Denunciante diz que queixa de maus tratos chegou à PSP por sua iniciativa

O Açoriano Oriental entrevistou a pessoa que fez a denúncia de maus tratos na creche Arco Íris, que revelou ter alertado a direção da Casa do Povo das Lajes das Flores para o sucedido naquela valência



Pela terceira vez no espaço de um ano e meio, os Açores são abalados com denúncias de maus tratos em creches: depois do sucedido no Centro de Apoio à Criança n.º 1, em Rabo de Peixe (cujo julgamento condenou as quatro auxiliares, mas apenas uma a prisão efetiva), e do Colégio de São Gonçalo, em Angra do Heroísmo, agora foi a vez da creche Arco Íris, da Casa do Povo das Lajes das Flores. Um caso que foi denunciado por uma ex-funcionária.

A denunciante, cuja identidade ficará anónima por motivos de segurança, trabalhou na creche durante o último ano, substituindo uma funcionária que se encontrava de baixa: em agosto, passou a trabalhar na mesma sala onde uma das suspeitas também trabalhava. E foi nessa altura que presenciou as agressões físicas e psicológicas, que passavam por puxar os braços, dar palmadas violentas nas crianças na hora de dormir, entre outras. “Ela já estava a trabalhar lá há três meses na sala dos bebés e nunca ninguém viu nada”, refere.

Perante o que via, decidiu agir, gravando vídeos nos dias 12, 13 e 14 de agosto. “Fiz questão de mostrar os vídeos ao meu superior [o então presidente da direção] e o que me foi dito foi para estar calada e não mostrar a ninguém. Passou-se uma semana e a senhora ainda a trabalhar”, afirma.

A funcionária em questão acabaria por ser despedida, dias mais tarde. No entanto, a segunda auxiliar de educação que surge nos 17 vídeos que a denunciante entregou à PSP de Santa Cruz das Flores continuava em funções, mas viria a ser afastada de funções posteriormente.

Nos dias seguintes, a denunciante tentou, por diversas vezes e de diversas maneiras, contactar o presidente da instituição, para saber “o que ia ser a minha vida, o que ia fazer”.
Sem resposta, apresenta-se ao serviço no dia 2 de setembro, quando é recebe uma mensagem do presidente da direção, através da aplicação WhatsApp, a informá-la que o seu contrato terminou na véspera. 

“Fiquei em choque, claro, e comecei a ligar para ele várias vezes, porque ele não me atendia. E quando o fez, falou comigo com ar de gozo, a dizer que eu deveria, se tivesse consciência, ficar a trabalhar o resto da semana porque estavam com falta de funcionárias”.

Para a denunciante, esta foi a gota de água e perante o que chama de passividade por parte da Casa do Povo das Lajes das Flores em tomar uma decisão quanto aos casos de maus tratos que reportou, dirige-se à PSP para apresentar queixa.

Ao jornal, a ex-funcionária diz que agiu não por causa da não renovação do seu contrato, apesar da falta de pessoal que a instituição revela, mas sim por defesa das crianças, incluindo uma familiar sua.

Na entrevista com o Açoriano Oriental, a antiga funcionária revela que quando falava das situações com outras funcionárias da instituição “baixavam a cabeça e não respondiam. Ninguém tinha coragem de fazer nada”.

De recordar que o presidente e o secretário da IPSS apresentaram a sua demissão na sequência das denúncias, como revelado por um comunicado assinado pelo tesoureiro da Casa do Povo das Lajes das Flores. No mesmo documento, é referido que “foram tomadas medidas preventivas à altura dos factos pelo presidente(...) terminando com o vínculo laboral de uma funcionária”.

O Açoriano Oriental questionou o Instituto de Segurança Social dos Açores sobre os casos de maus tratos denunciados, mas até ao fecho da edição não recebeu qualquer resposta.  

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