No Carnaval Sénior, na ilha Terceira, nem os trapos são velhos

No Carnaval Sénior, na ilha Terceira, nem os trapos são velhos

 

Tatiana Ourique / AO Online   Regional   26 de Fev de 2019, 08:46

 Esquecem-se artroses e reumatismos. Esquecem-se problemas cardíacos e hipertensões. Os bailinhos do Carnaval Sénior dão, durante um mês, a saúde que falta no resto do ano e provam aos salões repletos que a idade é um estado de espírito.


No carnaval sénior, nos fins de semana que antecedem o Carnaval, as danças e bailinhos têm mais rugas e menos resistência, ritmo menos acelerado, mas sorrisos mais intensos. E partilham palco com todas as gerações. Esta antevisão do carnaval junta elementos de todas as idades mas são os idosos os protagonistas.

Ao contrário do carnaval em fim de semana gordo, estes bailinhos são organizados. A 2 e 3 de fevereiro foram os salões da costa Oeste da Ilha que receberam as 16 danças e bailinhos dos diferentes centros de dia das freguesias terceirenses. No fim de semana de 9 e 10 continuaram pelos salões de Angra do Heroísmo sendo os dois fins de semana seguintes dedicados à Praia da Vitória.

É prática comum dos elementos mais jovens que integram estes grupos entrarem depois noutro bailinho nos dias de carnaval. O que, claro, exige o dobro da dedicação.

Os trajes destas danças e bailinhos são pensados ao pormenor. O calçado tem que ser ainda mais confortável e as roupas não podem apertar. Mas podem- e devem- ter as cores e o brilho que a vida, por vezes, não teve.

Quando o pano se abre na primeira atuação há um alívio quase de viragem de ano: “Consegui chegar a mais um carnaval”, pensam eles, como quem gosta bem mais de ver a uma plateia a aplaudir do que de apagar as velas do bolo. Muitos deles entram no seu primeiro bailinho depois dos 60, quando integram os centros de convívio e é-lhes oferecida essa hipótese. E aceitam de imediato porque há sonhos adormecidos que chegam precisamente quando têm que chegar e se os filhos e netos estiverem na plateia a aplaudir é a cereja no topo do bolo.

Para as mulheres, que estão agora em maioria nestes grupos, estes são momentos felizes que nunca imaginariam concretizados. Na sua meninice só os homens entravam em bailinhos. O papel delas era namoriscá-los da plateia quando abria o pano na esperança de um dia ir segurar-lhe o casaco num outro qualquer carnaval. E foram tantos os casamentos que começaram no escuro de um salão!

Hoje já existem muitos grupos só de homens ou só de mulheres, mas no carnaval sénior predominam os grupos mistos. Os assuntos têm um sem número de temas mas nestes bailinhos usa-se e abusa-se: das doenças e dos serviços de hospital, da vizinha que é uma grande mexeriqueira, do marido que é um verdadeiro estupor e dos filhos que vão levar os pais ao lar e que só se preocupam com a herança. No fundo, pelo Carnaval, avisa-se a sociedade dos problemas sérios dos idosos… Mas em jeito de brincadeira até porque “É Carnaval e Ninguém leva a mal”.



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