Médico britânico quer usar técnica inovadora em português com cara deformada


 

Lusa / AO online   Nacional   15 de Dez de 2007, 10:57

Um médico britânico ofereceu-se para tratar gratuitamente, com uma técnica inovadora que evita a transfusão de sangue rejeitada por José Mestre, o homem com a cara deformada que há mais de duas décadas pede no Rossio, em Lisboa.
    A solução foi proposta por Iain Hutchison, do Hospital São Bartolomeu, em Londres, após uma consulta na capital britânica, em meados de Julho, mas, até agora, José Mestre não deu resposta.

    "Eu ofereci-me para fazer a operação sem cobrar e penso que as autoridades portuguesas pagariam pelo internamento hospitalar [no âmbito da cooperação europeia entre os serviços de saúde dos 27]", revelou o cirurgião à agência Lusa.

    O tratamento seria feito através de uma técnica recente, "o bisturi harmónico, que usa ondas de ultra-som para coagular os vasos sanguíneos", reduzindo a perda de sangue, indica.

    Este método facilitaria a intervenção cirúrgica necessária para tratar a malformação vascular e o angioma de que padece, sem a transfusão de sangue que José Mestre rejeita por ir contra a sua crença religiosa, enquanto Testemunha de Jeová.

    O angioma, que progride desde a infância e hoje chega abaixo do pescoço, está a comprometer-lhe cada vez mais a fala e a vergar-lhe a coluna devido ao peso.

    O médico ilustra o resultado da técnica como "cortar o caule a uma flor sem cortar a flor".

    "Era isso que faríamos, cortar todos os 'caules' que ele tem, reduzindo grande parte da lesão, o que o deixaria com a cara relativamente normal", prognostica, propondo dividir o tratamento em duas fases.

    "A primeira operação teria um baixo risco e, no final, [José Mestre] teria contornos faciais relativamente normais e o grosso da protuberância da sua cara seria removido", descreve.

    Devido ao angioma, explica o cirurgião, a pele ainda estaria vermelha como está agora, o lábio inferior continuaria pendurado e o nariz deformado.

    "A segunda etapa seria uma operação correctiva convencional de reconstrução que teria como objectivo reduzir o volume do lábio e dar uma melhor forma ao nariz", acrescenta.

    Cada intervenção cirúrgica teria uma duração de seis a sete horas, calcula o clínico, espaçadas por entre três e cinco meses.

    Reconhecendo o caso como "altamente invulgar e complexo", Hutchison, que é fundador de uma organização de solidariedade intitulada "Salvar caras", garante que esta solução é mais simples e segura do que outras hipóteses.

    "No início, quando vi as fotografias, pensei que era necessária uma enorme cirurgia, retirar toda a pele da cara até ao osso e usar tecido de outra parte do corpo para reconstruir a cara", conta.

    Outra hipótese era "tentar um transplante de cara", uma técnica estreada com sucesso em França há dois anos.

    Mas, após o exame em Londres, sugeriu a série de operações mais pequenas que permitiriam reduzir o desfiguramento sem grande risco, usando o bisturi harmónico.

    Mestre, actualmente com 51 anos, viajou para a capital britânica no âmbito de um documentário sobre a sua situação gravado pelo canal Discovery, depois de ter recusado intervenções cirúrgicas no passado.

    O médico calcula que, devido à idade de José Mestre, actualmente com 51 anos, o crescimento do tumor será "mais lento" e o bisturi harmónico pode ser usado novamente sem grande risco.

    Mesmo para este experiente cirurgião, que diz ter feito "muitas operações a tumores do mesmo tipo mas nunca a um em tão mau estado", o caso de José Mestre "é único do mundo", cabendo ao próprio decidir se quer ou não o tratamento.

    "É um desafio mas [como médico] tenho um desafio todos os dias", constata.

    José Mestre nasceu com uma mancha escura mas aparentemente inofensiva na cara: "A mancha era lisa, mas começou a criar borbulhas e estas foram evoluindo até me consumir a face quase por completo e hoje só me resta um olho, do qual vejo mal", explicou José Mestre à agência Lusa em Setembro, descrevendo que tinha menos de 2 anos quando a mãe começou a peregrinação pelos médicos.

    A malformação vascular e o angioma de que padece foram progredindo ao longo do tempo, apesar de José ter sido operado ao lábio inferior, aos 14 e aos 18 anos, para tentar conter a progressão da doença.

    O angioma, que lhe chega abaixo do pescoço, está a comprometer-lhe cada vez mais a fala e a vergar-lhe a coluna, tornando muito difícil que José consiga trabalhar - mas nem sempre foi assim.

    "Aos 14 anos eu ajudava numa drogaria e a partir dos 16 controlava o trânsito numa via de Queluz, onde então morava, tendo mantido essa ocupação até aos 46 anos, em acumulação com o Rossio, onde estou há mais de duas décadas", recordou José Mestre.

    "As pessoas sempre me vão dando alguma coisa e às vezes ganho 15 euros por hora. Se não fosse assim, nunca poderia pagar a renda, a água, luz e gás e os meus medicamentos, pois recebo do Estado apenas uma pensão por invalidez", acrescentou.

    Todavia, as reacções de quem passa nem sempre são as melhores.

    "Há uma ou outra pessoa que se interessa pelo meu problema e vem falar comigo mas a maioria apenas quer tirar fotos e essa falta de respeito magoa-me", confessou José Mestre, acrescentando que também há quem lhe peça para "tirar a máscara".

    Outras pessoas fogem "agarradas à carteira como se tivessem medo que as fosse atacar e roubar", acrescentou José com uma ponta de ira e de mágoa.

    As situações já o levaram a mostrar o bilhete de identidade, em cuja fotografia está claramente patente o angioma, ou a apedrejar quem o provoca.

    Apesar da estranheza manifestada por muitos transeuntes, José Mestre afirma que o seu caso não é o único no País, "nem sequer em Lisboa", onde existem pelo menos "mais dois ou três", entre eles "um homem que costuma carregar o telemóvel numa loja do Rossio e duas crianças que passam muitas vezes na praça pela mão da mãe".

    Há cerca de seis anos a residir com um dos cinco irmãos no Cacém, José Mestre já foi observado por médicos em Inglaterra, Alemanha e Espanha, onde os clínicos disseram que podiam operá-lo mas sem garantias de sobrevivência.

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