Foi em Ponta Delgada, concelho onde nasceu e frequentou a escola que Luís Andrade começou a construir um percurso, que acabaria por o levar a diferentes países e a uma carreira profundamente ligada à Ciência Política, às Relações Internacionais e também à Universidade dos Açores.
Luís Andrade estudou na Passarada, frequentou o Liceu e ingressou na Marinha. Conta-nos que foi cadete na Escola Naval onde esteve um ano: “devo confessar que não era aquilo que eu pensava”. Regressou aos estudos, frequentou Português e foi para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, por altura do 25 de Abril de 1974.
Revivendo esse tempo, o professor catedrático, conta-nos que “só havia aulas práticas, que eram as reuniões gerais de alunos. Estive lá vários meses à espera. Mas acabaram por cancelar o primeiro ano de todas as faculdades do país”.
Regressou a São Miguel, onde lecionou História na Escola Antero de Quental, antes de partir, em julho de 1975, para os Estados Unidos da América, onde estudou Ciência Política/ Relações Internacionais, na Universidade de Massachusetts. “Depois comecei o MBA, fiz as cadeiras-base, mas também cheguei à conclusão que não era exatamente aquilo que queria e regressei aos Açores em janeiro de 1982. Foi quando decidi continuar a Ciência Política”.
Recorda que, na ocasião, um colega norte-americano comentou que “eu iria ser pobre a vida toda”. Mas respondi: ‘Não me importo, porque prefiro fazer o que gosto, do que estar num curso de que não gosto, apenas pelo dinheiro’”.
A História, o interesse pela política internacional e a análise das relações entre os Estados foram determinantes para a sua escolha. Recorda a influência do professor Adriano Moreira, com quem “conversei num seminário na Universidade dos Açores e foi um encontro importante para consolidar a minha decisão de continuar na Ciência Política”.
Este seu regresso em 1982 abriu-lhe uma nova etapa profissional. “Trabalhei com o doutor Nunes Liberato, no Governo Regional dos Açores até setembro de 1984, num altura em que estávamos a negociar a adesão à CEE, hoje União Europeia”. Entretanto, o “professor José Enes, primeiro reitor da Universidade dos Açores e então diretor do Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais, convidou-me a candidatar-me a assistente-estagiário”, conta. Luís Andrade aceitou, iniciando, assim, uma ligação à Universidade dos Açores que se prolongaria por quase quatro décadas.
Luís Andrade foi também assessor para as Relações Externas no Governo dos Açores, então liderado por Carlos César, entre 1996 e 2000, assumindo responsabilidades em diferentes organismos e estruturas de cooperação internacional. “Fazia vários trabalhos, sobretudo, acompanhávamos, semanalmente, as questões europeias relacionadas com Portugal. Todas as quintas-feiras à noite viajava para Lisboa, onde participava, na manhã seguinte, numa reunião com representantes dos Açores, da Madeira e dos vários ministérios”. As responsabilidades iam muito além dessas reuniões, “o Comité das Regiões, a Assembleia das Regiões da Europa, a Conferência das Regiões Periféricas Marítimas e a Comissão das Ilhas foram algumas das estruturas em que participei”.
A estas juntaram-se as matérias relacionadas com o Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os Estados Unidos. Confessa que “foi muito interessante, mas muito violento”. (…) Ora, esta exigência profissional teve consequências na vida familiar. Recorda-nos um mês muito intenso em que, por coincidência de reuniões, esteve apenas quatro dias em casa. Apesar do desgaste, considera que a experiência foi “enriquecedora, porque permitiu-me compreender a diferença entre a teoria e a prática das relações internacionais” (…).
Uma das preocupações do seu trabalho internacional foi afirmar os Açores enquanto região ultraperiférica, mas nem sempre foi fácil. Recorda-se de uma reunião da Assembleia das Regiões da Europa, em Paris, onde alguns representantes de outras regiões pouco mais conheciam dos Açores do que o anticiclone. Diz-nos que era “necessário lembrar constantemente que os Açores eram constituídos por nove ilhas dispersas pelo Atlântico, que enfrentavam problemas específicos relacionados com a distância, insularidade, transportes e desenvolvimento económico”.
Luís Andrade participou também, em diferentes períodos, nas negociações relacionadas com a Base das Lajes, na ilha Terceira. Foram cerca de sete anos e foi “muito enriquecedor e importante”. As negociações nem sempre foram fáceis, quer com os “representantes norte-americanos, quer com algumas autoridades portuguesas”.
Um dos episódios de que se lembra prende-se com a Região tentar obter um rebocador ao abrigo do acordo de cooperação. Por três vezes, os EUA apresentaram uma embarcação que acabou por ser considerada obsoleta e inaceitável pelos engenheiros navais que a avaliaram. Perante a situação, Luís Andrade decidiu recorrer ao humor para transmitir o descontentamento português. Disse-lhes: “com amigos desses, quem precisa de inimigos?”. A frase provocou “alguns risos amarelos”. Por isso, refere que “os países não têm amigos permanentes, nem têm inimigos permanentes. O que têm são interesses permanentes. É o chamado realismo político”.
Dar aulas foi sempre uma das suas grandes paixões. Mais do que transmitir conhecimentos, Luís Andrade valoriza o contacto direto com os alunos, a discussão e a partilha de ideias e, “às vezes, sinto falta disso, por isso é que lecionei, ‘pro bono’, depois da reforma”.
A investigação é também uma parte importante da sua vida, até porque em abril de 1989 conseguiu uma bolsa da NATO, o que me “permitiu passar vários meses em Washington, onde desenvolvi investigação na Biblioteca do Congresso e nos Arquivos Nacionais norte-americanos”, que se revelou fundamental para o seu percurso académico e para os trabalhos que viria a desenvolver. Publicou vários livros e artigos em Portugal e no estrangeiro, referindo que “todos têm o prefácio do professor Adriano Moreira. É o meu orientador, quer de mestrado, doutoramento, e também participou no meu júri de agregação e no concurso para professor catedrático”.
Luís Andrade presidiu igualmente ao Conselho de Ilha de São Miguel, entre 2019 e 2021, a convite do então reitor da Universidade dos Açores e, a experiência adquirida ao longo dos anos em reuniões e negociações ajudou-o muito.
Depois de cerca de 43 anos de atividade profissional, a aposentação não foi uma decisão fácil. Confessa que as primeiras semanas foram estranhas: “A pessoa acorda e diz: ‘Não tenho trabalho para ir. Não tenho o que fazer”. Mas a adaptação acabou por acontecer com novas rotinas. Ainda assim, a ligação à Universidade dos Açores não terminou com a aposentação. Colabora “esporadicamente em alguns júris de mestrado, doutoramento e até agregação”.
Ao longo da carreira, recebeu algumas homenagens e distinções, que agradece, embora diga: “penso que não fiz nada de extraordinário. Fiz o meu trabalho, o melhor que sabia. Tentei ser consensual”.
Hoje, entre a leitura, a investigação, os banhos da manhã nas poças da Ribeira Grande e os passeios com os cães, vive uma fase mais tranquila, sem abandonar completamente a atividade académica. Quando questionado sobre aquilo que ainda lhe falta fazer, responde com um sorriso e algo brincalhão: “Dar a volta ao mundo”.
