“O objetivo é fazer uma história da arquitetura a partir do peixe”

André Tavares, investigador da Universidade do Porto, responsável pelo projeto Fishing Architecture



O projeto “Fishing Architecture” foca-se na forma como o peixe e a atividade da pesca moldam a arquitetura. Como é que se explica esta ligação?

Explica-se a partir do processo de transformação do animal, que vive num ecossistema, em recurso e, finalmente, em mercadoria para consumo humano. Para que o peixe chegue à terra, seja processado e distribuído, precisa de passar por passos específicos que exigem formas arquitetónicas próprias.

Pensar nestes mecanismos permite pensar na arquitetura, não a partir da nossa cultura social, mas da natureza do peixe. Ao olharmos para os edifícios desta mamoneira, percebemos que a arquitetura desenhada para a sardinha é diferente daquela desenhada para o bacalhau ou para o atum.

Um exemplo podem ser os secadouros de bacalhau e das suas formas específicas...

Essas formas muito específicas são curiosas porque, embora pareçam vernaculares e ligadas a um lugar específico, são muito semelhantes em Portugal, na Terra Nova e nos Estados Unidos. Existe uma grande homogeneidade ao largo do Atlântico Norte porque a forma dessas arquiteturas está ligada aos peixes e à relação destes com a terra, e não apenas às pessoas.

É desta ideia que nasce o projeto “Fishing Architecture”?

Sim. O projeto começou com o bacalhau por traçar a história destes processos durante a industrialização (meados do século XIX a meados do século XX). Depois percebemos que valia a pena juntarmos a sardinha e cruzar dinâmicas no Atlântico Norte, estudando casos em Portugal, Estados Unidos, Terra Nova, Islândia e França, juntando também o atum. O objetivo é identificar como a mudança nos processos (como a passagem da salga para a conserva) altera a forma dos edifícios e a pressão ecológica sobre o território. O processo consiste, então, em tentar identificar essa mudanças na forma do edificado e tornar visíveis estas transformações, tanto em terra (através de desenhos e maquetes) como nos ecossistemas marinhos, onde as populações de peixe muitas vezes desaparecem à medida que os edifícios mudam.

E como é que chegam aos Açores?

Chegámos aos Açores por serem o lugar ideal para cruzar a informação destes territórios. O trabalho foi sendo desenvolvido com algum foco nos vários casos de estudo ao longo do Atlântico, e houve um momento em que percebemos que precisávamos de trabalhar melhor esse cruzamento atlântico entre os diferentes casos de estudo. Foi então que percebemos que os Açores eram um lugar muito especial para fazermos este exercício.

Não é um dos nossos casos de estudo - podia ser - e isso tem sido bastante interessante nesta colaboração com a Lotaçor e com o acolhimento que o Luís Rodrigues nos tem dado. Porque poderia ter sido um caso de estudo, mas, ao olhar para alguns exemplos do património, como foi a pesca do atum e as indústrias ligadas à pesca do atum nos anos 40, bem como o processo de baleação em várias ilhas, conseguimos, ao olhar para esses patrimónios e para o presente da pesca, encontrar os vetores, as chaves que cruzam aquilo que são as pescas da sardinha na Bretanha com a pesca do carapau em Gloucester, no Massachusetts. Portanto, esta capacidade de os Açores funcionarem como uma chave de leitura dos processos do Atlântico foi o que nos trouxe até aqui e é isso que estamos a encontrar.

Estão também a avaliar o património atual e a sua preservação?

O nosso trabalho é essencialmente histórico e os dados são muitas vezes fragmentados. Um dos nossos métodos é trabalhar com as comunidades de pescadores atuais (como em Matosinhos) para, a partir das dinâmicas do presente, compreendermos os fragmentos do passado. Percebemos que, frequentemente, a ruína dos edifícios corresponde à ruína dos ecossistemas; no caso das baleias, quando se caçaram exemplares em excesso, os edifícios deixaram de fazer sentido. O interessante é que hoje a relação mudou da extração para a contemplação, o que é mais salutar para as espécies e para nós. O nosso objetivo é fazer uma história da arquitetura a partir do peixe, que seja uma história do planeta e das diferentes espécies, contribuindo para entender os problemas do presente.

O projeto recebeu recentemente um financiamento europeu. Quais são os resultados esperados?

Já publicámos estudos sobre a arquitetura do bacalhau em Portugal e no Atlântico Norte, mas eram baseados em hipóteses. Com o novo financiamento, estamos a reunir dados mais objetivos através de arquivos e representações para encontrar demonstrações científicas das relações de causa e efeito. Estamos a preparar um Atlas de desenhos do projeto, que deverá estar concluído num ano, e que incluirá os resultados deste encontro açoriano para dar maior legibilidade a estas ideias junto do público não especializado.
Terça-feira decorreu a conferência “Peixes e Arquitetura: Uma Equação Atlântica”, organizada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto em colaboração com a Lotaçor.

Qual a importância de realizar um evento público sobre este tema?

Nós estamos a fazer investigação num espaço relativamente fechado e protegido, o que nos permite desenvolver ideias, testá-las e experimentá-las, mas essas ideias não fazem sentido fechadas atrás de uma porta. Aquilo que queremos é trazer essas ideias, esse conhecimento, e o esforço e trabalho que desenvolvemos a um público tão alargado quanto possível; mas, mais importante do que isso, é aprendermos com as pessoas que nos ouvem.

É um privilégio podermos apresentar o trabalho que fazemos a pessoas que têm curiosidade em ouvir-nos e conhecer a nossa experiência. Aprendemos muito mais no final desses encontros, com as ideias que trocamos, com as perguntas difíceis que nos fazem e com essa troca de informações, que alimenta a própria investigação, abre outras hipóteses de trabalho e torna o conhecimento muito mais vivo, porque é partilhado coletivamente.








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