Açoriano Oriental
“Os Açores têm de valorizar o produto único que cá têm”
Regressado de uma visita técnica à Ribeira Quente e à Povoação, José Martins Carvalho, que se encontra a participar no Encontro Internacional de Termalismo, a decorrer nas Furnas, falou ao AO.
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Autor: Luisa Couto

O hidrogeólgo deixou  algumas perspectivas  relativamente aos desafios que a Região terá de enfrentar quando assume que pretende avançar com uma aposta mais coesa ao nível do turismo termal.
Temos riqueza e diversidade natural para explorar este nicho de mercado. O que fica a faltar?
Faltam aparecer os utentes, os aquistas. E esse é um trabalho difícil, embora sabendo à partida que o Governo Regional está a trabalhar nesse sentido. Penso que a Região está no caminho certo mas nós que somos especialistas nas ciências da terra e conhecemos minimamente os meandros do mercado, entendemos que, de facto, há que ter cautelas na maneira como tudo isto vai ser comercializado. É que esta é uma actividade muito complexa uma  vez que  para além de uma boa água, precisa de ter um bom enquadramento.
Refere-se às infra-estruturas que servem de suporte a esses serviços?
Claro que é necessário ter boas infra-estruturas para facilitar o acesso às pessoas, mas convém lembrar que o problema dos acessos nos Açores coloca-se a duas escalas: à escala local  e no acesso para além do oceano.  Logo, isso passa também por um esforço para melhorar as condições de acesso aos pólos centrais desse nicho de mercado nas ilhas.
Quanto às estruturas, o andamento parece-me também bastante satisfatório. O Carapacho está pronto, a Ferraria está em marcha e as Furnas também estão em vias de conclusão. Agora há um importante trabalho a fazer que é  clarificar bem o que se vai fazer em cada um desses pólos até para que exista complementariedade em matéria de oferta.
Convém lembrar que o termalismo a nível europeu, onde o conceito está melhor desenvolvido, está neste momento a enfrentar um grande desafio: a concorrência dos SPA. Em qualquer hotel ou em qualquer loja da esquina colocam-se duas ou três banheiras e uma menina mais ou menos bonita ou um cavalheiro a fazer massagens e chama-se àquilo um SPA. Por essa razão,  é preciso saber distinguir desse tipo de actividade e o termalismo e actividades de lazer aplicadas com água mineral natural. Penso que aí terá mesmo de existir um trabalho de mentalização muito grande.
Considera que essa “ameaça” pode também afectar os Açores?                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
O que faz a diferença no problema das termas em relação aos SPA é a água que é utilizada.  A água mineral natural, que é aquela que é usada nas termas, é um produto único, específico e que só  existe no local onde é captada. Já o SPA e produtos afins são feitos com qualquer água e com qualquer produto. E é precisamente aqui que os Açores terão de saber fazer a diferença. Nos Açores, o  que tem de se fazer é valorizar o produto único que cá têm, assim como  a paisagem única e envolvente. A estratégia passa por saber vender esses aspectos para nichos de mercado muito específicos e, a partir daím desencadear operações de marketing precisas e até agressivas.
Esses recursos há muito que existem e as suas propriedades também não são novidade. Afinal, porquê a demora em termos de investimento?
O termalismo em toda a Europa sofreu uma grave crise. O seu apogeu foi entre a I e a II Grande Guerra. Depois disso, caiu abruptamente, tendo começado a subir nos anos 60 e  mantido essa tendência até há bem pouco tempo. Contudo, é preciso dizer-se que se assiste, claramente, a uma diminuição da procura das termas clássicas, embora isso esteja a ser disfarçado com outras actividades de bem-estar. Creio que os Açores também acompanharam um pouco essa tendência mas têm vindo a recuperar. ||

O primeiro 
“Eurogeólogo”

Doutorado em Geociências (Hidrogeologia Aplicada) na Universidade de Aveiro, José Martins Carvalho, consultor e sócio-gerente da empresa “TARH- Terra, Ambiente e Recursos Hídricos”, foi também  o primeiro geólogo português, em 1998, a quem foi atribuido o título profissional de “Eurogeólogo” (Eurogeol), da Federação Europeia de Geólogos.
Já em 2000,  foi-lhe atribuído na Africa do Sul, o título “Millenium Hidrogeologist” pela “International Association of Hidrogeologists”.
É professor convidado e regente da disciplina de Hidrogeologia e Captações no Departamento de Engenharia Geotécnica do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) do Instituto Politécnico do Porto, sendo ainda investigador do GEOBIOTEC (Universidade de Aveiro).

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