O que o levou a candidatar-se à presidência do Núcleo dos Açores da Associação Nacional de Treinadores de Futebol?
Compromisso é a melhor palavra para definir a motivação que tive. Desde logo, um compromisso comigo próprio enquanto treinador e igualmente para com as pessoas que me acompanham neste desafio. Foi também um compromisso que havia assumido com o professor Henrique Calisto, pois desde a primeira hora que assumiu a sua candidatura à Associação Nacional de Treinadores de Futebol teve a frontalidade e a honestidade de me explicar que os Açores e a Madeira eram uma prioridade sua, para conseguir unir totalmente os treinadores do país em torno da nossa causa e logo após ter tomado posse, deu um enorme impulso para darmos o passo que demos.
Posso garantir publicamente que esta vontade já existia há alguns anos por parte de alguns elementos que agora tomam parte dos órgãos sociais, tendo eu conquistado maior determinação para assumir a candidatura à presidência por ter tido um apoio claro e inequívoco dos meus vice-presidentes, Emanuel Ferreira (da Associação de Futebol de Ponta Delgada), António Viveiros e Roberto Rosa (da Associação de Futebol de Angra do Heroísmo), pois foram determinantes para termos avançado com uma equipa que conseguiu reunir elementos oriundos das três associações e todos com reconhecido trajeto.
Os órgãos sociais do Núcleo dos Açores da Associação Nacional de Treinadores de Futebol integram elementos oriundos das três associações de futebol da Região. Foi fácil conseguir reunir um grupo representativo do todo regional em torno de um objetivo comum?
Anteriormente já tinha havido umas tentativas de se formar um núcleo ou, até mesmo, a ideia de serem criados três núcleos, mas nunca avançaram. O objetivo comum deste grupo que avançou foi sempre o de termos um núcleo dos Açores na sua globalidade e, tal como disse atrás, o apoio e o encorajamento que senti das pessoas que mencionei foram determinantes, pois cada um naquilo que tem sido o seu percurso de Treinador indicou pessoas que consideraram importantes para avançarmos com uma equipa coesa e focada em melhorar as questões que envolvem a nossa classe.
É importante referir que nos órgãos sociais apenas não temos elementos de Santa Maria, São Jorge e Flores, mas com a adesão de mais sócios contamos, muito em breve, podermos ter um delegado em cada uma destas ilhas e com isso termos uma expressão global nos Açores.
Quais são os principais desafios que os treinadores açorianos - ou nos Açores - enfrentam nesta altura?
Antes de responder propriamente, é justo dizer que se colocarmos esta mesma questão em outras partes do território nacional, se calhar vamos ter a mesma perspetiva de resposta, mas com diferentes graus de prioridade.
Direi que, pelo facto de estarmos mais afastados dos centros de decisão, gera um desafio logístico ao nível das competições e/ou participações nos nacionais. Este afastamento cria logo uma barreira a vários níveis, a começar pelo acesso à formação de treinadores em níveis superiores (Grau III e IV) ou então simplesmente na partilha ou aquisição de conhecimento e de experiências competitivas, pois a larga maioria dos nossos treinadores faz o seu trajeto ao nível de ilha ou, quanto muito, regional.
Um outro desafio com que nos debatemos - e que é pouco valorizado -, é que os treinadores que desempenham funções na formação trabalham com indicadores complexos e deficitários, quando comparados com o território continental. Dou como exemplo o índice de obesidade, o abandono escolar ou até mesmo o índice de pobreza. Por isso, é igualmente justo reconhecer que os treinadores nos Açores fazem um trabalho hercúleo, pois a grande maioria tem a capacidade técnica e emocional de gerir grupos multidisciplinares com cada vez mais sucesso em ambas as modalidades e géneros, mas temos de abandonar certos complexos e teorias para nos aproximarmos dos patamares mais altos.
Diria que temos de incrementar uma filosofia formativa em detrimento da atual filosofia resultadista em termos dos escalões de formação, sendo este um enorme desafio que deve envolver não só os treinadores, mas também o dirigismo e os adeptos de uma forma geral.
O que tem faltado aos treinadores açorianos para começarem a singrar e a aparecer em patamares superiores a nível nacional?
Melhor formação! Como em quase tudo no Desporto, o nível de formação dos treinadores também se mede de forma piramidal e, neste contexto concreto, posso afirmar - pelo que já analisei - que temos um número deficitário de treinadores com o nível II (UEFA B) e que, por sua vez, leva diretamente a que tenhamos um número bem reduzido de treinadores açorianos com o nível III (UEFA A). Nenhum clube fora da região viria ou virá recrutar um treinador UEFA B aos Açores, quando dispõe de um grande número de treinadores UEFA A bem mais próximo e com menor custo logístico.
Por outro lado, nós ainda vivemos a herança desportiva dos anos 1980 e 1990 em que a subida de divisão para o patamar nacional quase que trazia implícito a contratação de um treinador de fora da região e, de certo modo, esta cultura permanece, muito por força da falta de habilitação necessária para um patamar nacional. Eu acredito é que, à imagem do que já aconteceu com o mister André Branquinho - com experiência internacional - e com o que tem acontecido com o Pedro Costa (Caneco), existem inúmeros treinadores nos Açores que se já tivessem o nível UEFA A já teriam tido experiências profissionais fora da região. Portanto, é necessário mais e melhor formação para os nossos treinadores poderem almejar outros desafios mais ambiciosos e também aí, a presença da Associação Nacional de Treinadores de Futebol nos Açores irá certamente ajudar.
Qual vai ser a área de atuação do Núcleo dos Açores da Associação Nacional de Treinadores de Futebol no decorrer do mandato para o qual foi eleito no passado dia 1 de fevereiro?
Em primeiro lugar, é representar a própria Associação Nacional de Treinadores de Futebol junto dos treinadores dos Açores e ser, igualmente, um interlocutor prestigiado para todas as questões que envolvam os treinadores que já são sócios da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.
Em termos de ação propriamente dita, temos um caminho delineado e faseado que assenta em três pilares importantes: aumentar o número de associados, para ganharmos mais capacidade reivindicativa a todos os níveis; analisar as necessidades formativas existentes para podermos providenciar ações de formação com o “selo de qualidade” da Associação Nacional de Treinadores de Futebol e, assim, proporcionarmos mais e melhor conhecimento aos nossos treinadores, que no caso dos que são sócios podem obter essas formações de forma gratuita; melhorar as condições de trabalho e de desempenho dos nossos treinadores, seja através de um melhor processo formativo, seja por força da razão de se aplicarem as regras e normas que já existem no nosso país, mas que têm ficado numa espécie de esquecimento e dou um exemplo muito claro que se prende com o não pagamento das gratificações acordadas no vínculo que os clubes efetuam com os treinadores, em especial com os treinadores da formação, mas que recebem os devidos apoios do Governo Regional para o efeito. Ou seja, é necessário termos a classe unida e lutarmos em conjunto para termos melhores condições no desempenho da função de Treinador.
Pretende a Associação Nacional de Treinadores de Futebol, agora que dispõe de um Núcleo no arquipélago dos Açores, organizar algum evento de cariz nacional na Região?
Esta é, de facto, uma expectativa da equipa que tomou posse e também da direção nacional da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, mas temos de ser coerentes e reconhecermos que os tempos que correm têm sido muito desencorajadores para pensarmos nisso num curto prazo.
Mas, por exemplo, a Associação Nacional de Treinadores de Futebol organiza anualmente o seu “Fórum do Treinador” que é apenas e só o maior e melhor evento de treinadores que se realiza em Portugal (cuja adesão ultrapassa largamente o milhar de pessoas) e um dos mais prestigiados da Europa.
Este evento ocorre sistemicamente nas cidades que ganham a
distinção de “Capital Europeia do Desporto” e, seguramente, se cidades
como Ponta Delgada (agora Capital Europeia da Cultura), Angra do
Heroísmo ou Horta vierem a candidatar-se e conseguirem ser Capital
Europeia do Desporto, teremos seguramente o Fórum do Treinador nos
Açores, com toda a projeção nacional que isso implicará e trará para a
Região.
Contudo, estou certo de que muito em breve teremos, sim, um
evento formativo em cada uma das associações de futebol dos Açores, com o
cunho e a qualidade que é reconhecida à Associação Nacional de
Treinadores de Futebol e que trará, certamente, prestigiados formadores
de diferentes áreas e que são amplamente reconhecidos do nosso país.
