Açoriano Oriental
Os azares nunca travaram a ambição do "lutador" Ruben Guerreiro

Os azares na carreira sem arrependimentos de Ruben Guerreiro (Education First) ‘limaram-lhe’ a impulsividade, mas nunca a ambição, embalando-o para assumir um lugar de destaque na sua estreia na Volta a Itália em bicicleta.

Os azares nunca travaram a ambição do "lutador" Ruben Guerreiro

Autor: Lusa/AO Online

Em Pegões Velhos, Ruben tornou-se o rosto mais conhecido. É parado pelo senhor que conduziu o autocarro da escola, que até já foi sondado para dar entrevistas, e que lhe pergunta pelo irmão, Francisco, também ele ciclista, e pela professora primária, que lhe mostra o vídeo da sua receção, pós-triunfo na classificação da montanha do último Giro, na igreja local debruada a azul.

A todos, responde com a mesma genuinidade e simplicidade, duas características que nunca o abandonaram em toda a sua (ainda) curta carreira. Guerreiro pode ser o novo ‘rei da montanha’, mas é o mesmo miúdo disponível e humilde que era quando saiu de Portugal, apenas com 20 anos, demonstrando em cada declaração que não se deslumbrou com o sucesso nem com o estatuto de novo herói nacional.

Talvez a explicação para tamanha autenticidade resida nas agruras de uma carreira promissora, mas azarada, em que a estreia nas grandes Voltas pecou por tardia, ainda que tenha chegado com estrondo – foi 17.º na Vuelta do ano passado, a sua primeira, e converteu-se no primeiro português de sempre a subir ao pódio como vencedor de uma camisola numa das três ‘grandes’, à segunda tentativa.

“Nunca me sinto frustrado. Sinto uma motivação para trabalhar, mesmo quando as coisas não correm bem. Eu sou um lutador por natureza, e trabalho bastante. Mesmo com os azares que tenho tido, procuro sempre começar a trabalhar a partir do zero e alcançar tudo o que traçar para o futuro. Fui com essa ambição desde o escalão sub-23, mesmo com muitos azares nas equipas por onde passei. Mesmo não saindo numa grande Volta com 22, 23 anos, sempre tive a fé de um dia estar nas grandes Voltas e fazer o que estou a fazer agora”, conta à agência Lusa.

Antes de chegar à Education First, o corredor luso, de 26 anos, teve “azares físicos, lesões, tendinites, problemas de posição na bicicleta, uma apendicite, quedas”, nomeadamente na temporada passada, quando, na entretanto extinta Katusha, partiu a clavícula. “Foi sempre tentar avançar, mas [com] uma barreira que me travasse. Mas acho que isso me embalou também para ter mais força e mais motivação para um dia estar a disputar grandes corridas”, estima.

Defensor da premissa de que para singrar no ciclismo “a persistência tem de ser enorme e o querer”, Ruben Guerreiro revela que sempre foi “muito exigente” consigo mesmo, “talvez demasiado quando era sub-23”, considerando mesmo que algumas das adversidades que enfrentou possam ter resultado dessa exigência excessiva.

“Mas tenho aprendido a ter mais calma e a controlar o meu instinto e, se calhar, as coisas estão a correr melhor”, nota o ciclista que, no estrangeiro, passou ainda pela ‘fábrica de talentos’ da Axeon (2015 e 2016) e pela Trek-Segafredo (2017 e 2018).

Para essa mudança de mentalidade, em muito contribuíram conselhos de quem o rodeia, mas também “as próprias lesões” que marcaram a sua carreira.

“Quando estamos parados é que refletimos. Desde mais novo que tenho essa impulsividade, e agora tenho-a controlado mais. Algumas etapas em que fiz segundo, como na Volta a Espanha, ou na Volta ao Algarve, uma vez no Malhão, foram etapas em que, se calhar, gastei mais energia do que os outros e havia um melhor do que eu. E, talvez, agora no Giro, na etapa que ganhei, já se notou um bocadinho que consigo carregar no botão para desligar a energia. Foi bom para mim perceber que consigo controlar essa impulsividade. Chegou na melhor altura, aos 26 anos”, assume.

Apesar dos azares passados, o vencedor da Volta a Portugal do Futuro de 2014 e campeão nacional de fundo de 2017 (e sub-23 no ano anterior) garante não ter arrependimentos na sua carreira e congratula-se por ter tido sempre “excelentes pessoas” ao seu lado, desde diretores desportivos, a mecânicos e massagistas.

“Tive essa sorte de estar sempre com gente boa. Não me arrependo de nada. consegui sempre vitórias ou resultados. Fazia igual outra vez”, assegura.


 
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