Projeto dedicado a artistas com doenças mentais vai ter espaço em Lisboa fora de muros hospitalares


 

Lusa/Ao online   Cultura e Social   25 de Nov de 2018, 11:38

O projeto Manicómio, dedicado a artistas com doenças mentais, vai ter um espaço próprio em Lisboa, fora de muros hospitalares, e uma coleção de livros dedicados à Arte Bruta, cujo primeiro volume é apresentado no próximo sábado.

O projeto é da responsabilidade de Sandro Resende e José Azevedo, fundadores da Associação de Desenvolvimento Criativo e Artístico P28, que dão aulas de artes plásticas a doentes do Hospital Júlio de Matos, em Lisboa há cerca de 20 anos.

“Para nós é muito importante que as pessoas que têm experiência nesta doença possam ter um espaço condigno e que não tenha estigmas associados. Por isso mesmo, o nascimento deste projeto, num espaço novo, fora dos muros hospitalares”, afirmou Sandro Resende, em declarações à Lusa, sublinhando que o Manicómio “não tem nada que ver com o hospital, tem que ver com as pessoas”.

O Manicómio irá ser um “espaço completamente aberto, que qualquer pessoa pode frequentar, pode ir, pode experimentar, pode ir à loja, falar com um artista”, que irá abrir portas “até ao final do ano na zona do Beato”.

“Interessa-nos bastante que este espaço esteja na zona criativa, com as pessoas criativas”, referiu Sandro Resende, explicando que se trata de “um espaço criativo, uma espécie de um 'cluster' criativo, onde, além dos ateliês, de pintura, escultura, cerâmica, desenho, fotografia, vídeo, etc., haverá também a conferências sobre área social, todas elas, não só a área da saúde mental”.

A criação deste espaço “é um passo muito importante”, que poderá ajudar a acabar com alguns estigmas.

“Toda a gente sabe que o Júlio de Matos é estigmatizante, apesar de todo o trabalho que fazemos lá há mais de 20 anos”, referiu Sandro Resende, lembrando as várias exposições que estiveram patentes ao longo destas duas décadas no pavilhão 31 do hospital, dedicado às Artes Plásticas, nas quais obras de doentes foram expostas lado-a-lado com as de artistas consagrados.

Ainda assim, Sandro Resende sente que, “por vezes, o visitante possa estigmatizar”, apesar de numa se identificar “quem é o consagrado ou quem é o artista residente”.

“O estigma está na nossa cabeça e é importante que isso acabe e é importante que isso mude”, defendeu.

Apesar da criação do projeto Manicómio, Sandro Resende e José Azevedo não vão “abandonar 20 anos de trabalho dedicados ao Júlio de Matos”. O pavilhão 31 tem “programação fechada até 2022” e o Manicómio será “um projeto paralelo”.

Em todos os anos de trabalho no Júlio de Matos, Sandro Resende “nunca quis saber”, porque “nunca foi importante para o trabalho, que doença é que as pessoas têm”.

“Eu trabalho da mesma maneira qualquer pessoa e o nível de exigência é praticamente igual. Estas pessoas que vão connosco [para o Manicómio], dez artistas identificados em Portugal inteiro, não sei quais são as doenças deles e não me interessa muito isso. Interessa-me a pessoa em si, o conteúdo artístico e a dedicação que essa pessoa tem pelo seu trabalho”, referiu.

A ideia dos responsáveis pelo Manicómio é que estes artistas “se possam contagiar uns aos outros, com toda esta informação que todos têm”.

“E, para mim, é muito importante que isso aconteça. Que seja um processo criativo aberto a todos”, acrescentou.

Entre esses dez artistas está Anabela, cujo trabalho está em destaque no primeiro volume de uma coleção de livros, editada pela Manicómio, em parceria com a Stolen Books e a Fnac, e que será apresentado no sábado na Fnac do Alegro de Alfragide, na Amadora.

Sandro Resende define Anabela Soares, de 49 anos, como uma “uma super artista que muito tarde se revelou e que consegue pôr no trabalho uma carga emocional muito grande, e isso é muito difícil de se fazer na Arte, mas quando se faz com esta autenticidade que ela tem, e com esta honestidade, o resultado é sempre muito brilhante”.

A artista começou “há cerca de dois anos a trabalhar em arte”, com a P28 no Júlio de Matos. Nessa altura, “começou a fazer uns peluches, porque ela nunca tinha tido um peluche até então”.

“E esses peluches eram esteticamente um objeto fantástico em termos artísticos, apesar de anatomicamente não serem perfeitos. E começámos a trabalhar por aí. Começámos a trabalhar com escala e com técnica e ela sai com umas esculturas fantásticas, que expusemos juntamente com o [Emir] Kusturica e teve uma grande repercussão”, recordou Sandro Resende.

Anabela, que cria peças de cerâmica e escultura, “trabalha com as emoções que tem, com uma carga emocional muito forte” e a produção artística é para ela “quase uma descarga”.

“Ela produz bastante, trabalha todos os dias, cerca de cinco horas por dia”, partilhou.

A coleção de livros é dedicada à Arte Bruta, expressão usada pela primeira vez pelo artista francês Jean Dubuffet, na década de 1940, para designar o trabalho artístico produzido fora do sistema tradicional, englobando, na altura, as criações de crianças, doentes mentais e criminosos.



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