A saída da Ryanair - e a consequente perda de competitividade no
transporte aéreo - bem como o crescimento da dívida pública regional
poderão levar à perda de cinco mil postos de emprego, e ao aumento do
peso da dívida no PIB açoriano de 64% para 75%, alerta um estudo
desenvolvido pelos economistas e docentes da Universidade dos Açores,
Tomaz Dentinho e Mário Fortuna, que foi recentemente apresentado em
Ponta Delgada e em Barcelos.
Segundo o estudo, a saída da Ryanair - o
último voo foi operado a 29 de março deste ano - deverá levar a uma
perda de 250 mil hóspedes, à diminuição de 3 mil empregos e a uma
redução do PIB per capita de 3%.
Já a subida da dívida pública
regional - os últimos dados, referentes a março deste ano, colocam-na
nos 3881,8 milhões de euros - terá outro reflexo, com o estudo a estimar
uma perda de postos de trabalho na ordem dos 2000. “O impacto na
produção é de 126 milhões de euros, correspondendo a uma perda per
capita de 512 euros”, refere Tomaz Dentinho, um dos autores.
Somando
os dois aspetos, os economistas preveem que o peso da dívida pública no
PIB passe de 64% para 75%, “e, tal como aconteceu com o Governo nacional
em 2010, esta percentagem crescerá rapidamente acima dos 100%”, lê-se.
Feito
o diagnóstico, o estudo aponta políticas que são urgentes, entre elas
uma forte redução das despesas públicas com a saúde, através da
concorrência com unidades privadas e pagamento de acordo com o ato
médico; negociação com a República da revisão da Lei de Finanças
Regionais, apontada como responsável pela pressão nas contas entre 2011,
2012 e 2013; utilizar os fundos europeus para apoiar o pagamento do
serviço da dívida; e concorrência entre escolas públicas e privadas, com
atribuição de fundos associado ao número de alunos e à melhoria do seu
desempenho nos exames nacionais.
Resgate não está no horizonte, mas números da dívida inspiram preocupação
Entrevistado
pelo Açoriano Oriental, Mário Fortuna, um dos autores do estudo,
considera que as principais conclusões retiradas são que o turismo “é
fundamental”, por gerar emprego e valor acrescentado; e que nem toda a
dívida pública é virtuosa.
“Há dívida que pode ser perniciosa, quando
não gera eficiência, quando é uma dívida para consumo, o que tem um
efeito retrativo na economia, em vez de expansivo”.
Fortuna diz que a
análise feita prova que o endividamento das últimas décadas “tendeu a
travar a região”, pois se uma parte pode ser associada ao suporte de
investimento, como os fundos comunitários, “a maior parte é dívida de
consumo corrente, particularmente no setor da Saúde, em que o défice de
financiamento é já estrutural e de longa data”. O economista indica que
parte da dívidas mais recente deve-se à pandemia e à situação da SATA,
onde a dívida está “a tapar buracos” da exploração.
No entanto, e
porque o estudo não aborda os rácios de dívida, o economista diz que o
atual nível de endividamento “não é catastrófico, nem vai justificar
nenhum resgate, mas é um indicador, pela sua dinâmica do passado
recente, que merece a nossa atenção e preocupação”.
Sobre as
sugestões de políticas públicas a seguir, Mário Fortuna diz que, “para
grandes males, grandes remédios” e que o mais imediato passa pela
reposição da competitividade no transporte aéreo nos Açores.
“Tivemos
um grande revés com a saída da Ryanair - e já tínhamos alertado para
isso nos últimos anos. Não a seguramos, houve uma falha neste sentido e
as consequências estão à vista: nos últimos sete a oito meses, temos
tido variações negativas do turismo, com valores bastante acentuados nos
últimos meses. Não houve um esforço suficiente para reter a Ryanair. E
quem diz esta, diz outras empresas, pois o que importa é manter a
competitividade do destino”.
Até porque, apesar de considerar
positivo existirem diversas companhias aéreas a viajar para os Açores no
verão IATA, Fortuna aponta que só existem duas transportadoras a operar
o ano inteiro - SATA e TAP - mas que operam em code-share, “o que quer
dizer que estamos perante um monopólio efetivo, o que leva os preços a
subir, como está a acontecer, com reflexos negativos para o turismo”, em
particular o nacional, que é o que está a retrair-se mais, segundo os
dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores.
Saída da Ryanair e aumento do endividamento podem destruir 5 mil postos de trabalho
Estudo desenvolvido por Tomaz Dentinho e Mário Fortuna traça cenários
para a economia açoriana com base nestes dois pressupostos. Recuperação
da competitividade no transporte aéreo é fundamental, defende economista
Autor: Nuno Martins Neves
