Artesã açoriana cria figuras em barro para presépios

Artesã  açoriana  cria figuras em barro para presépios

 

Lusa/AO Online   Regional   23 de Dez de 2008, 09:25

Há mais de trinta anos que a artesã Fátima Varão dá forma a pequenos bonecos de barro que compõem os presépios açorianos, uma arte que aprendeu por brincadeira e gostaria de passar aos netos.
 Fátima Varão, 59 anos, é a única mulher num grupo de mais quatro homens, no concelho da Lagoa, ilha de São Miguel, que por se dedicarem "de corpo e alma" ao fabrico de miniaturas em barro são denominados "bonecreiros".

    "Sou uma avé Maria entre quatro padres nossos", afirmou à Agência Lusa a artesã, acrescentando nunca se ter sentido discriminada por ser a única mulher a executar uma arte tradicionalmente levada a cabo por homens.

    A produção de figuras de presépio na Lagoa começou na segunda metade do século XIX, com a abertura das fábricas de cerâmica, mantendo-se ainda hoje a mesma técnica artesanal de fabrico destes bonecos natalícios.

    Em horário pós-laboral e em espaços improvisados na habitação, os operários/artesãos dedicavam-se a esta actividade como forma de angariar mais algum dinheiro para o sustento familiar.

    "Aprendi a moldar o barro com o meu marido, entretanto falecido. Sentava-me ao lado dele e fui aperfeiçoando. Comecei por brincadeira" conta a bonecreira visivelmente orgulhosa da sua obra, que está espalhada pelo arquipélago, continente, Estados Unidos e Brasil.

    Embora reconhecendo tratar-se de um trabalho minuciosos e composto por várias etapas, Fátima Varão adiantou que gostaria que alguém da família desse continuidade à arte bonecreira.

    "Nunca ensinei esta arte a ninguém, mas os meus netos gostam muito de estar ao meu lado enquanto estou a fazer bonecos. Mas eles estão estudando e não têm muito tempo", disse a artesã, que diariamente antes de se deitar faz sempre mais duas ou três figuras para "tirar o stress".

    O processo de fabrico das figuras bíblicas e do quotidiano do arquipélago passa por várias etapas, desde modelagem, paramento, pintura e cozedura.

    Depois de moldado o barro fica a secar durante um dia e só depois é cozido e pintado manualmente explicou Fátima Varão, que ainda não foi capaz de fazer um boneco de cada molde que possui devido às muitas encomendas que recebe.

    Todos os natais, a mesa de jantar da bonecreira transforma-se numa grande montra das suas figuras, embora confesse que não consegue utiliza todos os bonecos que tem, embora não consiga dizer aos certo quantos são.

    Na vila da Lagoa situa-se, também, o único Museu do Presépio Açoriano, que reúne mais de mil figuras produzidas ao longo de vários anos por diferentes bonecreiros do concelho, com destaque para Luís Gouveia, que é considerado o mestre da arte.

    Inaugurado em 1996, o museu funciona actualmente no edifício da Câmara Municipal da Lagoa como um espaço de pesquisa e divulgação, que pretende valorizar a actividade criativa dos barrista da Lagoa.

    Para o vice-presidente da autarquia lagoense, Roberto Medeiros, os bonecos miniatura de presépio estão cada vez mais a ganhar uma importante dimensão na região e fora.

    "Estes bonecos contam a história dos Açores. Através do talento das mãos dos bonecreiros podemos ver as matanças de porcos, coroações, bandas de música, no fundo o quotidiano da Região Autónoma dos Açores", afirmou Roberto Medeiros, lembrando que o museu pode ser visitado gratuitamente de segunda a sexta-feira das 8:30 às 16:30 (mais uma hora no Continente).


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