Oriundo da freguesia da Relva, Hélio Soares entrou para a Filarmónica Nossa Senhora das Neves aos oito anos porque “queria sair de casa e estar com os amigos, não foi porque gostava de música na altura”, revela-nos, referindo que na ocasião, “eu e a minha irmã fomos para a banda da Relva”. O pai também “juntou-se à direção da banda”. Por volta dos 13 anos, Hélio Soares foi para o Conservatório Regional de Ponta Delgada. Diz que naquela altura “fomos dos primeiros elementos de uma filarmónica a ir para um conservatório, e comecei a ganhar, realmente, o gosto pela música. Decidi que era aquilo que queria fazer”.
Quando terminou o 12º ano viu-se “numa encruzilhada. O que é que ia fazer agora? Vou para uma universidade? Não vou...”. Entretanto, “o senhor João de Almeida – ele tem 80 anos e ainda toca na Filarmónica Nossa Senhora das Neves - aconselhou-me a ir para a Banda Militar”. “Nem disse aos meus pais, inscrevi-me na tropa, fiz os testes para entrar na Banda Militar, entrei. Passado pouco tempo consegui entrar no Curso de Sargentos”, confessa.
Finalizado o Curso de Sargentos, Hélio Soares regressa aos Açores, e após um ano por cá, surge-lhe um desafio: “O antigo maestro da Filarmónica saiu e o senhor João de Almeida é que ficou como maestro e incentivou-me a ficar à frente da banda. Foi ele que me passou alguns conhecimentos”. Explica-nos que “o meu estudo não tinha nada a ver com maestria e, por isso, disse para mim que tinha que fazer alguma coisa, ou seja, tentar perceber como podia evoluir”. Mas, “por muito que procurasse cá, não havia nada. Decidi ir para a Escola Superior de Música e fui estudar com o maestro Paulo Martins. Entrei como Oficial Chefe de Banda, na Banda Militar dos Açores”.
Deixar os Açores não foi fácil porque “sou muito agarrado à família e à terra”. Mas teve de fazê-lo por duas vezes, em ocasiões distintas. Se a primeira vez foi complicada, a segunda foi igualmente difícil. Conta-nos com boa disposição que “na primeira vez era extremamente novo, não sabia bem o que estava a fazer”. Mais a sério diz que “acabaram por ser “três anos complicados, mas fizeram-se. Sabia que era para um futuro melhor, por isso lutei o que podia e fiz tudo para me manter lá”. Na sua segunda vez, “já tinha outra maturidade, já estava casado, mas também não foi uma decisão fácil, porque no dia em que soube que entrei para Oficial de Chefe de Banda, foi o dia que soube que ia ter uma filha”.
Reconhece que o apoio da esposa foi determinante: “Tive e tenho a sorte de ter uma grande mulher. Disse-me: ‘tu vais. Segue o que queres’. Sem esse apoio teria sido impossível”. “Vinha cá todos os fins de semana. A licenciatura era de três anos, mas consegui fazer em dois, porque estava a fazer todas as cadeiras que podia e não podia”, afirmou, para recordar uma história engraçada com um professor de uma cadeira “que tínhamos durante os três anos e eu aparecia às três, o professor ficava a olhar para mim e dizia: ‘não, não podes estar aqui a fazer essas cadeiras todas”.
Hélio Soares não esquece a primeira vez que pisou o palco como maestro, “foi nas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. O senhor João de Almeida teve um problema de saúde, e eu no próprio dia andava a estudar as partituras... portanto, a minha estreia foi no Santo Cristo, se calhar foi uma estreia abençoada, espero eu”.
Desde então tem pisados vários palcos, todos eles importantes e todos são “uma responsabilidade acrescida”. Dos momentos mais marcantes da sua carreira destaca o concerto com o Arquipélago Cromático, “foi a minha primeira grande experiência com orquestra de cordas”. Recentemente dirigiu a Banda Sinfónica Portuguesa, “uma das mais prestigiadas do mundo e foi uma experiência incrível”. Gostava de voltar a repetir a experiência que realizou com a Banda Militar, “a ópera ‘La Traviata’, foi algo que achei desafiador. Também fiz o musical ‘Moulin Rouge, que foi bastante desafiador porque envolvia cantores, atores, dançarinos”. Ou seja, “acho que o meu próximo projeto é sempre o meu maior desafio”.
Para além da Filarmónica Nossa Senhora das Neves e da Banda Militar, Hélio Soares abraçou um novo projeto, a Banda Fundação Brasileira. Adianta que são desafios que “me puxam intelectualmente porque estão sempre a apresentar projetos inovadores, projetos criativos”.
Ligado à música há quase 40 anos, o maestro foi acompanhando a evolução nas filarmónicas. Tudo mudou, “o nível de repertório, dos músicos, é mesmo muito diferente, e para melhor”. Captar jovens para as filarmónicas nem sempre é fácil. Para Hélio Soares é preciso “mudar um bocadinho as mentalidades do que é uma filarmónica, o que é estar em conjunto e isto leva tempo, é preciso apresentar projetos apelativos, mas acho que é possível. Está-se a trabalhar para isso”. Por isso, as filarmónicas tiveram que se adaptar aos novos tempos, porque “antigamente as bandas eram conectadas apenas por fazerem serviços de rua. Hoje em dia, apesar desta tradição ainda se manter, não é isto que atrai os miúdos para as bandas, porque nenhum miúdo quer perder o domingo ou os fins de semana para ir fazer procissões”. Desta forma, na sua opinião, “as bandas têm que inovar, tentar perceber o que é que se faz lá fora, perceber o que é que se pode fazer cá dentro e algumas filarmónicas têm conseguido fazer isto e bem, têm conseguido manter-se muito ativas e com muito bons projetos”. Ainda assim, em muitas filarmónicas consegue-se ver elementos da mesma família, por exemplo “a minha filha também toca na banda. Ainda há bandas em que vemos os pais, os avós, todos a tocar. E isto é muito bom de se ver”.
Conciliar a sua vida familiar com a profissional não é fácil, “exige muito equilíbrio”. Mais uma vez, o maestro destaca o apoio da esposa: “Tenho sorte de ter uma mulher incrível que também toca, vai sempre comigo aos ensaios.
É preciso existir muita compreensão da parte dela... as pessoas pensam que são só os ensaios, os concertos, mas não. Como disse, esses projetos não são projetos em que a gente chega e toca, eles exigem muito (…)”.
Questionado se se arrepende das escolhas que fez, Hélio Soares confessa que “há sempre momentos na vida que a gente se pergunta se estamos a fazer o correto. Acho que isto é importante, esta autocrítica, porque se não fizermos esta autocrítica, não temos como crescer”, acrescentando que “às vezes, queremos pôr a culpa nos outros e, se calhar, esquecemos que somos os culpados de algo. Por isso, temos de ter essa capacidade de colocar o ego de parte, até porque o mundo da música é um mundo de egos, que nem sempre são fáceis de lidar. Temos de ter essa capacidade de dar um passo atrás e ver-nos de cima e tentar perceber se a culpa também não é nossa. Acho que isto é importante em tudo o que fizermos, e é uma boa base para o crescimento, seja pessoal, seja na música”.
Em termos de projetos, o maestro refere que no próximo mês concretiza mais um sonho: “A Filarmónica de Nossa Senhora das Neves vai tocar no Conservatório Regional de Ponta Delgada com um trompetista, Sergei Nakariakov, considerado um dos melhores do mundo”. Em abril já tem previsto um concerto no Coliseu Micaelense com a Fundação Brasileira, “dedicado ao membro do Harry Potter. No dia anterior tenho um concerto com três sopranos. É um misto de música clássica com uma peça cómica, com cantoras que também são fenomenais. É um projeto também muito interessante”. “Este ano temos muitas coisas programadas até o final do ano e temos muito trabalho pela frente”, finaliza.
