralis: que influência tiveram o teu pai Luís e o teu tio Paulo na tua entrada na modalidade?
O meu tio nem tanto, porque não me lembro de vê-lo a correr pois ainda era muito pequeno, não tenho imagens, só agora mais recente, em que fez umas provas mais esporádicas de Evo9. Mas sei que é alguém que sempre viveu muito as corridas e quando estamos juntos é inevitável não falarmos de ralis. Mas o culpado por eu ter ingressado nas corridas foi o meu pai, pois antes de competir acompanhava a carreira dele. Lembro-me perfeitamente que durante anos e anos ele fazia apenas uma prova por ano, o SATA Rallye Açores, e era um ano inteiro a prepará-lo. O meu pai participava sempre com carros alugados, geralmente à Peres Competições e eu vivia aquilo com uma emoção muito grande: ir buscar a viatura ao Porto, passava dias sentado no carro dentro da oficina. Passava dias assim e não corria (risos). Isto com seis anos de idade. Sempre vivi de muito perto as corridas e estava sempre por dentro das equipas. Mesmo miúdo, sem correr, o que eu via, o que eu observava, as histórias que se ouvia e as situações que se passavam, hoje em dia são experiências que eu guardei e que ajudam muito como piloto. Por exemplo, naquela altura com 10 anos eu já ouvia falar em 'cliques' e hoje em dia isso faz muita confusão a alguns pilotos o que é um 'clique'. E isso são as afinações da suspensão, as vias disponíveis. E naquela altura já sabia o que isso era. Foram anos muito bons e depois o meu pai ensinou-me a conduzir.

Antes dos 18 anos?
Sim, tinha eu 7 anos de idade. 

E como é que chegava aos pedais?
O banco ia todo para frente, colocávamos umas almofadas e foi assim que aprendi num carro da escola de condução, pois tinha uns pedais ao lado para ele conseguir controlar. Tive o meu primeiro carro aos 9 anos, um Ford Fiesta.
Foi engraçado porque o Rui Ferreira e o Ricardo Moura também tiveram uma quota-parte na minha ingressão nas corridas: tinha 6, 7 anos e houve uma feira de automóveis onde são agora os bombeiros e o Rui representava na altura uns buggy's. E ele simulou uma pista para os mais pequenos experimentarem as motas, caso os pais quisessem no futuro comprar uma para os filhos. E lembro-me que só se podia dar três voltas pela pista com o buggy. Era espetacular, parecido com um kartcross. E eu comecei a andar, uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete voltas e eu sempre a andar e perguntei “Isto não para?”. E eles sempre a dizer para eu continuar. Lá acabei e eles pediram para falar com o meu pai e disseram para eu ir a uma pista que eles tinham na Relva, onde o Rui ensinava os miúdos a conduzir. Aprendi com um Skoda Favorite, depois um Toyota Twin Cam tração atrás. Essa foi a minha “escola” e quando se percebeu que havia aptidão, o meu pai construiu-me o Fiesta 1100. E depois a história é o que já se conhece: do autocross para um Nissan Micra, daí para os Mitsubishi e agora um R5.

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