Quando guiar se torna um inferno

Quando guiar se torna um inferno

 

Lusa / AO online   Nacional   22 de Nov de 2007, 07:39

O simples acto de conduzir um carro torna-se para muitas pessoas um verdadeiro "inferno", que especialistas atribuem não só ao desenvolvimento de fobias, mas igualmente à falta de qualidade do ensino da condução em Portugal.
Com carta há 25 anos, Catarina Fialho é uma exímia condutora, mas apenas quando sonha.

Na realidade, só pensar em pegar no volante provoca-lhe suores frios e "um aperto no coração".

"Depois de ter tirado a carta, em 1982, ainda conduzi uma ou duas vezes. Mas, sempre que pegava no carro, o suor começava a escorrer. Comecei a ganhar medo e nunca mais peguei no carro, a não ser em sonhos, onde conduzo muito bem", declarou à agência Lusa.

O caso de Catarina Fialho é semelhante a vários que passam pelo consultório de Fernando Lima Magalhães, um psicólogo do Porto com artigos publicados sobre fobias de condução - amaxofobia (medo mórbido a veículos em marcha).

O autor de "Quando conduzir se torna um inferno" explicou à Lusa que o medo de conduzir é frequentemente ditado por imagens negativas de acontecimentos associados à condução.

"Ver um acidente ou ser humilhado no trânsito pode desencadear medo de conduzir", sustentou, acrescentando que estas imagens são interiorizadas e as pessoas acabam por pensar que vão passar por situações semelhantes.

"Não é realista que alguém que pegou no carro 20 vezes e nunca teve um acidente vá ter um acidente da próxima vez que pegar no carro", afirmou.

O problema pode atingir de igual forma homens e mulheres, mas, segundo o psicólogo, é o condutor do sexo feminino que mais recorre a ajuda especializada, uma vez que o homem tem mais vergonha em admitir as suas dificuldades neste campo.

Por outro lado, numa relação, a mulher atribui geralmente ao homem a tarefa de conduzir e, quando pretende depois fazê-lo sozinha, passa a acreditar que não consegue.

Fernando Lima Magalhães diz que o tratamento destes casos deve passar por desconstruir progressivamente as imagens negativas associadas à condução que se forem construindo, recorrendo à ajuda de um especialista.

Rejeita liminarmente a ideia de uma "terapia de choque", apesar de defender que enfrentar o medo é a melhor solução.

Foi o que fez Maria Luísa, que só 10 anos depois de ter tirado a carta conseguiu começar a fazer do carro o seu transporte habitual.

"Depois de tirar a carta ainda tentei guiar algumas vezes. Mas quando estava muito trânsito ou me metia numa rotunda ou numa subida mais complicada, entrava em pânico. Desisti então de guiar e só quando engravidei percebi que não poderia continuar a viver, neste aspecto, dependente do meu marido", relatou à Lusa.

Maria Luísa aponta como "verdadeiro motivo" para o seu medo da condução o facto de ter chumbado quatro vezes durante a aprendizagem e ter levado quatro anos a conseguir a carta.

A aversão às aulas de condução era tão grande, que, quando a necessidade venceu o medo, preferiu recorrer a "lições particulares do marido" do que regressar à auto-escola.

Também o presidente da Associação Portuguesa de Escolas de Condução, Alcino Cruz, atribui este medo à falta de qualidade do ensino, aliada à pouca agilidade dos recém-condutores.

"Muitas escolas não preparam os alunos para a vida activa de condutores, mas apenas para o tipo de exame que vão fazer", comentou.

Alcino Cruz atribui ainda as dificuldades na condução à passagem dos condutores de carros a diesel para os automóveis a gasolina, uma vez que a larga maioria das escolas apenas usa veículos a gasóleo no ensino.

"A aprendizagem é feita em carros a diesel, que arrancam por si. Os carros a gasolina vão abaixo muito frequentemente e as pessoas começam a ganhar pânico do veículo e então deixam de conduzir. Depois, quando querem voltar a pegar no carro já não conseguem", justificou.

As escolas de condução têm até aulas específicas para encartados, mas apesar de não haver números concretos sobre as pessoas que a elas recorrem, o responsável diz que têm "pouca expressão" em termos de negócio.

O regresso às aulas de condução está nos planos de Maria dos Anjos há dois anos, depois de aos 58 se ter finalmente decidido a aprender a guiar.

Apesar de ter passado à primeira no exame teórico e no prático, nunca chegou efectivamente a conduzir sozinha: "a seguir a tirar a carta fui uma ou duas vezes guiar acompanhada e tive um percalço com as curvas e decidi que precisava de mais umas lições".

Maria dos Anjos não admite que tem medo de conduzir e culpa a sua "falta de jeito" nas curvas por nunca ter pegado no carro.

"Entro nas curvas 'à maluca', em vez de travar, acelero. Preciso de ter mais umas aulas para resolver este problema", contou à Lusa.

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