Documentário mostra outras facetas de Saramago

Documentário mostra outras facetas de Saramago

 

Ana Goulão - Lusa / AO online   Nacional   6 de Nov de 2007, 21:51

José Saramago aparece de rosto ora sereno ou cansado, por vezes com uma expressão terna quando olha para Pilar, esposa e apoio constante nas muitas solicitações que preenchem a vida quotidiana do Nobel da Literatura.
São momentos captados pelo realizador Miguel Gonçalves Mendes no documentário "União Ibérica", que deverá estrear-SE no primeiro semestre de 2008, revelando ao público facetas menos conhecidas do Nobel da Literatura português.
O realizador acedeu em mostrar à Lusa algumas imagens do documentário, ainda inacabado, mas já com traços de "um retrato intimista do escritor, sobretudo do que representa a relação com Pilar del Rio na sua vida".
 "Não queria mostrar apenas a vida e a obra do escritor - explicou -, queria antes descobrir a visão que tem do mundo e dá-la a conhecer ao público", na mesma linha do documentário que fez com Mário Cesariny em "Autografia" (2004), no qual traça um perfil íntimo do poeta e pintor.
Fazer este tipo de trabalho envolve muito tempo, longas conversas, partilhar o quotidiano, criando "uma relação de amizade", apontou, recordando que, por isso, "foi muito doloroso" quando Cesariny faleceu, em Novembro de 2006.
Para fazer o documentário sobre Cesariny demorou quatro anos, enquanto a rodagem sobre Saramago começou em 2006. Cinco anos antes, Miguel Gonçalves Mendes tinha pedido ao escritor que lesse um excerto de "Memorial do Convento" para o filme "D. Nieves", sobre a relação entre Portugal e Galiza, e a partir daí fez-lhe o convite: "Ele recusou, mas eu insisti sempre, até que aceitou".
Miguel Gonçalves Mendes não quer especializar-se neste tipo de retratos, mas sentiu que era muito importante mostrar a experiência e sabedoria de vida de duas personalidades importantes na cultura portuguesa, que muito admira. "Era uma vergonha para o país" não terem ainda sido feitos, criticou.
"Cesariny vivia bastante só, foi-se isolando. Com Saramago é diferente. Ele tem inúmeras solicitações pelo facto de ser um Nobel da Literatura e a Pilar del Rio faz parte da vida dele, como sua mulher e como um apoio fundamental para todo o trabalho que o seu estatuto envolve", comentou.
Miguel Gonçalves Mendes vai mostrando algumas imagens de "União Ibérica" e elogiando facetas da personalidade de Saramago, desconhecidas do grande público: "Ele é um poço de optimismo e de energia. As pessoas acham-no cinzento, mas ele é muito doce e tem um sentido de humor brilhante", assinala.
No ecrã, Saramago e Pilar estão sentados a uma mesa de trabalho, inundada de papéis, de correspondência - reveladoras das inúmeras solicitações próprias do estatuto de um Nobel da Literatura - e de repente beija a mão da mulher com uma expressão de grande afecto.
Com estas imagens, quis mostrar, não só o casal, mas "o José e a Pilar", em momentos especiais, para dar a conhecer o homem e a mulher, e, desta forma, fazer com que o espectador "sinta o grau de intimidade" que também sentiu quando os acompanhou.
O realizador lamenta que muitos portugueses continuem a ter preconceitos em relação a Saramago, "por defender uma união da Ibéria, por ser comunista, por ter deixado o país para viver em Espanha, por ter casado com uma espanhola, e ainda por cima vinte anos mais nova".
"É natural que se tenha ido embora. Ele foi muito maltratado em Portugal", comentou, recordando as polémicas em torno do livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (1991) - considerado blasfemo por um membro do Governo, que o vetou de um prémio literário europeu - e, outra mais recente, com a entrevista dada por Saramago a defender uma união com Espanha.
"O título do documentário já era anterior à polémica e portanto nada tem a ver com ela", assegurou o realizador à Lusa, observando que as reacções à entrevista de Saramago "foram exageradas".
Culpa "uma certa mentalidade mesquinha e tacanha de invejar e desprezar quem tem sucesso, e talvez por isso o atraso português se mantenha", opina o realizador de 29 anos, nascido na Covilhã e fundador da associação cultural JumpCut, também produtora dos seus trabalhos cinematográficos.
A revolta intensifica-se quando fala das dificuldades que teve para levar avante o projecto de documentário. Depois de lhe ter sido negado apoio pelo Instituto do Cinema, Audiovisual e Multimédia (ICAM), decidiu contactar algumas produtoras internacionais, entre elas a espanhola El Deseo (do realizador Pedro Almodóvar), que no dia seguinte lhe marcou uma reunião e logo acedeu apoiar o projecto.
"Mas insisti junto do ICAM e finalmente obtive apoio à terceira tentativa", recordou, acrescentando que, mesmo assim, para terminar o filme, terá de conseguir ainda mais cerca de 120 mil euros através de patrocínios.
Depois de ter estado com Saramago e Pilar em Lanzarote, onde residem, o realizador acompanhou o casal em várias viagens, nomeadamente pela Azinhaga, terra natal do escritor, Madrid, Finlândia, México, estando agora prevista uma passagem pelo Brasil para assistir à rodagem do filme de Fernando Meirelles baseado no livro "Ensaio sobre a Cegueira".
Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.