Há mais de 40 anos que assim é, na ilha do Pico

Favas guisadas ao domingo de manhã? Sim, no Monte é tradição

Favas guisadas ao domingo de manhã? Sim, no Monte é tradição

 

Célia Machado/AO Online   Regional   31 de Out de 2019, 20:00

Escassos minutos após as 10 da manhã, de domingo, chegamos à localidade do Monte, na Candelária, ilha do Pico, para experimentar as afamadas favas guisadas da dona Maria da Glória.



A "Hora de Inverno" entrou em vigor na madrugada e, por isso, ainda com o horário antigo entranhado, muitos dos clientes habituais chegaram mais cedo; os pratinhos com as favas já estão a ser servidos. No pequeno largo, junto ao Império de São Francisco, no Monte de Cima, não é fácil estacionar a viatura a esta hora, junto à Mercearia e Café de José Alberto.

Do lado de dentro do balcão, os 75 anos da cozinheira e coproprietária do estabelecimento não parecem retirar-lhe a energia necessária para atender os muitos pedidos. São assim as manhãs de todos os domingos e dias santos.

"Como é que souberam das minhas favas?", interroga-nos a dona Maria, estranhando clientela vinda do outro lado da ilha. A verdade é que, há muito, que temos ouvido falar desta tradição, com mais de 40 anos, que alia boa gastronomia à simpatia do casal Maria da Glória e José Alberto Silveira, num ambiente acolhedor.

Aqui vêm parar, antes da missa das 11 horas, clientes fixos das freguesias da Candelária, São Mateus, Criação Velha e Madalena. Volta e meia aparecem curiosos de outros paragens, também motivados pela publicidade que passa de boca em boca: "A semana passada tivemos três casais de Santa Luzia", revela-nos.

Mário Laranjo, com progenitores da Candelária mas que nasceu e reside no Faial, passa os fins de semana no Monte, na casa próxima do Café e Mercearia de José Alberto, e garante que, se não deita sentido ao relógio, quando vai pedir favas já não há. Numa das mesas encontramos Eduardo Bulhão, a viver na Madalena há 30 anos: "Há muito que aqui venho, todos os domingos de manhã. Para mim é uma tradição vir cá comer destas favas". Mas, não será muito cedo para se entregar a este petisco? "O meu estômago não sabe que horas são", responde-nos, entre sorrisos.

As favas guisadas fazem também parte da ementa do dono, José Alberto, que, religiosamente, todos os domingos, come, ao pequeno-almoço, meio papo-seco e um pratinho de favas e bebe um copinho de vinho, produzido a partir das suas uvas. São cerca das 10h45 e as favas já esgotaram.

Maria da Glória não faz ideia de quantos quilos prepara por mês mas a medida é sempre a mesma, em cada dia: uma panela de 15 litros, bem cheia.
Se antes chegaram a cultivar a leguminosa, nos últimos tempos deixaram de fazê-lo pois a saúde já não dá para tanto e sai caro pagar a alguém para tratar da produção.


Jeito para o negócio

Também do lado de dentro do balcão, mas bem sentado e mais reservado, está o marido José Alberto, de 80 anos, que, já no tempo em que o estabelecimento pertencia aos sogros, tinha gosto por este negócio. "O meu marido sempre disse que aquilo que queria do meu pai era o botequim. Claro que também queria a filha do proprietário, caso contrário podia esquecer este lugar", diz-nos bem-disposta a dona Maria. A mercearia e a taberna pertenciam ao avô paterno de Maria da Glória e, deste, passou para o pai da atual proprietária. Quando, em 1973, este faleceu foram tiradas as sortes, entre Maria da Glória e o irmão. O casal Silveira assumiu a posse do estabelecimento, fez melhoramentos e as favas guisadas, que eram feitas pela sogra de José Alberto apenas nos dias de festa, passaram a ter presença mais assídua no café, com receita aperfeiçoada pela nova dona.

José Alberto tem jeito para o negócio desde a infância. "Começou aos 12 anos a fazer carrinhos de madeira, de manivela, para brincar mas alugava-os aos outros miúdos", conta-nos Maria da Glória, ao que o esposo retifica: "Não alugava. Desciam a ladeira neles e, no final, tinham de me pagar". "Pagavam com rebuçados?", perguntamos, mas a resposta é outra: "Não, pagavam mesmo com dinheiro", revela o comerciante a rir.

São 11h30, a conversa já vai longa e continua a ser interrompida por clientes que chegam em busca das favas, que há muito esgotaram. "Já não temos. Têm de vir mais cedo".


Leão ou fotógrafo do Monte

Nas paredes do café sobressaem cartazes, calendários, cachecóis e diverso merchandising do Sporting Clube de Portugal. Lá pelo meio uma foto do sr. José e um relógio, ambos com a legenda "O Leão do Monte", mas o empresário "chuta para canto": "Isso foi só uma brincadeira. Eu até nem sei o nome dos jogadores do plantel do Sporting". Contudo, há quem nos confidencie que chegou a ter exposta a fotografia de Bruno de Carvalho, tirada quando o então presidente dos verdes e brancos esteve no Pico. Após o que aconteceu na Academia do Sporting, em Alcochete, a foto foi retirada.

Porém, mais fama tem por ter sido fotógrafo. Graças ao seu olhar atento, foram eternizados convívios, festividades religiosas e outros momentos importantes da localidade, que, sem o "fotógrafo do Monte", ter-se-iam perdido no tempo.


Mais de 60 anos de partilha

"Começámos a namorar quando eu tinha 13 anos", sussurra-nos Maria da Glória, como se nos tivesse a confessar um crime. O marido, ali ao lado e ouvindo a conversa, deixa escapar um grande sorriso. Não há porque dizê-lo baixinho. Passados 62 anos, continuam juntos. Casaram quando Maria tinha 21 anos e tiveram um casal de filhos. "Fizemos muita coisa nesta vida. Trabalhei muito nas terras. Tomámos conta de figueiras para fazermos aguardente e vendê-la para podermos ter milho. O meu marido apanhou muitas lapas, de fundo, e com o dinheiro conseguido pudemos ter a nossa casa. Também, durante muitos anos, tivemos uma camioneta que nos permitiu, entre outras coisas, vender gás pelo concelho, o que nos ajudou a garantir o estudo universitário ao nosso filho", recorda-nos a esposa, que guarda a mágoa de não ter estudado mais do que a quarta classe, que concluiu aos dez anos. O filho, psicólogo, vive no continente e a filha, enfermeira, está no Faial. No coração têm também os três netos, "todos meninos".

É quase meio-dia e ainda há quem chegue de São Roque a perguntar pelas favas guisadas.

José Alberto deixa a mulher tomar a dianteira do negócio e fica parte do tempo sentado pois queixa-se de dores "no joelho, no quarto, na coluna. Está tudo avariado!". Cumpre apenas uma ou outra tarefa pedida pela companheira. Sem fazer barulho, levanta-se e dirige-se para a porta. Maria da Glória repara e lança: "Como é? É assim? Vais embora e não dizes nada?".

Apanhado em flagrante, José ajeita algumas cadeiras e, novamente, segue no sentido da porta. "Está a ver? Ele vai para casa, sentar-se no cadeirão, e eu fico aqui todo o dia. Quando me der fome como qualquer coisa. Ainda é muito machista! Pode escrever isto que eu acabei de lhe dizer", lamenta-se. "Já nem muda a água das favas, enquanto estão de molho; apenas, enche os pratinhos quando estamos a vendê-las", continua a esposa. Há algumas discussões, "como é natural num casal", mas sempre se mantiveram unidos numa vida de muito trabalho. E, apesar das reclamações que possa haver, Maria da Glória reconhece: "Enquanto estivermos os dois, estamos muito bem!"






Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.