Um país no “fio da navalha” à espera de nova solução política

Um país no “fio da navalha” à espera de nova solução política

 

Lusa/AO Online   Internacional   4 de Nov de 2011, 07:44

Ao início da noite de quinta-feira, frente ao edifício do Parlamento grego, em Atenas, um homem só ergue e agita com a mão direita uma bandeira da União Europeia. Um grupo de pessoas aproxima-se e invectiva-o. Lá dentro, continuam os debates, motivados pelo agravamento da situação política.

“Estive a ouvir o debate no Parlamento, sinto que a maioria do povo grego acredita na Europa e julgo que todos os políticos gregos são anti-europeus. Estou aqui a dizer que quero a Grécia na Europa, e no euro”, diz Kostas, o jovem da bandeira europeia, 30 anos, programador de computadores.

O hemiciclo está rodeado por barreiras de proteção e no cimo da rampa permanece uma discreta força da polícia de intervenção. A noite arrefeceu, reina uma calma ilusória no centro da velha capital. A situação política na Grécia está ao rubro, respira-se um ambiente de fim de regime. Os contínuos acontecimentos na Praça Sintagma, epicentro dos protestos que ocorrem neste país há meses sem fio, denunciam esse lado desalinhado dos gregos face a um antigo ‘status quo’ que pensavam preservado para sempre. Mas tudo se alterou rapidamente, na Grécia, na Europa, no mundo.

“Estou aqui porque penso que ainda é possível. O Presidente da República deveria forçar a demissão do governo e designar outras pessoas para fazer o que é necessário. Estes políticos não vão conseguir manter-nos nem no euro, nem na União Europeia”, insiste Kostas.

O “cavaleiro solitário” é de novo contestado por um grupo de manifestantes mais combativos, poucas dezenas de pessoas. E instala-se uma acesa discussão. Sem violência.

“Precisamos de reformas e não apenas financeiras, mas políticas”, reage. “É preciso dar oportunidade a outras pessoas. É verdade que a nível financeiro estamos manietados, não temos dinheiro, mas é necessário mudar o nosso sistema político”, remata o jovem grego, sem garantir qualquer consenso.

Na Grécia instalou-se a insegurança económica, política, física, num país submetido a draconianas medidas de austeridade impostas pela ‘troika’ internacional. Muitos gregos também se sentem “traídos” pelos seus parceiros europeus, que estão a tentar “controlar” o país, a “desbaratar os recursos naturais”, a “arruinar a população”. Mas a maioria (mais de 60 por cento) diz que pretende permanecer na UE, e na Zona Euro.

Ao desespero, e ao medo, juntou-se agora numa profunda crise política após o primeiro-ministro George Papandreou ter decidido convocar um referendo nacional para legitimar o segundo “plano de resgate” aprovado recentemente pelos parceiros da UE. Uma forma, dizem analistas locais, de tentar garantir o consenso político da Nova Democracia (ND, conservadores), a segunda força política do país e a tradicional alternativa de poder.

Mas o Parlamento grego está desde quarta-feira em sessão ininterrupta, e no final da tarde de hoje - e caso o Executivo consiga sobreviver até essa data - deverá ser votada uma decisiva moção de confiança ao governo do Partido Socialista Pan-Helénico (PASOK), no poder desde outubro de 2009.

Há dois anos, o PASOK obteve 44 por cento dos votos e elegeu 160 dos 300 deputados. Mas com as sucessivas deserções internas, após dois anos de desgastante e polémico exercício do poder, mantém apenas 150 deputados fiéis, que poderão não ser suficientes para aprovar a moção de confiança.

O cenário de um governo de transição, que deverá preparar eventuais eleições legislativas antecipadas no prazo de dois meses, emerge como o cenário mais provável, e quando a maioria absoluta do PASOK parece comprometida.

Para a chefia deste Executivo provisório, que poderá apenas incluir “tecnocratas”, está a ser apontado Loukas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu, antecessor de Vítor Constâncio. Neste novo cenário político, a ND aprovaria na generalidade o novo pacote de austeridade, apesar de exigir “ajustamentos” nas discussões na especialidade.

A mais recente sondagem fornece aos socialistas gregos apenas 15 por cento das intenções de voto, enquanto a Nova Democracia (ND, oposição conservadora) não vai além dos 22 por cento. O próximo Parlamento poderá incluir sete partidos, uma fragmentação inédita na vida política helénica. E quem pode tirar proveito são as formações mais à esquerda, com destaque para o Partido Comunista (KKE), com 9,5 por cento, e a coligação da esquerda radical Syrizia, com seis por cento. Os ultra-conservadores da União Popular Ortodoxa (Laos) mantêm-se nos seis por cento.


Açormédia, S.A. | Todos os direitos reservados

Este site utiliza cookies: ao navegar no site está a consentir a sua utilização.
Consulte os termos e condições de utilização e a política de privacidade do site do Açoriano Oriental.