Exposição "Estação Metereológica" mostra obras sobre o território açoriano

Exposição "Estação Metereológica" mostra obras sobre o território açoriano

 

Lusa/AO online   Regional   26 de Jul de 2019, 15:55

“Estação Meteorológica”, exposição de Manuela Marques e Sandra Rocha, mostra trabalhos de fotografia e vídeo sobre o território açoriano, “muito marcado por fluxos, movimentos e variações”, até 20 de outubro, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas.

A mostra reúne o trabalho que as artistas Manuela Marques, natural de Tondela, e Sandra Rocha, da ilha Terceira, desenvolveram ao longo de dois anos “sobre os Açores, sobre a maneira de experienciar, de viver este território e, ao mesmo tempo, é sobre duas pessoas que têm afinidades pessoais”, explicou à agência Lusa o curador, Sérgio Mah.

Em “Estação Meteorológica” encontra-se “esta relação entre duas pessoas que vivem em Paris, mas, ao mesmo tempo, muito centradas neste território”, num trabalho que tem também em comum “um interesse particular pela fotografia e por formas de especular e expandir a relação visual com o território, muito marcado por fluxos, movimentos, variações”.

A exposição exibe obras “que mostram o que normalmente não se vê, ou é secundarizado, numa visão postal”, que, “normalmente, procura ter uma visão muito bonita sobre o território, muito espetacular na exuberância visual de um certo território”, explicou o curador.

“O que elas procuram aqui, e por isso é que a exposição se chama 'Estação Meteorológica', são todos os outros elementos, todas as outras variáveis, que participam na maneira como nós sentimos, ou marcam um modo de estar ou de percorrer um sítio”, concretizou.

Mas a maneira como exploram os objetos é diferente para as duas artistas, adianta Sérgio Mah, destacando “uma característica muito comum no trabalho da Manuela, que é olhar para um detalhe como se ele fosse uma paisagem. O que vemos é que a luz, a cor, as direções, o pequeno e o imenso são coisas muito características do trabalho da Manuela”.

“No caso da Sandra, ela quase que olhou mais para fora, a partir do território, a partir da ilha, para o infinito. E pegou muito naquilo que, à partida, está longe e que é misterioso, por exemplo, o tema dos cetáceos e da caça à baleia, que ela usou como uma metáfora dessa ideia de estar numa ilha e de olhar e efabular sobre aquilo que a circunda”, prosseguiu.

Manuela Marques pegou em registos sismológicos que fazem parte do arquivo do Observatório Afonso Chaves, como no vídeo que se encontra à entrada da exposição, ou numa série de fotografias em que mistura, no espaço e no tempo, os registos da crise sismológica dos Capelinhos, nos anos 70, que mostram como o fenómeno foi sentido em diferentes ilhas.

“O que me interessava era reutilizá-los, não os utilizar como arquivo, porque o arquivo já existe, é uma coisa muito bonita, fantástica, mas eu gosto de, às vezes, utilizar os arquivos para reinterpretá-los, criar uma espécie de sensação de fluxo – é por isso que estão na vertical”, explicou a artista.

Essa ideia de fluxo é transmitida, também, numa série em que, recorrendo a papel dicroico (revestido com um filme metálico especial, que reflete certas cores e permite que outras o atravessem), capta as mudanças da luz.

“Aqui foi mais a luz que me interessou. Essa luz tão particular dos Açores, que está sempre a passar. Passa-se do cinzento escuro para uma espécie de sol. Acho que foi a coisa que mais me impressionou quando estive cá da primeira vez – é uma situação que está sempre a mudar, todo o tempo”, observou Manuela Marques.

Nos trabalhos selecionados há ainda espaço para “um piscar de olhos ao romantismo”, que encontrou na ilha “de uma maneira muito forte e que está ligada a uma certa nostalgia aqui de São Miguel”.

“Essa questão do romantismo em São Miguel é uma coisa que gostarei de continuar a trabalhar e que leva a uma certa melancolia. Acho que é uma ilha com muitas forças telúricas, super fortes, que até transmite uma certa”, considerou a artista.

Sandra Rocha explorou a sua ligação com a sua ilha, a Terceira, olhando para “a relação dos Açores com os cetáceos, desde a caça da baleia, até ao período do whale watching”.

“Andei um bocadinho no universo que é o limite da terra e o que é que está ali no mar, que também nos pertence, ainda, e como é que nós, com as mudanças do mundo e tudo e a mudança do clima, passámos dessa fase em que caçávamos os animais, sobretudo o cachalote, que é residente - as fêmeas - e agora saímos para o ver, em contemplação absoluta. Será que também vale a pena? É o mundo deles… Éramos intrusos de uma maneira, agora somos de outra”, afirmou.

O seu trabalho fotográfico reinterpreta a sinalética usada no tempo da baleação, antes da radiofonia, e ficciona o “que poderia ser o som dos cachalotes”, transportando o tema para os vídeos exibidos, como na obra em que reescreve “a lenda do baleeiro, só com pedaços do livro do [Herman] Melville, ‘Moby-Dick’”.

A exposição, que pode ser visitada até 20 de outubro, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, terá uma visita guiada, organizada pelo serviço educativo do espaço, este domingo às 16:00.

No mesmo dia, às 17:00, o Arquipélago, na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, recebe o Quarteto Quadrivium, que irá interpretar “Sete Velhos Corais Portugueses”, de Eurico Carrapatoso, “Quarteto de Cordas”, de Luiz de Freitas Branco e Quarteto de Cordas Op. 18, nº1, em Fá maior, de Ludwig van Beethoven.


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