As autoridades ucranianas identificaram pelo menos 20 mil crianças e adolescentes levados pela Rússia ou transferidos à força nas regiões ocupadas, embora Moscovo já tenha falado em 744 mil logo no primeiro ano da invasão da Ucrânia, em 2022, um número que a comissária para os Direitos da Criança e Reabilitação Infantil não pode confirmar, porque, “além dos russos, ninguém sabe” quantos são ao certo, lamenta em entrevista à agência Lusa
No sentido inverso, apenas 2.003 crianças e adolescentes foram recuperados, normalmente através da sua localização e das respetivas famílias biológicas, já que nenhum contacto a solicitar colaboração de Moscovo “produziu resultados”, segundo a também conselheira do Presidente Volodymyr Zelensky.
Através dos mecanismos atuais, “seriam precisas décadas” para trazer todos de volta, diz a responsável, que na passada terça-feira participou na conferência “Bring the Kids Back UA”, promovida em Cascais pelas embaixadas da Ucrânia e do Canadá em Lisboa para assinalar o quarto aniversário da invasão russa.
Em junho do ano passado foi entregue uma lista à delegação russa, durante as rondas de negociações de paz em Istambul, que resultaram em trocas de prisioneiros de guerra e corpos de soldados mortos em combate, mas não na entrega dos menores.
“Precisamos de um mecanismo mais eficaz. As crianças não podem ser moeda de troca, até porque não temos crianças russas. Portanto, a Rússia tem de devolver as crianças e acabou”, declara.
De acordo com a conselheira presidencial, foi também pedido o envolvimento da Cruz Vermelha e “até agora nada”, em linha com o silêncio que Kiev imputa a Moscovo sobre estatísticas oficiais, bloqueio da monitorização e visitas de organizações independentes, incluindo da ONU, a instalações de acolhimento das crianças na Rússia e nas áreas ocupadas.
Nesta fase, a diplomacia ucraniana procura alargar o apoio internacional por via da plataforma ‘Bring the Kids Back UA’, a que aderiram já 42 países, após esforços de mediação anteriores desenvolvidos pelo Vaticano e pelo Qatar.
“Apelo a toda a comunidade, não só europeia mas mundial: se têm mecanismos eficazes, psicológicos ou educacionais, juntem-se à coligação. Só com um esforço comum conseguiremos trazer as nossas crianças para casa”, declara Daria Herasymchuk.
A comissária ucraniana comenta que o mundo se dotou de instrumentos como a Convenção de Genebra e as normas do Direito Internacional Humanitário, mas “não estava preparado para quem não segue as regras”.
Como resultado, alerta que este tema já transcende a Ucrânia e implica um perigo futuro para a proteção de menores em qualquer país do mundo, o que exige um novo sistema que obrigue os Estados a agir de acordo com o que aceitaram.
O rapto de menores ucranianos levou o Tribunal Penal Internacional a emitir, em março de 2023, mandados de captura para o Presidente russo, Vladimir Putin, e para a sua provedora da Criança, Maria Lvova-Belova, por crimes de guerra, mas nada parece ter mudado na postura do Kremlin.
A comissária conta que “a informação é escassa” nas regiões ocupadas no leste e sul da Ucrânia, mas testemunhos que chegam aos seus serviços de familiares e habitantes contribuíram para a confirmação dos 20 mil casos, com nomes, idades e dados biométricos, muito abaixo das centenas de milhares sugeridas por Moscovo.
“Só com a desocupação dos territórios ficaremos a saber o que aconteceu com cada uma das crianças", frisa Daria Herasymchuk, assinalando que a dimensão dos massacres de Bucha e Irpin, nos arredores de Kiev, só foi descoberta quando as forças ucranianas recuperaram estas localidades no início da agressão russa.
As autoridades ucranianas não conseguem também determinar quantos destes menores são deportações ou transferências forçadas nos territórios ocupados, porque a Rússia não só recusa localizações como impede o contacto das crianças com as famílias biológicas.
Como padrão, são apontadas mudanças de nomes, datas e locais de nascimento, a par da privação da cidadania ucraniana e emissão de documentos russos e ainda ações para “quebrar” as crianças, induzindo-lhes, ao longo de meses, o sentimento de que “não são amadas nem desejadas” e foram abandonadas pelos pais.
Depois disso, são colocadas em famílias de acolhimento ou adotadas, “perdendo a ligação legal, física e mental com a sua pátria”, segundo acusa Kiev, num processo que, no caso dos adolescentes, pode culminar no treino militar e até recrutamento contra o seu próprio país.
“Conseguimos trazer 2.003 crianças. É muito pouco, mas o suficiente para analisar o tratamento dos russos", destaca Daria Herasymchuk, dando conta de um processo metódico que os testemunhos indicam ser o mesmo em qualquer lugar da Rússia.
Em muitos casos, o processo começa com a institucionalização em orfanatos ou unidades clínicas, mesmo que saudáveis, ou colocadas em campos de férias e de educação supostamente temporários mas com o objetivo de separação familiar, como diz ter sucedido com trabalhadores da central nuclear de Zaporijia e os seus filhos como forma de os manipular e colaborarem com a ocupação.
“Como se comprova, a propaganda da Rússia de que está a salvar meninos ucranianos sem família não é verdade”, frisa.
Nas situações extremas, a comissária menciona o recurso a substâncias psicotrópicas, agressões e restrições de comida, “sempre com o objetivo de quebrar as crianças e torná-las submissas”, como atestam relatos no portal “Children of War”, criado como local de reunião de histórias dos menores ucranianos em tempo de guerra.
Daria Herasymchuk relata a experiência de Illia, que aos 9 anos viu a mãe morrer nos bombardeamentos de Mariupol, no sul de país, e ficou ferido numa perna, tendo sido operado sem anestesia num hospital em Donetsk e, ao segundo dia, já estava a ser doutrinado em russo.
Mas também de Vladyslav, 16 anos, que passou 90 dias detido com a missão de limpar salas de tortura e presenciou a tentativa de suicídio de uma vítima, ou ainda de Vitaly, 14 anos, torturado após a acusação de fotografar equipamento militar russo e que, durante o seu cativeiro, acordou com as pernas cheias de sangue, que não era seu mas de um prisioneiro executado a tiro na sala ao lado.
“Até hoje tem dificuldade em tomar banho, porque associa a água ao sangue”, conta a comissária ucraniana, que podia “passar dias a contar estas histórias”, apesar de "não existir forma de descrever o que estas crianças passaram", o que evidencia o papel da plataforma ‘Bring the Kids Back’ como "a única que funciona para recuperar os menores e reabilitá-los”.
Na galeria de fotografias do seu telemóvel, o dia 24 de fevereiro de 2022 marca uma fronteira fatal entre a rotina descontraída de trabalho e a violência desde então: “Aqui está o primeiro dia de guerra, a primeira criança morta. Todos viram essa foto, mas eu sei o nome e a história de todas. Esta é a segunda criança morta, esta é a terceira (...)”.
Para Daria Herasymchuk, a acumulação de crianças raptadas, torturadas e mortas é “mais do que um crime” e acredita que, por muito tempo, será difícil que os ucranianos se reconciliem com os russos: “Pessoalmente, não me esquecerei de nada”.
Ucrânia: A este ritmo levaria décadas para recuperar crianças raptadas pela Rússia
A comissária para os Direitos da Criança da Ucrânia, Daria Herasymchuk, pede à comunidade internacional que obrigue a Rússia a colaborar sobre milhares de menores deportados e separados das famílias, ou a este ritmo serão precisas décadas para recuperá-los.
Autor: Lusa
