Eleições Austrália

"Ainda somos um país racista", diz ex-parlamentar trabalhista


 

Lusa/Ao online   Internacional   19 de Nov de 2007, 07:46

Jean McLean, antiga deputada trabalhista no Estado de Vitória, sul da Austrália, não tem dúvidas sobre a longevidade política do primeiro-ministro John Howard.
"Somos um país muito, muito conservador. E, em muitos aspectos, fomos e ainda somos um país racista", refere.

    "Muito disto é o resultado de complacência e conforto", explicou Jean McLean em entrevista à Agência Lusa no "campus" da Universidade de Vitória no centro de Melbourne, onde lecciona.

    "Nós, australianos, temos esta teoria de uma comunidade 'justa', mas a nossa atitude sobre refugiados é inacreditavelmente indecente", exemplifica Jean McLean, activista e veterana do Partido Trabalhista, para onde entrou em 1965.

    "A propaganda anti-imigrantes e o 11 de Setembro elegeram John Howard duas vezes", justificou.

    Jean McLean, actualmente conselheira do reitor da Universidade de Vitória para Timor-Leste, integrou várias vezes a Comissão de Negócios Estrangeiros dos trabalhistas entre 1970 e 2006, funções em que lidou com frequência com a política externa australiana.

    A antiga deputada trabalhista em Vitória considera que a eventual derrota dos liberais de John Howard "provocará uma mudança profunda de atitude em questões como a dos refugiados".

    As sondagens continuam a ser favoráveis a Kevin Rudd, candidato trabalhista à chefia do governo nas eleições federais australianas de 24 de Novembro.

    "Se Kevin Rudd ganhar, a política não mudará tanto como nós gostaríamos, mas acredito que haverá pelo menos uma possibilidade de comunicação", analisa Jean McLean, que se define como "uma socialista não-reconstruída".

    "Com John Howard, pelo contrário, (é inútil) dizer que não se deve atirar crianças borda-fora, (porque) ele nem sequer se importa", comenta Jean McLean, rindo, em alusão à campanha anti-"boat people" nas últimas eleições.

    O conservadorismo australiano, acrescenta Jean McLean, é também o de um país "que continua por reconhecer na sua Constituição os habitantes originais do país".

    Jean McLean salienta que "nem John Howard nem nenhum líder até hoje pediu desculpa" pela brutalidade com que os colonos e a Federação trataram os aborígenes durante dois séculos.

    "O reconhecimento de que os aborígenes eram os habitantes originais da Austrália é um passo na direcção certa. Mas não é um pedido de desculpa", nota Jean McLean.

    "Os aborígenes nem sequer existiam na lei até 1967", recorda Jean McLean: "Considerava-se que a Austrália era terra-de-ninguém, 'terra nullius', antes da chegada dos ingleses".

    Jean McLean critica a Intervenção no Território do Norte, a resposta federal, com Exército e Polícia, a um relatório chocante sobre abuso infantil em comunidades nativas.

    "O Governo Howard veio com esta abordagem, lamentando que existam pessoas em áreas remotas, alcooólicas, sem nada para fazer, vivendo mal e sem cuidados de saúde. Então, mandou-se o Exército. Mas isso tudo é uma porcaria, desculpe o termo. São apenas gestos", disse.

    Jean McLean visitou, há um mês, a norte de Alice Springs, no coração do continente, uma das comunidades aborígenes abrangidas pela Intervenção, que introduz leis de emergência para a população nativa.

    "O Governo manda para lá um militar para chefiar a Intervenção. Tivemos uma reunião com ele mas obviamente recusou que se fizessem minutas. Nem deixou que a rádio local filmasse a conversa", relatou.

    A devolução de dignidade e condições de vida aos aborígenes "é um problema gigantesco", diz Jean McLean.

    "Este problema não será resolvido por governos liberais ou trabalhistas. Necessita de muito mais empatia, de se ouvir as pessoas", acrescentou.

    "O paternalismo de todos os que trabalham lá é enorme", refere Jean McLean sobre as instituições de assistência às comunidades que visitou recentemente: "São organizações brancas".

    "Aqueles aborígenes viviam em barracas. Agora mudaram para casas em comunidades que são ainda no meio de nada, sem acesso aos serviços", explica a ex-deputada.

    "Parte do que foi feito foi bem feito, mas o que continua por fazer é a comunicação. A habitação não é do tipo que eles querem, nem lhes perguntaram se eles queriam casas ou não. A educação é insuficiente e não é na língua deles. Sempre mais problemas", resume.

    "O trabalho em defesa dos aborígenes sempre foi mais do tipo 'Band Aid", diz Jean McLean, nomeando a iniciativa em favor das vítimas da fome na Etiópia, em 1984.

    A destituição dos aborígenes, acrescenta Jean McLean, "aconteceu durante tanto tempo que é muito difícil para essas pessoas articularem todas as coisas que querem junto das pessoas que podem garantir-lhas".

    "A tragédia é que os canais de comunicação não existem", resume.

    "Há vários níveis de vida aborígene", ressalva, entretanto, a activista "Labor" de Vitória, explicando: "Há os licenciados. Há negros que vivem uma vida muito diferente e que têm problemas diferentes dos que estão no 'Outback'".

    Muitas comunidades nativas têm hoje o título legal da sua terra ancestral, como em Byron Bay, a norte do Estado de Nova Gales do Sul, cuja capital é Sydney.

    "Mas o que é o dinheiro? Dinheiro não é de grande utilidade se não for ligado a serviços essenciais. Ter 1 milhão de dólares no bolso não vai mudar tudo sozinho", afirma.

    "O dinheiro é uma peça de maquinaria muito sofisticada entregue a pessoas que não têm onde o gastar", resume Jean McLean.
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