Na Mata do Pópulo as crianças reaprendem a brincar ao ar livre

Levar as crianças a brincar no meio da Natureza é a premissa que levou o casal Telma Miragaia e Marco Martins a iniciar o projeto que cria sessões de brincar num terreno com 2 mil metros quadrados, na freguesia do Livramento, Ponta Delgada



“Deixai as crianças em liberdade; deixai-as correr lá fora sob a chuva, tirar sapatos e pular nas poças d’água; pisar, descalças, a relva húmida dos prados; que elas possam descansar tranquilamente sob a sombra acolhedora de uma árvore, gritar e rir à tépida luz de um Sol nascente que acorda todos os seres vivos que têm seu dia dividido entre vigília e sono”.

Este excerto do livro “A Descoberta da Criança” da educadora, médica e pedagoga italiana Maria Montessori é quase um cartão de apresentação do projeto de Telma Miragaia e do seu marido Marco Martins. A Mata do Pópulo, um terreno privado de 2000 metros quadrados na freguesia do Livramento, em Ponta Delgada, tem um objetivo ambicioso: ensinar as crianças a brincar ao ar livre, em contacto com a natureza.

O sonho, tornado realidade a 16 de setembro, veio junto com o nascimento do Xavi, o filho do casal. “Queríamos que ele tivesse uma infância feliz como nós tivemos. Longe vão os tempos em que as ruas se enchiam de crianças para brincar e jogar com outras crianças livremente. O divertimento só era interrompido à noite com o grito dos pais ‘Vamos jantar!’, como acontecia na minha pequena aldeia de Donfins no Jarmelo, na Guarda”, conta Telma Miragaia.

Num mundo onde os ecrãs digitais e o cimento já substituíram o contacto com a natureza e a rua, a Mata do Pópulo surge quase como um oásis.

Para o casal, os 2000 metros quadrados são um espaço onde as crianças podem brincar livremente: “Respeitando todo o entorno da mata e a sua biodiversidade, construímos pequenos ambientes onde as crianças podem explorar e aprender num contexto mais informal. Ao brincar na nossa cozinha de lama ou na caixa de areia, correr pela Mata ou até a descansar na rede, as crianças conectam-se com a natureza, de forma extremamente natural”.

Telma Miragaia aponta a “perturbação/transtorno de défice de natureza” que o autor norte-americano Richard Louv refere no seu livro “A última criança na natureza”, que se reflete em problemas de saúde como o sedentarismo, obesidade, doenças mentais, hiperatividade e doenças crónicas, como hipertensão arterial e diabetes tipo 2, em idades cada vez mais jovens.

“As crianças que estão a nascer agora pertencem à primeira geração de filhos cujos pais já não brincaram na rua, pelo que é ainda mais difícil, para estes, reconhecerem a importância do brincar na natureza quando eles próprios já não o fizeram. Também é a primeira geração que se estima que vá viver menos anos que os seus pais, caso não mudemos o atual estilo de vida das nossas crianças. Se repararmos bem, as crianças vão de carro para a escola, ficam entre as quatro paredes da sala quase todo o dia, voltam de carro para casa ou para as atividades extracurriculares”, acrescenta.

Para o casal responsável pelo projeto, num mundo digital, torna-se urgente haver espaços onde as crianças possam tocar com as mãos na terra. Ambos vêm com preocupação a crescente utilização dos manuais digitais nas escolas, bem como a falta de natureza e o excesso de telemóveis existente nos recreios. “A nível de saúde, um estudo realizado na Finlândia em que trocaram o cimento dos recreios das escolas e substituíram por relvado e terra melhorou o sistema imunológico das crianças e saúde mental em poucos meses. Precisamos muito de debater estes assuntos de forma transversal, realista e fundamentada”.


Da roda dos troncos à cozinha de lama

Depois de “ensaiar” com famílias amigas, Telma Miragaia e Marco Martins abriram portas a 16 de setembro com a presença da consultora pedagógica Ana de Mesquita Guimarães, que dinamizou as primeiras sessões de brincar, e dirigiu o workshop “Se a Natureza inventasse a escola”, que contou com a presença de pais, educadores e professores interessados.

As sessões acontecem ao fim de semana, para crianças com idades entre os 3 e os 5 anos e os 6 e 8 anos, havendo ainda uma sessão em inglês para crianças estrangeiras dos 3 aos 8. É necessário fazer inscrição prévia.

Antes de qualquer sessão, é feita uma avaliação das condições meteorológicas, por questões de segurança. Cada sessão tem o apoio de monitores e a duração de 2 horas: começam na roda dos troncos, onde todos se apresentam, seguindo-se meia hora de uma atividade orientada, ficando as crianças com o resto do tempo para brincarem livremente nos baloiços tradicionais, cabanas, cozinha de lama, caixa de areia ou simplesmente desfrutarem da mata.

E apesar do clima açoriano, o casal quer fazer vingar o provérbio nórdico: “não existe mau tempo, apenas roupa inadequada”.



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