Mulheres também fizeram a história da Autonomia dos Açores

“Quem tem lugar na Assembleia?” é um espetáculo de teatro que quer dar visibilidade às mulheres que também contribuíram para a construção da Democracia e da Autonomia, mas cujo papel não teve o devido reconhecimento.




Onde estavam as mulheres durante o processo autonómico dos Açores? E quantas ficaram de fora da história que hoje contamos? Estas são algumas das perguntas que estão na origem de “Quem tem lugar na Assembleia?”, um espetáculo de teatro que quer dar visibilidade às mulheres que também contribuíram para a construção da Democracia e da Autonomia, mesmo quando o seu papel não foi reconhecido.

O espetáculo foi criado por Joana Moreira e Mariana Pacheco de Medeiros e dá continuidade a “Quem tem lugar à mesa?”, desenvolvido também pelas duas em 2024 e 2025, que abordava a invisibilidade feminina no trabalho doméstico. Desta vez, o olhar vira-se para a participação das mulheres na vida pública e na política açoriana.

A pergunta: “Onde é que estão as mulheres?” foi o ponto de partida para a investigação de Joana Moreira, responsável pela pesquisa e escrita do texto. Ao longo do trabalho, encontrou mulheres que intervieram de forma direta na história da região, cujos nomes acabaram por ficar abafados face às figuras masculinas. Como, por exemplo, Sacuntala de Miranda, Natália Correia, Alice Moderno e Maria Evelina de Sousa.

Mas a intenção não é só recuperar os nomes das mulheres que participaram mais ativamente na política. É também reconhecer todas as que ficaram longe dos lugares de decisão, que cuidavam da casa, dos filhos e da família. Todas as que garantiram que os homens tivessem as condições para participar na vida pública.

“As mulheres sustentam o mundo”
Mas, afinal, será que só quem esteve numa Assembleia ou ocupou um cargo político é que ajudou a construir a democracia?

“As mulheres sustentam o mundo”, sublinha Joana Moreira, e defende que o trabalho que é tantas vezes considerado secundário também teve impacto nas revoluções e na construção da sociedade.

É também esta ideia que o espetáculo quer deixar ao público: questionar quem tem o direito a fazer parte da história e porque é que tantas mulheres continuam a não ter o reconhecimento que merecem.

A verdade é que para se participar ativamente na vida pública é preciso tempo: convém que a vida pessoal esteja organizada, incluindo a educação dos filhos. Muitas mulheres assumiram esse trabalho e, consequentemente, os maridos tiveram o privilégio de poder contribuir para a vida política.

E, neste caso, estas mulheres também não fizeram parte da Assembleia? Também não construíram a Democracia? Também não lutaram pela Autonomia?

Por outro lado, muitas mulheres não participaram de forma ativa porque nunca sequer pensaram que esse lugar poderia ser ocupado por elas. Isto é, não era expectável que fosse.

Açorianidade também se conta no feminino?
O espetáculo está integrado nas comemorações dos 50 anos da Autonomia dos Açores e na programação da PDL26 - Capital Portuguesa da Cultura, e propõe também uma reflexão sobre a identidade açoriana e sobre o lugar das mulheres na sua construção.

Joana Moreira explica que contar a história da Autonomia sem incluir o contributo feminino é deixar de fora uma parte importante daquilo que é a identidade da região. A investigação que fez trouxe-lhe algumas questões, como, por exemplo, de que forma as mulheres viveram o processo autonómico e de que forma contribuíram para aquilo que hoje se entende como identidade açoriana.

Além disso, alerta para a falta de reflexão sobre a experiência feminina na açorianidade, conceito que é associado à identidade cultural dos Açores. Afinal, quando se fala do que é ser açoriano, onde entram as mulheres? E o que ainda falta contar sobre esta parte da história?

Público em movimento
O espetáculo tem cerca de 40 minutos. A criação é protagonizada por Mariana Pacheco de Medeiros, que fala diretamente para o público. Aqui, dá informação histórica e suscita a reflexão sobre a democracia, a autonomia e a participação política.

O espetáculo junta cenografia de Mariana Sales Teixeira, sonoplastia de Mónica Reis e uma plataforma digital, criada por Paulo Machado, com design gráfico de Júlia Garcia. Esta plataforma envolve os espetadores e invoca a ideia de “ágora digital”: os novos espaços onde comunicamos, debatemos e participamos na vida pública.

Para as duas criadoras, não existe uma posição verdadeiramente apolítica. As escolhas que fazemos e o dia a dia que vivemos são políticas e a democracia depende da participação de todos. Por isso, o espetáculo é também um convite a pensar sobre o papel dos cidadãos, dentro e fora dos espaços digitais.

De 9 a 21 de novembro
“Quem tem lugar na Assembleia?” vai passar por várias escolas públicas do concelho de Ponta Delgada, com sessões para os alunos do 9.º ano. Está também prevista uma apresentação na Associação Alternativa, dedicada aos seus utentes.

Depois das sessões nas escolas, o espetáculo chega ao público em geral nos dias 20 e 21 de novembro, às 15h00, no Largo de São João, no âmbito do Festival MICA. A entrada é gratuita, mas está sujeita a inscrição e é limitada a 30 pessoas. A informação sobre as inscrições será divulgada nas redes sociais da PDL26.

A criação esteve em residência artística no Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas e conta ainda com Tâmara Andrade na produção.

E fica a pergunta: quantas mulheres fizeram parte da história dos Açores, mas que hoje não estão presentes na memória coletiva?


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