Açoriano Oriental
Fomentar a inclusão social pela agricultura biológica

BioKairós, empresa de inserção, tem a missão da integração social de pessoas em situação de risco e exclusão social, criando um processo de formação em contexto real de trabalho, com a prática diária de atividades, em diversas áreas de atuação, no âmbito da agricultura biológica

Fomentar a inclusão social pela agricultura biológica

Autor: Ana Carvalho Melo

Iniciada em 2017, a BioKairós é uma empresa que pretende conjugar as componentes económica, ambiental, social e de inclusão, de modo a “integrar pessoas em dificuldades, permitindo a sua autonomização social e económica através do emprego”.

Como contou ao Açoriano Oriental Raquel Vargas, diretora executiva desta microempresa, é através da agricultura que se desenvolvem as competências que poderão permitir a integração, mais tarde, destas pessoas em situação exclusão no mercado de trabalho.

“Este projeto surge para dar respostas a pessoas que nem sempre a sociedade em geral consegue garantir. Paralelamente a isso, produzimos em sistema de agricultura biológica, devidamente certificada, que sempre foi um dos mote da Kairós a nível de sustentabilidade”, contou, explicando que atualmente a empresa já tem quatro pessoas com contrato e o objetivo é aumentar ainda mais.

O trabalho ,que começou na Quinta de São Gonçalo, onde estão instalados os Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel, integra atualmente também um terreno de 7,8 hectares de terreno na Malaca, no concelho de Lagoa, dando resposta às necessidade sociais, mas também da crescente procura por alimentos biológicos, num trabalho que conta também com a supervisão de Sofia Medeiros, técnica superior responsável pela produção.

Como explica Raquel Vargas, o trabalho na área agrícola permite também o desenvolvimento de outras competências que irão permitir que pessoas sem projeto de vida e, por vezes, com problemas de saúde de diversos foros, consigam autonomizar-se.

“Neste projeto, a agricultura é fundamental no crescimento pessoal, uma vez que permite que estas pessoas vejam o produto final do seu trabalho. Ver uma planta crescer desde pequenina até dar fruto, valoriza a sua dedicação e mostra-lhes que são capazes de ter sucesso.”, destaca.

A responsável realça ainda que “todos os produtos vendidos são para pagar as despesas e pagar os salários aos funcionários”, de modo a fomentar a autonomia financeira e “melhorar a sua qualidade de vida”.

No terreno na Malaca, na passada quinta-feira estavam a trabalhar cinco pessoas, três deles funcionários da BioKairós e dois em programas ocupacionais, que neste dia depois de terem realizado a colheita dos legumes e vegetais que foram para a venda na loja na Rua D. João III, estavam a realizar diversas funções relacionadas com a produção agrícola.

Nuno, que estava a cavar a terra para alargar os espaços de plantação, destacou como este um trabalho é importante porque todos os produtos vendidos são para pagar as despesas e pagar os salários aos funcionários, o que, no seu caso, lhe garante autonomia financeira para sustentar a sua família.

Já Ricardo, que é o mais antigo funcionário da BioKairós, tendo começado a trabalhar em 2016 , contou que ao longo dos anos tem ajudado também na adaptação e formação dos novos colegas, o que descreve como “um privilégio”.

Revela ainda que, antes da BioKairós, não possuía conhecimentos sobre agricultura biológica, mas hoje em dia trabalha com dedicação para que se consiga uma cada vez maior e melhor produção. “Dá um gosto enorme ver a produção crescer e trabalhar com uma equipa como esta”, acrescentou.

Gabriel, que é surdo-mudo, é o mais novo deste grupo mostra-se satisfeito com o trabalho aqui na BioKairós.

Já Augusto, que tem dificuldades auditivas, diz que o trabalho é muito importante, afirmando “que não quer em casa, faz mal à cabeça”.
“Aqui ‘tá tudo bem, eu gosto muito de trabalhar aqui”, conta.

A equipa, que atualmente conta com quatro funcionários, integra também pessoas de programas ocupacionais, da área de psiquiatria do Hospital de Dia ou encaminhados pelos pais que precisam de ocupar os filhos que não estão integrados em mais nenhuma resposta, entre outros.

Neste processo de integração social e autonomização a BioKairós, apoia-se por vezes também em outras valências da associação como o KIntegra: Kualificar & Kapacitar para a Integração Social.

Já com alguns anos de experiência e o registo de casos de sucesso de integração no mundo de trabalho, Raquel Vargas afirma que este projeto está a conseguir responder aos objetivos, ainda que o desafio seja diário.

A produção da BioKairós que abrange uma grande diversidade de produtos hortícolas, árvores de fruto e de fruta exótica, além das mais de duas dezenas de variedades de ervas aromáticas e flores comestíveis, é vendida a empresas, principalmente hotéis e restaurantes, mas também na loja na Avenida D. João III, em Ponta Delgada.

Aberta ao público desde 9 de dezembro de 2021, a mercearia-café da BioKairós da Avenida D. João III tem o objetivo de ser um local de venda dos produtos produzidos na Malaca, mas também vender de outros agricultores biológicos de São Miguel.

Como destacou Raquel Vargas, os clientes que escolhem loja mostram preocupações quer ambientais, mas também sociais, assim como de fomentar a economia local, reduzindo a pegada carbónica.

Mas ao longo do tempo esta loja acaba também por ser também um ponto de encontro para alguns clientes e até de partilha de dicas sobre o uso e confeção de vegetais de forma a reduzir o desperdício alimentar.


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